
CONVERSAS DIVERSAS
Os meus cantos
Maria (Alves Correia) dos Alcatruzes
Há muita espécie de cantos. Desde os dez de “Os Lusíadas”, os cantos da mesa, o canto lírico, o canto dos pássaros e passarões, o canto da nossa tristeza, sei lá quantos! Os meus cantos são outros. São lugares, são sítios que escolho como meus e, que não cedo a ninguém.
Em pequena, na casa onde nasci, tinha dois cantos meus. Um, entre o guarda-fatos da minha mãe e a parede, onde me escondia quando alguma coisa me aborrecia. O outro, sob a mesa da casa de jantar, onde com a ajuda do meu irmão, montava a minha casa de brincar. Na Quinta do Carregal, era na liberdade de um espaço livre e seguro com a Ria ao fundo, que escolhia os meus refúgios. Ora num
galinheiro desactivado, ora nas pequenas casas espalhadas e abandonadas, ora sob as mimosas.À noite e nos dias de chuva e frio, o canto da grande lareira da sala. Aí, meia deitada em almofadas, olhava o lume, lia um livro, sonhava. Mais tarde, na casa do Porto, era no quarto de águas-furtadas do sótão, que me refugiava. Fui Anne Franck, fui “A Princesinha”, fui Marie Curie, nesse canto. Escutei Brel, Aznavour, li “Os Maias” às escondidas, fumei cigarros, imaginei revoluções, sonhei amores de caixão à cova.
Desta casa, em que moro há 41 anos, fiz o meu canto. Mas dento dela, há subcantos. Este onde estou agora, com o computador à frente e, onde passo muito tempo, a minha sala onde estão parte dos livros (os outros estão pela casa toda), os velhos móveis dos meus avós, quadros bordados à mão, velhas peças, lembranças de amigos, fotos de mortos e vivos que amo, um monte de coisas que só comigo falam. Esse é o canto da memória, o canto da nostalgia e da saudade. Cantos, refúgios, quem não os tem? A velha casa por onde andamos às escuras sem tropeçar nos móveis, o sofá a pedir reforma, mas que já tem a forma do nosso corpo, o tacho antigo em que fazemos arroz doce.

E o outro canto, o mais doce de todos, os braços que um dia me apertaram com paixão e hoje me amparam as dores físicas e a tristeza com uma ternura imensa. É esse o canto em que me sinto melhor.
NE – 1) Eis aqui, depois de uma ausência notada - e em boa parte por culpa minha que me atrasei na postagem e tive até de lhe pedir uma segunda via, com as minhas desculpas - a nossa Maria Alcatruzeira. E trazendo à colação o seu adorado Santo João. Que canto – e que canto. Docinho como o algodão de feira. Ó Maria, vê se não te demoras tanto. Já está.
2) Veja a Autora, a citação que lhes faço na resposta ao cumentário, com o , do escrito da Ana..ónima Salinas, sem s, sobre muá. E aproveito o ensejo para avisar a malta, kéoke faz falta, que tenho no prelo e em fascículos a estória do meu encontro com o Senhor Lech Vałesa (Vauensa, porque o ł em polaco é ua…, okeu sei, tadinho) em Gdansk. A seu tempo e aos bocadinhos – que a estória é longa. Assim ma aturem; daí este aviso prévio – para se precaverem. Atempadamente. Esperem pela pancada...




15 comentários:
Quem disse que o teu canto é realmente mudo?
Que ele não tem a tua música particular e mágica...
Fique com Deus, menino Henrique.
Um abraço.
Maria;
Nunca tinha prestado muita atenção, mas é bem verdade que ao longo da vida e desde muito cedo, procuramos sempre um canto para certos momentos mais pessoais, como ler, refletir, rezar, imaginar e mesmo sonhar...
Talvez os cantos nos dêem uma certa segurança porque estamos protegidos entre paredes de agressões sejam visuais ou fisicas.
"O Canto", seja da casa, do jardim ou de não importa qual lugar, é no fundo a muralha do nosso Castelo.
bjs, Maria,
da Anita e Osvaldo
Adorei este texto de cantos e encantos!
Bjs
Há cantos que são um encanto.
Beijo para quem é de beijo ,abraço para quem é de abraço..
Osvaldo:
É isso mesmo. Explicaste perfeitamente o que sinto. Talvez por isso, eu gostasse de ter vivido noutro tempo, no dos castelos, para ter um só para mim.
Abraço do João, beijinhos para a Anita e para ti, da
Maria
Carla Isabel:
Obrigada e um beijinho da
Maria
Manuel Marques:
Obrigada e, que encontre um canto que seja um encanto.
Beijinho
Maria
Ó Maria, estou encantada!
Apresentou-nos a sua história de vida de uma forma realmente en...cantadora. Foi, também, a mais linda declaração de amor que li nos últimos tempos. Este texto é tão simples, tão bem escrito que tocou o canto mais íntimo do meu coração (sim, o Chefe vai dizer-lhe que sou uma chorona). Se calhar porque também tenho um canto chamado João?!
Beijinhos
AS
Henrique querido...vim agradecer as doces palavras deixadas em meu humilde cantinho.
Já sou sua perseguidora viu? rsrs
E a partir de agora, sua fã e amiga tb.
Possolinkar sua casinha?
Bezitos!!
Anónima Salina
Obrigada, amiga. Histórias de amor e lembranças feitas, que a saudade traz à memória da Maria, que se refugia nelas, (mais um canto) para fugir a um mundo que a assusta.
Beijinho
Maria
Fantástica esta visão, esta forma de te sentires nos teus cantos especiais. Realmente o nosso canto, seja onde for que o construamos, é sempre o lugar mais especial do mundo, o lugar mais seguro...
Tu és de sentidos, Maria, e só esse ser assim te faz dizer-nos de ti desta maneira tão do teu lado de dentro.
Beijinhos amigos e aquele abraço minha querida.
Para o Henrique um abraço e beijinhos para a sua Raquel.
Tudo de bom e a vida a desandar em plenitude é o que desejo e quero para todos.
Minha eterna Girassol:
Tu, que me conheces, sabes que se pareço extrovertida, há cantos e recantos na Maria, que pouca gente conhece. Até que enfim, tenho notícias tuas. Já estava preocupada. Espero que tudo esteja bem convosco.
Aquele abrraço de sempre, minha amiga.
E um bom canto marcado pelo português Pepe.
Olá Maria
Este blogue,também funciona como um canto, para mim!:)
Claro que felizmente ,também tive e tenho os meus cantos!
Lembro-me de uma fase da minha infância que o canto mais apreciado ,era debaixo da mesa da sala de jantar, onde eu brincava , via televisão e lanchava para não perder pitada das peças de ópera que adorava ver!
Outros tempos , outros cantos!
Bjs
Miriam
Caríssima Maria:
Eu sempre disse que os "encantos" vêm dos "cantos"!Todos os cantos:os de sentar - e sentir - e os de ouvir ( minha adorada música). Gostei muito do seu texto. Aconchegou-me por dentro, não sei se me faço entender.É este estar sozinhas com os outros no coração em concórdia e carinho mudo que nos faz bem e nos alimenta como leite quente com mel(perdoe-se-me a comparação, mas é que eu gosto muito...)Ofereça-nos mais do seu "canto".Prometo não o invadir mas gostei muito de espreitar...Bjs
Maria Lúcia Garcia Marques
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