
Antunes Ferreira
Querem saber uma coisa? A minha vizinha do oitavo frente comprou uma balança daquelas para a casa de banho - há quem as plante noutra divisória do apartamento, existe gente para tudo – para a qual, no domínio da condução há que tirar o brevet. Carta de ligeiros, mesmo que profissional, nem pensar. De pesados para cima de 18 toneladas, vá que não vá.
Subimos os três no elevador, ela, a balança e eu, e foi assim que tomei conhecimento da ocorrência. Uma caixa quadrangular, com marca e indicações especificadas para o manual de instruções em CD mas igualmente em suporte de papel. Design exterior apelativo e, pela reprodução do fiel instrumento, igual para o mesmo, no interior da embalagem. Não existia papel multicor pressupondo prenda, nem laço a condizer.

Face aos elementos disponíveis entre o terceiro piso negativo (na parede e no ascensor existe um – 3) e o meu, o quinto, depois de análise sintética mas aparentemente fundamentada, concluí que o objecto era para uso próprio da senhora, cujo nome sei por via da pequena etiqueta na caixa do correio. Laurinda da Purificação Alves, presumo que completo.
Nunca falei com ela, a vizinhança outrora tão loquaz é agora muda e queda. Ensimesmada, sorumbática, rarefeita. Ocasionalmente, a regra é quebrada por uma saudação, b‘dia, b‘noite, muito mais raramente b’tarde. As pessoas trabalham, ou dizem que, e por essa razão é mais difícil encontros a tais horas. Nem no hall da entrada, quanto mais no elevador.
Assim, limitei-me a fazer um sorriso e a desejar uma muito boa noite, bem soletrada para que a Senhora Dona Laurinda não tivesse dúvidas sobre a educação que os meus queridos pais me deram, a urbanidade e o civismo, que são igualmente meu timbre. E saí. Fora um dia c-o-m-p-l-i-c-a-do no escritório, a maldita crise dava azo a nervos em franja, a da Beatriz Costa – lembram-se? – não era nada, comparativamente falando.
Comentei o caso do ascensor e da balança que não cai (felizmente, nem um nem a outra) – o Erle Stanley Gardner que me desculpe o quase plágio – com a minha Etelvina. Que também chegara um pouco antes, da hidro-ginástica. «A mulher é um tanto avantajada, lá isso é, donde me parece ter sido uma boa compra» retorquiu-me a minha caríssima metade, enquanto metia um pronto a comer no micro-ondas, mais precisamente bacalhau à Braz producido en Vigo.

«Avantajada é favor; o que ela é, é uma baleia. Nem se queda pelo cachalote, é mesmo uma fêmea abonada, mas sem esguicho. Uma orca, quiçá». E acrescentei que ela até talvez precisasse de um computador para este lhe avaliar o peso... Satisfeito com a tirada, fui até à sala comum para dar uma volta na blogosfera. Intenção excelente, pontaria afinada, tiro falhado. O Quim estava grudado ao msn, o que, forçosamente, originava protesto contínuo da Lenita. O Mateus, no quarto, trocava xoxos informáticos com umas quantas amigas-prestes-a-ser-namoradas e vice-versa. A situação só tinha uma saída: delete e out.
Foi quando soou a campainha da porta. «Renato, vai ver quem é, que estou a fazer a sopa de pacote». Cumpridor, fui. Espanto: era a Dona Laurinda. «O senhor Costa – também tenho o nome pespegado na caixa das cartas com meio caminho andado no endereço, por que bulas não havia de ter? – desculpe, mas queria convida-lo a subir para ir ao meu apartamento…»
A Etelvina, ouvindo voz feminil, avançara igualmente. «Ao seu apartamento, minha Senhora?» com um tom entre a indignação e a censura descortinável a quilómetros de distância. «Pois sim, vizinha. É que não percebo nada da minha nova balança. É electrónica e as instruções são em inglês e em chinês. E não sei onde meter o disquinho. Por isso…»
Depois de recomendar calma, civilidade e paz aos três descendentes, lá fomos. E tomámos um uísque e um gin e petiscámos umas pataniscas de se lhes tirar o chapéu, depois de uns cajus picantes de lamber os beiços. A Laurinda (avançávamos no tratamento, ostracizámos a Dona) revelou que tinha um arroz de pato que só ela, o do Martinho da Arcada nem sombra lhe fazia. Se lhe quiséssemos dar umas dentadinhas… No arroz de pato, tá visto, o que é que estavam a magicar?
Fui lá abaixo avisar a malta, a única coisa que fazia falta, voltei a subir, sempre de ascensor. Eles estão ali, por vezes balançam, mas nunca caem, portanto há que lhes dar uso e justificar o condomínio, que, diga-se, não é barato.
Abancámos. E eu, depois de uma aguardente velha – uma, não, duas. Ou terão sido três? - compenetrado e cortês até pus o instrumento a funcionar. A balança, óbvio. Não garanto que tenha escolhido o melhor programa, o caso não era fácil, muito menos as alegadas instruções. Entre o convívio e o procedimento correcto, não dava tempo.Por vezes, uma Amizade que se presume eterna, começa numa balança. E pesa-se.
(Texto ligeiramente diferente do também publicado no SexoForte.net)




20 comentários:
Obrigada por sua gentil visita e por palavras tão carinhosas a cerca de meu trabalho.
Voltarei sempre que a minha conexão me permitir abrir as páginas (rs).
Hoje eu trago uma história de infãncia, a de um baobá lá da ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. Garanto que vai gostar muito.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja um bom fibal de semana.
Saudações Florestais !
Henriquamigo:
Fizeste-me lembrar o Quim Barreiros e a "Garagem da vizinha", canção que gramei vezes sem conta, nas últimas excursões dos Reformados da "Estação de televisão oficial do Estado", a que fui. Acho que foi essa música linda, mais a comilança desmedida dos participantes, que me fez desistir. Eu ia para ver as terras e monumentos anunciados, eles para comer. Ganhou a maioria e o Quim Barreiros. Comer, como em casa e pouco. Ora a ida do teu personagem montar a balança da vizinha, lembrou-me estas tistes histórias.
No bom sentido, claro. Há lá coisa mais bonita, que manter a boa vizinhança? Só duvido é que a Etelvina tenha gostado. Orca ou não, a vizinha era fêmea. E a minha avózinha dizia que: "Fêmea ao pé de macho, só galinha ao pé de burro e, mesmo assim com alguém por perto".
Gostei da história e fartei-me de rir.
Espero que o sr cá de casa, não se lembre de ir ajudar vizinhas em apuros. Levava com o "Bacalhau à Brás" congelado e tudo, na cabecinha. Ai levava, levava.
Abraços, beijinhos e queijinhos.
Não há vasilha que meça os gostos nem balança que os iguale; cada qual tem o seu, e, pensando que é o melhor, é o mais enganado...
Abraço.
Mas no final da contas, o que era para e algo individual cabou unidos os três num momento agradavel...
Isto é bom.
Fique com Deus, menino Henrique.
Um abraço.
Silvanita
Gostei da tua estória de infância e adorei a ilha de Paquetá. Já lá fui três vezes, pois tenho um Amigo carioca que lá mora. Ou melhor, fomos, a Raquel e eu. O Ivan Reboredo e a Neusa têm muito orgulho na sua casa e no belo quintalão - e têm toda a razão. Sobretudo quando têm lá os filhos e os netos. E nós também...
Retribuo o desejo de bom fim-de-semana e continuo a esperar que venhas muito por cá.
Qjs
Petitá
Ai essas ciumeiras, ai o pobre do Santo João que não faz mal a uma mosca. A mosquinhas mortas - não sei. Ele éke sabe...
No que concerne (que lindo) aos passeios de aposentados ao som do tal Quim, do Barreiro???, lamento mas não ia lá. Bem gostava, pois o rapaz da concertina e do chapéu e do bigode é uma estrela. Cadente, felizmente.
Já no tocante (isto sim, isto é tocante) a cómidas & bóbidas, é oitra conversa. Óspois conversamos.
Há por aí alguma vizinha de 18 aninhos e virgem (nos calcanhares)? Sá, o João tem todo o direito de lhe arranjar a coisa, quer-se dizer, a balança. Desde kela seja jeitosinha. A vizinha? Não: a balança. Porque a vizinha balança - mais cai...
Abrs machos e qjs fêmeos
Maneken
Boa! De resto, costuma dizer que o marido enganado é o último a saber. O corno, como diria o Dr. Bettencourt do SCP - que afirmou que não é!
Abs ao Pis - e não te esqueças de sacudi-lo
Domdaniel
Pois está claro. É assim mesmo. Não sei bem o quê, mas lá que é - é. Bom fim-de-semana, menino Savio. Caté
Abs
Gente
Falo aqui muitas vezes dos meus netos - e eles merecem que o faça.
Por certo se recordam do Rodrigo, 13, o tal miserável lampião que levou um tiro de pressão de ar no pescoço e na quarta-feira de Carnaval. O malandro está, felizmente, bem, ainda que continue a ser do Benfica. É só desgraças...
Pois o jovem começou a ENSINAR-ME habilyidezias graphykas. O gajo é bom - também neste domínio... Em tudo o que se mete, faz coisas excelentes. Exceptuando, claro, o lampionismo.
O primeiro resultado que se safou - não conto quantos foram para a Reciclagem - é o título deste textículo. Vejam e apreciem. E não batam palmas muito alto, para não incomodar a Laurindinha. Muito menos a balança.
Qjs & abs
Olá Henrique
Postar o link é super simples.
Experimente aqui:
http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/2009/10/oleando-as-engrenagens.html
Henrique, depois de um dia a ouvir falar de doenças eis que chego aqui e me divirto com esta história.
Obrigada
carmo
Apagas os meus comentários e depois queixas-te !
Já não faço ideia o que escrevi mas que escrevi tenho a certeza ! Lembro-me de ter escrito que claro que merecias uma resposta.
Peço desculpa por não comentar
mas , sabes a razão, estou sem tempo para visitar todos os meus amigos.
Beijinhos verdinhos
Verdinha
Cara equipa das Letras
Muito obrigado, mas ainda não consegui - repito: sou um ancião bb = burroblogueiro. Mas, palavra que vou pedir a ajuda dos meus netos...
Qjs/abs
Carminha
Também eu estou muito contente de te ter posto - contente. A blogosfera possibilita-nos uma tal «proeza». E que, por vezes, serve para atenuar situações menos satisfatórias.
Volta sempre e inscreve-te como minha (per)seguidora - e diz aos teus para o fazerem também.
Qjs
Chère Petite Verte
Je ne serais, jamais, capable d’effacer tes commentaires ! E je ne l’ait fait pas !
Bon, tout est bien ce qui finit bien. Ton mari – je suis sur qu’il est en plaine forme, avec toutes les jolies infermières…
Tu l’as dit, chère Verdinha. Este ce qu’il est déjà chez vous ? Même si tu n’as pas de temps pour des grands mots, dit des petits… Merci bien
Des petits fromages
Esses convites são feitos apenas ao homem, ou à mulher, se for vizinho. Aos dois é raro.
A balança devia ser mais qualquer coisa. Agora os electrodomésticos são multi-funções.
Olá Chefe
Eu, abandonada profissional, venho por este meio solicitar um minuto da sua atenção. De balança só o signo (sim, fiz 37 primaveras a 17/10 e V. Ex.ª nem piu!!!), mandei-lhe um mail a perguntar se tem sido incomodado pelo tipo do TC e, novamente, nem piu!!!
Sei que venho pouco à Travessa, mas, como abandonada de profissão, a disponibilidade não a...bunda! A colega de trabalho, operada a um pé, o marido, neste momento a caminho do Kuango kubamgo (????, nunca sei dizer o nome desta região???), o chefe não me responde aos mails. Vou para casa e ainda tenho trabalho de canalização. Não, não é piada, a torneira da cozinha partiu-se e tive de a substituir, com a ajuda preciosa do X. maior.
Só me restam estes textos, que me animam nos curtos momentos de pausa. Obrigada
AS
As balanças dispenso. Agora a comezaina foi de se lhe tirar o chapéu! Nem mais. Beijinhos.
Insolentíssima Cenoura Dona Ananónima
Dondékeu a conheço para Vossa Insolência me tratar por chefe? Da esquadra? De Santa Apolónia? Da banda da Gênêrê? Faça o obséquio de me informar para os devidos enfeites.
Entretanto, e em resposta à solicitação supra, tenho de a informar que a província em causa - e em Angola - é o Kuando Kubango, kamandro.
Por outro lado, não tenho rigorosamente nada a ver com o facto de Vossa Insolência se encontrar em situação de abandonada, com a agravante de ser profissional dela. Dela, situação.
Finalmente, refere-se Vossa Insolência às raríssimas vezes que aqui vem. Dado o facto incontroverso de não a conhecer, nunca a ter conhecido e espero que não conhecerei - não faz cá falta nenhuma.
No que concerne ao marido da colega de Vossa Insolência, o problema sanitário não maquenta nem marrefenta. Ele que tome as gotas, 13 ao deitar, de acordo com a prescripção da Dr.ª Alice Vieira.
De canalizações e outros aretefactos similares, não posso cumentar, com o; motivos religioso-socio-culturais-sportivos impedem-me de o fazer.
Comprimentos, com u
PS (Apesar do pesar continuo) - O Senhor do TC, currespondendo, com o, a solicitação de quem faz este despacho, esfumou-se, obnubilou-se, ostracizou-se. Sem mais.
Palota
De todo este elevador
onde se vem e se vai
só tenho um grande temor
pois balança, mas não cai
Quanto a tudo do banquete
a minha Vina e eu mesmo
Um rissol, um croquete
um pastel - foi tudo a esmo
A Laurindinha coitada
por mor da dita balança
até ficou enjoada
com tamaha comilança!
Qjs
PS - Julgavas que só tu poetavas? Atão, toma!
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