KADADUASÉUMPAR
Há dias que são mesmo «não»
Margarida Maria
Muito bem, em primeiro lugar, devo dizer que sou jornalista e estou desempregada. Dados importantes para se perceber o que vou contar a seguir. É que, além de jornalista e desempregada, tenho duas filhas a cargo. Jovens que estudam (de verdade, não são só matriculadas!) e têm necessidades. O ensino gratuito é interessante mas, às vezes, pouco real.

Vamos aos factos: a minha filha mais velha está a pedir bolsa de estudo na Faculdade. Enumerou-me os 101 documentos necessários para provar que precisa do apoio do Estado e, entre estes, figurava um papel do banco a especificar quanto pago, mensalmente, de prestação da casa. E lá fui eu ao Millenium BCP pedir o comprovativo.
Já no ano passado a regra era esta: imprime-se da Net o documento e pede-se ao banco que preencha. Este ano, não há papel na Net; o banco deve passar o comprovativo. Pois é! Mas há uma pequena diferença: no ano passado, não se pagava nada e, este ano, a funcionária foi peremptória: «Custa 25 euros!»
A minha cara de espanto deve ter dito tudo, porque a jovem, engolindo alguma da sua firmeza e exibindo um grande sorriso, acrescentou: «desconta-se directamente da conta e já tem IVA». Possivelmente como a minha expressão não sofresse alteração, referiu: «Os outros bancos ainda cobram mais!»

Vou mandar o extracto da conta. Pode ser que sirva. Comprovativo por comprovativo… E pelo menos o dr. Jardim Gonçalves não andará de jacto à minha conta. É que tenho os livros (caríssimos) para pagar.
O outro facto, ocorrido no mesmíssimo dia, que devia ser dia «não», é igualmente interessante. A minha filha mais nova tem um a doença crónica. Daquelas crónicas para toda a vida. E não, isto não é burrice minha. Quando muito é do sistema que todos os anos me obriga a fazer prova de «continuação de doença crónica». Palavra de honra! Palavra, palavrinha!
Pois, como estava a contar, a miúda, que tem 18 anos, tem uma doença crónica, detectada aos quatro meses de idade e, por isso, recebia um complemento de abono de família, pensava eu que para auxiliar às imensas despesas em função da patologia em causa.
Afinal não é nada disto. É que o mencionado complemento de abono de família só é pago quando

os pais (ou os responsáveis pela criança) fazem descontos para a segurança social. Quer dizer: no momento difícil da minha vida, em que me encontro sem emprego e mais preciso de ajuda, como não tenho descontos para a segurança social (estou desempregada!!!!) a minha filha perdeu o direito ao complemento de abono de família.
Pronto, espero que este dia «não» passe depressa, para amanhã a senhora do guichet da faculdade aceitar o extracto de conta bancária e algum outro funcionário da Segurança Social me explicar que tudo não passou de um engano. Pode ser…
NE – 1) A Margarida Maria que hoje começa a colaborar com esta Travessa, para além de grande Amiga é, também, excelente Jornalista. Trabalhou comigo no DN e assumo que fui um tanto «culpado» pela admissão dela no jornal. Mas – está desempregada. O Mundo porco em que porcamente vivemos é assim. És muito bem-vinda, querida marmar.
2) Já agora: se algum dos nossos visitantes quiser (ou souber quem quererá) dar trabalho à Margarida, pode ter a certeza absoluta de que fica bem servido. Atesto, mesmo sem tabelião. A.F.




26 comentários:
Margarida:
Dias "não", são todos e para quase todos. O seu foi mais um.
Quanto mais as pessoas precisam, mais lhes é solicitado.
Tenho uma empregada que só começou a descontar para a segurança social, há 11 anos, altura em que tive de a contratar por motivos de saúde. Já tem 67 anos, vários problemas de saúde, foi pedir a reforma e foi-lhe dito que o que descontara não lhe daria nem meio ordenado mínimo. A mesma pessoa aconselhou-a a meter os papéis para receber a "pensão de inserção social", porque iria receber mais.
A senhora tratou dos papéis que lhe foram pedidos e no fim, teve que pagar doze euros. Isto, sem lhe darem certezas nenhumas de receber o dito subsidio. Quer dizer, alguém que não tem onde cair morto, que vai pedir quase uma esmola, ainda tem que pagar.
Como vê, Margarida, o panorama geral é este. E será que irá receber alguma coisa? Será que a Margarida vai receber a bolsa?
Eis o que veremos nos próximos episódios, desta terrivel telenovela, em que o nosso país se transformou.
Boa sorte, amiga. Lute por aquilo a que tem direito.
Um abraço solidário.
Adoro o meu país,mas é por essas e po outras que cada vez me sinto melhor por aqui(Bélgica.)
Abraço.
Ó Margarida tens a certeza que os documentos não eram 1001?!... é que é mais comum. é um nunca mais acabar... até porque a meio da parafernália burocrática alguma malta desiste outros não entregam tudo e é melhor. É tudo ganho para dentro.
Quanto aos vinte e cinco euros no balcão do banco... sabes, acho que a empregada coitadita não percebeu que te doía a mesma coisa com mais ou menos explicaçãozita mais ou menos sorriso e que o facto dos outros se pagarem de mais não te fazia essa diferença toda. A aberração está no conceito e no valor quanto maior ele seja mas a ti era aquele que interessava...
Agora esta deixa-me pasmada! ou por outra, não deixa porque já acredito em tudo. Mas que é de pasmar... Atão doença crónica não é daquelas que são inquestionávelmente para toda a vida???...
Pois sabes o que te digo: -Somos muita pobrezinhos... de espírito.
Gostava de poder dizer alguma coisa que te pudesse animar mas não consigo. Só mesmo aquilo que já sabes porque é ao que todos nos "agarramos" "A Esperança é a última a morrer..."
Abraço grande da compreensão que precisas de forma relativa porque precisas é de poderes resolver os teus problemas...
Ah... e bem vinda ao "Timão" espaço que o AFerreira conduz com toda a perícia e onde se está bem.
Existem coisas que são mesmo surreais.
Vejam esta: Em maio de 2008 sofri um acidente do qual ainda me recupero.
Depois de uma cirurgia na perna, o médico juntou os ossos e colocou uns parafusos que denominaram fixadores. Por alguns meses andei (???) com aquela espécie de antena de televisor antigo na tíbia, até que o médico entendeu que já era hora de retirá-la.
Marcou a data da nova cirurgia, que deveria ser autorizada pelo Instituto de Seguridade Social.
Como a mobilidade me era difícil, aproveitei o mesmo dia da consulta, para obter a tal autorização, que nada mais é que uma carimbada no papel.
Depois de enfrentar uma longa fila (bicha) a moça atendente recusou-se a carimbar o dito papel, alegando que só poderia fazê-lo no máximo 3 dias antes da data da cirurgia.
Questionei-a sobre o motivo. Sua resposta: "De hoje, até a data marcada, muitas coisas poderão acontecer..."
Não me contive e retruquei, para uma sonora gargalhada dos demais infelizes do recinto:
- Sei; os parafusos poderão cair sozinhos, como os umbigos dos bebês...
A moça ruborizou-se.
Um abraço, Henrique. Parabéns pelo excelente time.
Está tudo dito. Pena é que os portugueses continuem a ser um povo de brandos costumes. Diz o Antunes Ferreira que a Margarida é uma excelente Jornalista. E é exactamente por ser uma excelente Jornalista que está no desemprego.
Força, Companheira
Orlando Castro
Gostaria de poder ajudar, Margarida. As coisas tornam-se tão surreais neste país que nem existem palavras para as classificar. Coisas que são óbvias e deixam de ser, tanta é a papelada e justificações que nos são solicitadas. Não há muita paciência, não. Posso acrescentar, que talvez esse dia 'não' não passe disso mesmo e que tudo se resolva pelo melhor. Um beijo solidário e toda a força do mundo para levar isto para a frente.
Maravilha, das maravilhas!
Eu começo a passar por aqui para pifar umas coisazitas e meter na "merda" do meu.
Tens toda a minha solidariedade, embora isso não sirva para pagar propinas... por enquanto.
Estas situações são dramáticas e,infelizmente, são também cada vez mais frequentes neste país de miséria, onde os grandes Quero dizer os políticos) acumulam pensões de reforma e os pequenos sofrem a crise.
Que socialismo temos ? Será que tínhamos e ideia de que isto iria por este caminho quando colocámos o nosso voto nas urnas ?
Por mim, confesso, que não era isto que eu esperava.
Vou dar a devida publicidade no meu blogue. Infelizmente nada mais posso fazer.
Um abraço sentido
Jorge
por favor, PARE DE MANDAR EMAILS PARA O MEU GMAIL. Já pedi por email e você não para.Não nos conhecemos, sou do brasil.
Henrique,
Tenho estado a por a 'leitura em dia' ...
Sempre assertivo, com humor, Parabéns!
FORÇA Margarida!
deixo uma mão-cheia de cerejas p'ra si e p'ra Margarida e o meu sorriso :)
mariam
nota:já estava com saudades deste 'Universo' tão especial... mas tive alguns problemas informáticos rsrs
Cara Maria
Muito obrigada pela sua solidariedade. Os tempos vão difíceis, mas continuo a lutar.
Um abraço
MM
Caro Manuel Marques
Também posso ir trabalhar para a Bélgica. Preciso é de trabalhar mesmo.
Um abraço
MM
Cara Mariabesuga
Sim, fica a esperança. E a luta também!!!
Um abraço
MM
Quasimodo
Desejo-lhe as melhoras e obrigada pelo seu comentário.
MM
Orlando de Castro
Diz-me o chefe Antunes que também saíste do JN. Desejo-te as maiores felicidades, camarada.
Um dia vai voltar a haver Comunicação Social.
Um abraço
MM
Cara Paula
Muito obrigada. Muitas vezes queremos ajudar mas somos impotentes para o fazer. A verdade é que é bom saber que há outras pessoas do outro lado que nos trazem boas palavras.
MM
CN
Há outras coisas importantes. Obrigada
MM
Jorge Reis
Muito obrigada. Sei que com a vossa ajuda, tudo será mais simples.
Um abraço
MM
Cara Mariam
Adoro cerejas. Muito obrigada.
Um abraço
MM
Gente
Vejam só as respostas da Marmar. Eu não disse kela é uma kryda? Para já - desempregada. Mas, vamos todos trabalhar para ela trabalhar, valeu?
Vocês são o meu orgulho. Obrigado. Venham mais, muitos mais. Virem aqui já é uma ajuda solidária.
Qjs & abs
Assim espero, que tudo dê certo...sei o que é ter conhecimento, vontade, disposição e não ter um emprego no momento que mais precisamos...
beijo
um abraço, muito, muito solidário de quem sabe do que está a falar. tb eu já estive desempregada!
não desista, Margarida.
Sónia, acho que esse é mesmo o problema. Temos conhecimento das coisas, sabemos fazê-las e é revoltante ver como nos deitam fora. Como se perdem tantos saberes a troco de nada.
Obrigada pelas suas palavras
MM
Marta, a mensagem que deixei à Sónia serve também para si. Quantas perguntas fazemos que ficam por responder? Como fazer? Como vai ser?
Mas sou muito positiva e optimista. Vai correr bem!!!!
Um abraço
MM
Um absurdo de que eu já tinha conhecimento... por factos muito semelhantes!
Abraços!!!
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