
NO FIO DA MEMÓRIA
Uma Lição de Vida
José Augusto Sacadura Garcia Marques
(Juiz Conselheiro do STJ - Jubilado)
Enquanto a Espanha renascia penosamente das cinzas da Guerra Civil e a Europa recuperava das feridas profundas deixadas pela Segunda Grande Guerra, Portugal, agradecido, louvava Salazar pela paz que não chegara a perder. Viviam-se os finais da década de quarenta e a primeira parte dos anos cinquenta.
Mas, sob a superfície aparentemente tranquila da rotina do dia-a-dia, a polícia política espiolhava diligentemente a vida dos cidadãos e a censura tesourava sem descanso a liberdade de expressão do pensamento.
Eram os tempos áureos da Legião Portuguesa, instituição criada em Setembro de 1936, que, até Abril de 1974, quando foi finalmente dissolvida, constituiu a milícia oficial do Estado Novo. Também na Guarda pacata e bucólica desse tempo, onde eu continuava a desfrutar de uma infância feliz, aconteciam os pequenos e grandes dramas de um viver em ditadura, suavizados por gestos de solidariedade e de nobreza de cidadãos honrados e compassivos.O Dr. António Júlio Proença Abranches, de quem hoje lhes vou falar, foi médico na Guarda, onde fez quase toda a sua vida, tendo sido um exemplo admirável de dedicação aos mais necessitados e de resistência contra as prepotências dos poderosos. Foi director clínico do Montepio Egitaniense, médico do Sanatório Sousa Martins, do Hospital da Misericórdia e da Corporação dos Bombeiros Voluntários.
Viveu e morreu pobre e fez da sua profissão um permanente sacerdócio. Quantas vezes, em vez de se pagar do preço da consulta, tirava da carteira uma nota de vinte escudos para ajudar os mais carenciados na compra de bens fundamentais. Como se pode ler na notícia dedicada à sua morte nas páginas do Jornal A Guarda de 14 de Agosto de 1964, “no desempenho da sua profissão, conquistou gerais simpatias em todas as classes mas sobretudo entre os humildes. Esta simpatia traduziu-se expressivamente no seu imponente funeral”.
Foi o meu médico enquanto vivi na Guarda. Lembro-me muito bem dele no seu consultório do Montepio, examinando-me ao Raio X,
ou, em nossa casa, quando acorria a um chamamento da minha mãe, para me cuidar de uma gripe ou diagnosticar um sarampo. Estou a vê-lo: muito magro, rosto rectangular, ossudo e ligeiramente assimétrico, boca esquinada, sorriso irónico por detrás dos óculos de aros grossos e lentes muito graduadas. Era casado com Dona Ana Rosália Abranches de Sousa Dias, a Senhora D. Anita, grande amiga da minha mãe, que era filha do General Adalberto Gastão de Sousa Dias, notável figura da República e opositor do regime salazarista.No seu tempo de jovem oficial esteve colocado no 12º Regimento de Infantaria, na Guarda, cidade onde viveu, no Bairro do Bonfim. Na sequência do fracasso do movimento militar de 3 de Fevereiro de 1927, no Porto, que comandou, Sousa Dias foi preso e separado do serviço activo, ficando apenas com direito a metade dos vencimentos, sendo-lhe fixada residência obrigatória, primeiro, em São Tomé e Príncipe e, depois, no Faial. Foi julgado em Elvas por um tribunal especial, que o condenou a 2 anos de prisão. Em 1930 foi transferido para o Funchal, tendo, em 1931, chefiado a “Revolta Militar da Madeira”, que se prolongou por vinte e sete dias (e que, aliás, alastrou aos Açores e à Guiné, e motivou incidentes em São Tomé).

Derrotada a Revolta, Sousa Dias, foi demitido do seu posto e lugar do Exército, privado de todas as honras, vencimentos, garantias e direitos e colocado à disposição do Governo. Deportado para Cabo Verde, foi inicialmente internado no Campo de Concentração de São Nicolau, tendo sido transferido depois para a Ilha de Santo Antão e, mais tarde, para a de São Vicente, onde viria a morrer, no Mindelo, em 1934. O seu corpo foi trasladado secretamente, em 1936, para o Cemitério da Guarda, tendo a urna sido depositada, durante a noite, num jazigo da Família de José Maria Proença.
Três anos após o 25 de Abril, o General Sousa Dias foi reintegrado no Exército e no seu posto de General com todas as honras e o direito às condecorações e graus honoríficos que possuía. Em 1986 foi condecorado com o Grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Foi este o Pai da Senhora Dona Anita e o sogro do Dr. António Júlio. O casal também estava afectivamente ligado à oposição democrática, ao “reviralho”, como então se dizia.
Nos meus verdes anos, não tinha obviamente a noção exacta do drama que aquela Família viveu. Mas toda a gente sabia que se tratava de um casal que vivia modestamente e que era exemplo de solidariedade cristã, no mais nobre sentido que a expressão possa ter. Lembro-me, no entanto, com nitidez de um episódio, que passo a relatar.
Um dia o meu pai chegou a casa visivelmente revoltado. Contou que tinha sido procurado no seu gabinete de trabalho por um agente da PIDE que, após uns rodeios mais ou menos atabalhoados, começou a falar das reuniões realizadas no Montepio, girando a sua curiosidade à volta do Dr. António Júlio e do teor das suas intervenções em tais reuniões, em que o meu pai também participava.
Quando compreendeu o objectivo do homem, o meu pai, dominado por uma indignação invencível, avançou sobre ele, ameaçando “corrê-lo a pontapé” se não “se pusesse imediatamente na rua”. Quase estou a ver a cena ...! O meu pai era um homem dotado de uma personalidade forte e vigorosa. Alto, desempenado e bem constituído.
O “pide” assustou-se e, gaguejando umas desculpas, só teve tempo de se esgueirar pela porta do gabinete. Atravessou, a correr, o átrio e, com o meu pai no seu encalço, galgou, num fôlego, as escadas de acesso ao exterior.Saí da Guarda em 1956. Já não pude, por isso, presenciar os ecos que a campanha de Humberto Delgado teve na cidade. Imagino, porém, o entusiasmo e a esperança com que o Dr. António Júlio e sua Mulher terão vivido a candidatura do “General Sem Medo” à Presidência da República.
O Dr. António Júlio morreu num quarto do Hospital da Santa Casa da Misericórdia, no dia 1 de Agosto de 1964. Só dez anos depois chegaria “Abril”.
e-mail:josegarciamarques@gmail.com




13 comentários:
Este exemplo de vida sensibilizou-me bastante.
Casos destes eram sempre encarados com suspeição pela PIDE: um homem destes só podia ser comunista. :)
Nós tivemos o ditador que merecíamos... :(
Mas porque nao pode existir gente boa????
Qjs
Dr. José Sacadura:
É bom que alguém lembre estas histórias. Pena é, que muito poucos as leiam. Talvez se tornassem menos intrasigentes e egoístas.
Como este homem, houve muitos que sacrifiaram toda a sua vida, pelos outros.
Bela e justa homenagem.
A minha mãe que nesse tempo vivia numa aldeia do distrito da Guarda diz-me que nunca se deu conta de nada, naquele tempo a única preocupação dela era guardar cabras e se havia comida suficiente na mesa, hoje sabendo de tudo o que aconteceu quase nem consigo acreditar como tudo lhes passou ao lado.
Dr. Garcia Marques
Expresso-lhe, de novo, a minha admiração por aquilo que escreve muito bem. Com as suas prosas podemos reviver tempos que foram os dos nossos pais, porque eu sou mais novinha.
Muito obrigado e um beijinho para si e outro para a sua esposa
Senhor Conselheiro
Como sempre, muito bem escrito. Formidável. Parabéns para si e para o Dr. Antunes Ferreira
Melhores cumprimentos
*****
Um abraço.
Gostei de passar por aqui...
Um beijo
lili laranjo
Amigo José Sacadura:
Tirei o Dr. de propósito. Amigos, para mim, não são doutores, engenheiros, cavadores, padeiros. São simplesmente, Amigos.
A sua história lembrou-me o meu avô materno. Era médico em Benfica, nesses tempos arrebalde de Lisboa. Républicano, em tempo de monarquia. Também ele, por vezes, em vez de receber os honorários devidos, deixava dinheiro sob os travesseiros dos doentes. Numa Pharmácia (vai à moda do tempo), tinha conta aberta para os doentes mais carenciados. E tinha 9 filhos, amigo. Morreu, porque depois de uma operação (a assépsia não era o que é hoje) coçou um frúnculo num ouvido, este infectou e apanhou uma septicemia que o levou em poucos dias. Os seus doentes, orfãos de médico, quiseram juntar dinheiro e fazer-lhe uma estátua. A minha avó não deixou. Achou que ele não gostaria.
Tempos de João Semana, meu amigo.
Era só o que tinha para lhe contar.
Grandes médicos, grandes homens, que viveram e morreram esquecidos, porque afinal, cumpriam "apenas" o seu dever.
Um abraço
Porque está ausente de Lisboa, sem acesso aos meios tecnológicos, o José Augusto pediu-me que agradecesse, por ele, a quantos quiseram ter a amabilidade de deixar um comentário ao texto "Uma Lição de Vida".
Sei que o escreveu por imperativo de gratidão para com um médico que, na cidade da Guarda, foi, durante décadas, um exemplo enquanto profissional e como cidadão.
Um exemplo a par de tantos outros que doaram a sua vida ao serviço do seu semelhante. Disso mesmo nos dá conta "Maria", relatando o exemplo que constituíu a vida do seu Avô.
Permitam-me que aqui deixe também uma palavra a respeito do meu Avô materno, Francisco Paula de Borba, que, nas primeiras décadas do século passado, foi médico em Setúbal, onde se desmultiplicou durante toda a vida por uma incansável actividade de "João Semana", em que foi também "psicólogo", "conselheiro", assistente social", em suma um "homem bom".
Amigo Garcia Marques:
Quantos "João Semana" esquecidos, ou lembrados apenas por algum familiar ou amigo!
Ao longo da minha vida conheci vários médicos dedicados, que trabalhavam por amor à profissão e aos doentes. Alguns talvez ainda assim sejam ou tentem ser, mas também têm família a quem sustentar. Conheci um, que passou quase toda a vida em África, tratando toda a gente da mesma forma. Quando saiu de Cabo Verde, a tristeza foi geral. Fizeram-lhe uma música, seguiram o navio onde viajou, em pequenos barcos até longe, sempre cantando e chorando.
Era amigo do meu pai. Desde que chegou cá, nunca montou consultório, porque não sabia levar dinheiro das consultas. Se alguém precisava dele, nunca negava ajuda. Era um homem bom, afável, extremamente inteligente.
Era ele que via o meu pai já velhinho, o medicava, auscultava, media a tensão e sobretudo dáva-lhe amizade e a atenção, que a falta de ouvido lhe negava em outras pessoas. Um dia morreu e o meu pai ficou sem médico sem um dos seus elos de ligação com o mundo. A esse, agradeço aqui: Obrigada Dr. Antunes. Outros haveria, a quem devia agradecer. No agradecimento a este vai a gratidão a muitos outros, que infelizmente já cá não estão.
Tenho esperança que ainda haja alguns iguais, mas serão poucos.
Abraço.
Médicos Humanistas
¿Qué significa "Joao Semana"?
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