Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

terça-feira, 2 de Setembro de 2014


NA PRIMEIRA PESSOA




(2ª parte)


Q
uando saímos do palácio chovia cats and dogs – a potes. E da carrinha – zero. Enfarpelados conseguimos apanhar um táxi cujo condutor nos mirou com apreensivo e assim chegámos ao hotel. Com isto tinha de se fazer passar o serviço para os nossos órgãos de informação. Sentei-me a um dos telétipos e vá de martelar as teclas. Mas a casaca, a camisa de peitilho engomado, o laço branco só chateavam. Despi o despiciendo e, como fazia frio, tinha usado por baixo da camisa uma t-shirt vermelha. Imagine-se a cena que motivou tanta galhofa, a pontos de aparecer um daqueles fleumáticos empregados para ver o que se passava e que não conteve um sorriso.

Teclando

A
cabei o meu texto e atirei-me a teclar o que a Avillez me ia ditando e aproveitando os passos possíveis do que eu escrevera; a solidariedade é muito bonita sobretudo quando exercitada em meio traje de cerimónia. Mas estávamos convencidos a João e eu que no meio do barulho das luzes nenhum leitor daria conta dessa reportagem a duas mãos como num piano Steinway. Dessa maneira conjugaram-se autores e trabalhos mais ou menos literários. Em Lisboa, pelo menos que eu soubesse, não se registaram queixas.

E
ram duas da madrugada quando arribei ao bar de Royal Horseguards, onde o respectivo barman me serviu galhardamente uma dose bem aviada do uísque irlandês que considero o melhor do Mundo, o Black Bushmills, aliás da Irlanda ocupada com se diz em Dublin. Na altura fumava que nem uma chaminé Gitanes sem filtro. Perguntei ao solícito empregado se podia dar umas fumaças, Of course, Sir, here is prohibited, but… Para o compensar de tanta gentileza convidei-o a beber um copo comigo, para mim o terceiro – com soda.

C
om muitos cuidados, olhando minuciosamente em redor, o mister Jonhson, que nascera na Irlanda ocupada, aceitou a proposta. Mas como o Demo podia estar atrás de uma porta, mesmo no Horseguards, deu por encerrado o bar, fechando os dois acessos. Conversa pra cá, Bushmills pra lá, quando eram cinco da matina selámos o encontro com um shakehands. Tínhamos sabido que eramos ambos virgens (de horóscopo) três filhos meus, um casal dele, as moradas respectivas e etc. Só não trocámos e-mails porque na altura era fruta que ainda não amadurecera. Temporã..,  Mas, hoje, já há e continuamos através deles a cultivar a Amizade que fizemos.

H
avia um dia livre e o embaixador Armando Martins Janeira decidira, tal como lhe competia, dar um almoço informal (?) à comitiva presidencial. Era um Senhor. Cultíssimo, para além de diplomata era escritor. Orientalista, estivera por duas vezes no Japão, a última das quais já como embaixador. E até fora condecorado pelo governo nipónico.



Armando Martins Janeira recebendo a conderoração

O acolhimento que deu aos componentes do grupo português foi sensacional. A sua esposa, Ingrid Bloser, alemã, considerava-se a embaixatriz de Portugal mais… portuguesa. Em Tóquio aprendera o ikebana, a arte japonesa do arranjo floral que praticava e ensinava.

N
o final do almoço, servido o café e os digestivos, Janeira informou Ramalho Eanes das repercussões da sua visita nos órgãos de informação ingleses, um trabalho excelente que o Presidente muito apreciou e que o levou a felicitar o embaixador. Palavra puxa palavra e com a autorização de Eanes coloquei algumas questões ao diplomata, nomeadamente sobre o tema que mais o encantava, o orientalismo. Disse-lhe que a minha mulher Raquel era goesa o que motivou comentários quase entusiásticos dele.

A
 comitiva despediu-se do embaixador e quando eu ia a fazê-lo, ele puxou-me de lado e perguntou-me o que faria no resto do dia e onde tencionava jantar. Informei-o que, primeiro que tudo tinha de mandar a reportagem do dia, aliás coisa pequena pois não tinham havido acontecimentos muito importantes para além, claro, do que se passara na embaixada. E por isso teria de ir ao hotel; depois ficava livre.

M
as você não precisa de ir ao Horseguards. Faz daqui uma chamada para o DN e dita o seu serviço. Já percebi que não se engana e que sabe resumir os assuntos (palavras dele). Lá em Lisboa, no seu jornal, e se for necessário completarão as coisas com os telexes da ANOP. Convido-o para conversar um pouco e em seguida janta cá connosco. Um transmontano é sempre assim. E a minha mulher também embeiçou consigo. Queremos, quando a ocasião se propiciar, conhecer a sua goesa. Impossível dizer que não.
Onde ainda existem palheiros...

P
or isso, assim aconteceu. A conversa e o jantar (aquele sim, absolutamente informal), terminou com uma bagaceira de Felgueiras, donde Janeira era natural. Ouça lá, meu amigo, Felgueiras, mas de Trás-os-Montes, uma aldeia pequenina a 13 quilómetros de Torre de Moncorvo. Onde ainda existem palheiros. Por acaso a nossa empregada Conceição Gomes também era de lá, tinha casa, construída pelo pai, quando tinham retornado de Angola, mais precisamente do colonato da Cela. E bagaceira. E eu já tinha estado em Felgueiras e visto os tais palheiros.

M
as que homem extraordinário que você, Antunes Ferreira, me saiu. Sabe tudo, conhece tudo, andou por todo o lado, corre os cantos do Mundo (ver nota acima, foram palavras do diplomata…), o que aproveitei para lhe contar mais uma anedota para além das várias que tinha “atirado” durante a tarde. Sabe o Senhor Embaixador, qual é a diferença entre Deus e Mário Soares? Não sabia; e eu elucidei-o: Deus está em toda a parte; Soares esteve. Mais umas boas risadas em que a Dona Ingrid participou. Teutónicas, mas participou.

E
le ia aposentar-se no ano seguinte, 1979. Tínhamos, forçosamente de ir visitá-los à vivenda que possuía no Estoril, o que viemos a fazer. Infelizmente pouco tempo depois faleceria. Na rua onde moro existe uma outra perpendicular com o nome dele. Homenagem justíssima. Compromisso selado com a famosa bagaceira e conversa animada a entrar pela noite. Mesmo sem ter delegação para isso, sugeri-lhe que depois da reforma fosse colaborador do Diário de Notícias. Trato feito e mais charla e mais bagaceira e com isso eram três da matina, que é como se diz em Felgueiras, mas de Trás-os-Montes. Mais uma noite perdida? Nada, não, mais uma noite ganha. 


Começou-se pela London Tower

A
 porra é que no dia seguinte de manhã, com a visita à Torre de Londres, ao Parlamento e à abadia de Westminster terminava a viagem oficial do Presidente Ramalho Eanes. Alvorada às cinco e meia. Depois de fazer as abluções mínimas mas necessárias, começou o périplo. A guia, (bem bonita, aliás) foi dando ensinamentos e explicações.  A London Tower com uma história de mais de 900 anos, fora construída por William, o Conquistador, para afirmar o seu poder e proteger a cidade.

F
ortaleza, palácio, prisão, arsenal, é uma das edificações mais famosas do mundo. Aqui guarda-se, além de muitos tesouros históricos, corvos, armaduras e as Jóias da Coroa, o tesouro mais precioso da Grã-Bretanha. A história da torre começou no século XI. É a primeira fortaleza europeia, já foi ocupada pelos Romanos, foi palácio real, prisão, local de execução, arsenal, abrigo de animais selvagens e casa de jóias. E podem-se ver os vestígios de cada uma das partes desta história extraordinária.
Com um par de...

D
e seguida o Parlamento. E de acordo com a guia, (repito, elegante e belíssima com um par de... olhos) o Palácio de Westminster, também conhecido como Casas do Parlamento, ( Houses of Parliament) é onde estão instaladas as duas Câmaras, a dos Lordes e a dos Comuns; fica na margem norte do Tamisa e próximo de outros edifícios governamentais ao longo da Whitehall. É um dos maiores Parlamentos do planeta. Tem mais de mil salas, cem escadarias e cinco quilómetros de corredores.

E
 pela última vez, a guia, (que mulheraça com todas as curvas nos respectivos lugares) informou: A Igreja do Colegiado de São Pedro em Westminster mais conhecida como Abadia de Westminster (Westminster Abbey) é uma grande igreja em estilo gótico é considerada a mais importante de Londres e, talvez, de toda a Inglaterra. É famosa mundialmente por ser o local de coroação dos monarcas do Reino Unido. Entre 1546 e 1556 obteve o estatuto de Catedral e actualmente é uma Royal Peculiar.

O seu carro já apareceu
(A foto é posterior) 

N
ela aconteceu o impossível. Durante a visita, Ramalho Eanes fez-me sinal para me aproximar dele, o que fiz. E não sua voz característica, mas baixinho, sussurrou-me "o seu carro já apareceu". Olhos esbugalhados os meus. Podia lá ser. Podia. A dona Odete da secretaria da redacção recebera da PSP a informação de que o meu Honda 600 fora encontrado, ainda que em muito mau estado. Comunicou para o Royal Horseguards. Mas eu já tinha saído com a bagagem. Tentou outro número da sua lista e ouviu uma voz de homem perguntar-lhe o que acontecera. Disse-lhe que não era nada preocupante e pediu-lhe que me informasse do aparecimento do meu mini para eu ficar mais sossegado. A voz era do ajudante de campo do PR que transmitiu a Ramalho Eanes o que acontecera ao meu boguinhas. O presidente disse-lhe que ia resolver o assunto; e resolveu. O prometido – cumpre-se. Ele há dias em que um homem não deve sair de um hotel, de madrugada.

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NB O Honda 600 podia ter ficado como está no título, mas felizmente não ficou...

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA
Honda 600:
Do carro

a Eanes 




Antunes Ferreira
D
e 13 a 17 de Novembro de 1978 o Presidente da República general Ramalho Eanes fez uma viagem ao Parlamento Europeu, então em Estrasburgo, ao Conselho da Europa e ao Reino Unido. A finalidade da deslocação era participar na construção de uma Europa forte e democrática. Acompanhavam-no jornalistas convidados entre os quais pelo “Diário de Notícias”, eu. Lembro-me da Maria João Avillez que reportava para o “Expresso” e de outros não me recordo agora.

N
o início desta viagem, o mais difícil para mim foi arranjar uma casaca para o jantar de gala oferecido pelo lorde mayor de Londres, Sir Kenneth Cork. Tarefa realmente espinhosa, dado o tamanho deste animal, finalmente resolvida no Guarda-roupa Anahory, que me alugou a que fora usada pelo Vasco Santana
Vasco Santana & Beatriz Costa
na “Canção de Lisboa” com a Beatriz Costa. E mesmo assim foi preciso descoser as costas do colete… Dali desloquei-me à Camisaria Moderna onde comprei uma camisa própria, de peitilho engomado, botão de madrepérola e laço branco.

A
 partida num avião da TAP estava marcada para o dia seguinte pelas três da tarde. Ainda fui a casa na Travessa do Ferreiro à Lapa (nunca percebi por que motivo os presidentes da Câmara Municipal de Lisboa não mandaram mudar o nome para Travessa do Ferreira; mas vinguei-me anos depois, repondo a justa ex-homenagem no título do meu blogue…) para buscar a mala, que a Raquel já arranjara, a casaca e a minha Remington portátil. Em baixo, à porta do prédio número 5, estacionei o meu Honda 600 onde se encontrava a tal camisa e os restantes artefactos do vestuário, excepto a casaca que já estava em casa para ser passada a ferro.

E
ntão, a minha cara-metade ainda insistiu comigo para comer umas sandes pois a noite seria complexa e prolongada no quotidiano da Avenida da Liberdade, para combinar a maneira de ali chegar o serviço diário, dar os números de telefone onde podia ser encontrado (na altura nem pensar em telemóveis…) etc. Por isso, comi as duas que ela também preparara, com um copo de tinto alentejano. O melhor, ou seja, o pior estava para vir. Quando cheguei à rua - do Honda nem pó. Tinha sido roubado.
... tinha sido roubado


E com ele, as peças de roupa de cerimónia; obviamente apenas escapara a casaca. Meti-me num táxi e rumei ao DN, onde a dona Odete, chefe da secretaria, para além de acertar as coisas e dar-me as notas de libras para a viagem, telefonou para a PSP dando conta da ocorrência.

D
e manhã cedinho fui de novo à camisaria no Rossio e comprei as peças que tinham sido surripiadas. O caixeiro que me atendeu era o mesmo do dia anterior. Contei-lhe a minha “desgraça” o que acolheu com um ar pesaroso. Mas, no fundo estava contente ainda que educadamente não o mostrasse. Um cliente gordo e em duplicado tinha de ser tratado com a melhor das atenções. E num gesto benemérito até me ofereceu uns botões de punho de madrepérola, mas falsos que nem um Iscariotes.

N
outro táxi cheguei a tempo e horas ao aeroporto militar do Figo Maduro, onde fui encontrando os membros da comitiva. O coronel António Menezes, goês da mais fina cepa, para a sua malta o “Catucho”, que eu conhecera no RI1 e que afinal era primo afastado da minha esposa (costuma dizer-se que os goeses são quase todos primos…) pedira a Ramalho Eanes uma boleia até Estrasburgo o que lhe foi concedido. Eram camaradas na antiga Escola do Exército e isso diz tudo. Aterrámos na cidade francesa que antes fora alemã, e as visitas foram um singelo pró-forma. Seguia-se Heathrow. No meio de um tráfego encalacrado, dois motoqueiros da polícia levaram-nos até ao Royal Horseguards, hotel luxuoso em que ficavam os representantes dos órgãos da comunicação social. Quartos – magníficos; e numa dependência não muito ampla havia quatro telétipos e três telefones com ligação directa a Lisboa.

Royal Horseguards

U
ma breve nota para dar conta do hotel Royal Horseguards. Tem vindo a obter ao longo dos anos os maiores prémios da hotelaria britânica, com troféus expostos em cristaleiras no átrio da entrada. Ocupa um edifício classificado como Grau I com vistas para o London Eye e fica a poucos passos da National Gallery. Também se encontra perto de Covent Garden e da Theatreland (área dos teatros). E, claro, paralelo ao Tamisa. Empregados fardados a preceito solícitos mas imperturbavelmente ingleses ou afins. Fleuma q.b.

A
 Maria João Avillez, pouco à vontade com os telétipos, pediu a minha ajuda para enviar o seu serviço que felizmente era para um semanário. Obviamente acedi. O jantar de gala no palácio de Buckingham não contemplava o grupo dos escrevinhadores. Mas, o oferecido pelo Senhor Cortiça seria outra loiça, como depois veríamos. De manhã fomos até à Real Academia Militar de Sandhurst (em inglês: Royal Military Academy Sandhurst - RMAS), também conhecida simplesmente como Sandhurst, que era e é o centro da preparação inicial dos oficiais do exército britânico.

F
azia um frio de rachar Himalaias. Os visitantes estavam sentados em frente do local das manobras da infantaria e da cavalaria motorizada ou seja tanques e carros de assalto, bem como transportes de tropas. A artilharia também participava na exibição. Os mísseis terra-ar eram novidade.
... eram novidade
E a força aérea completava o quadro Eanes era general e daí a visita militar. Nesses momentos ao frigorífico matinal juntara-se um simpático nevoeiro. Manuela Eanes tiritava, mais Senhoras também enregeladas acompanhavam-na no bater de dentes. Os militares aguentavam como lhes competia. Pela minha parte sentia-me no Polo Norte a caminho da casa do Pai Natal, onde mais tarde iria...

F
inalmente uma alma mais caridosa e atenta mandou distribuir mantas aos assistentes quase pinguins.  A coisa compôs-se e mau grado o protocolo esse benfeitor teria sido ovacionado com palmas e tudo. Mas o candidato não apareceu, ou, pelo menos, não foi reconhecido; daí a ausência de aplausos. Terminada a mostra das qualidades castrenses e da qualidade dos veículos, obuses e outros, o almoço decorreu no refeitório dos oficiais da academia militar. Estava na hora de regressarmos a penates e assim aconteceu.

E
ntretanto ia caindo a noite e o jantar no imenso salão nobre da câmara municipal londrina começava às 20:00 (TMG). Toca de envergar as vestimentas de gala e ala que se faz tardem a bordo de uma carrinha co City Council. A Maria João usava um vestido comprido, aliás bem bonito e o resto da malta casaca. Na mesa fiquei sentado em frente de general dum Regimente de Couraceiros com a sua couraça a brilhar e à minha direita estava a esposa dele, enfarpelada num vestido muito british cor-de-rosa com florinhas azuis e amarelas. Um miminho.
Botão de madrepérola

A
 refeição metia entre outras iguarias faisão no forno. Sem saber a nada, rigorosamente nada, tal como os filetes iniciais com molho de amoras… E aí começou a minha desgraça. Cada vez que me inclinava para agarrar o pão, o bardino do botão de madrepérola saltava do peitilho e com elegância aterrava no meio da mesa. A cara-metade do general ria-se da cena, apanhava o botão e colocava-o no lugar dele. E com os seus setentas e muitos ia comentando que eu era a very funny Portuguese.

D
aí a pouco tentei apanhar um dos copos do serviço e o maldito do botão, plim. A Lady já gargalhava e o restante pessoal da nossa mesa mirava com ar desconfiado perguntando por certo o que se estava a passar. E capturava o fugitivo botão, para o fazer regressar ao peitilho. Na frente, o general carregava o cenho. E a velhota dizia-lhe: My dear this Portuguese journalist is very friendly and well mannered. Just do not know how to use a button mother of pearl. O militar esposo parecia que não gostava muito da graça que se repetiu até que decidi que se lixasse o filho da puta do botão e o meti no bolso.

(Espero que continue)





domingo, 24 de Agosto de 2014



NA PRIMEIRA PESSOA




(2.ª parte)

Antunes Ferreira

O
 soldado chamava-se João Jardim Ornelas e era da Madeira como toda a companhia.   E contou, entre arrancos, que enquanto o pelotão do alferes Simões, o seu dera-lhes descanso. Um grupo chefiado pelo Nóbrega começara a explorar os arredores, enquanto os outros camaradas se tinham estendido à sombra de árvores que por ali havia. A malta do Nóbrega, praí uns treze ou quinze, ele não sabia quantos eram, mas deviam andar por isso, mais homem, menos homem, acercou-se do depósito do lixo do campo de tiro, com a finalidade de encontrar recordações. Ninguém reparara neles, ninguém tomara conta deles.

A
o fim de um pedaço de tempo, voltaram com um achado que era um verdadeiro troféu: uma granada de bazuca enferrujada e torta. O Nóbrega até o convidara para ir com eles examinar a munição antitanques. Mas, o Câmara dissuadira-o. Se ainda fossem umas semilhas assadas na fogueira em que se faziam as espetadas, vá que não vá; mas, entulho velho e ferrugento, nem pensar. No entanto a curiosidade entrara nele e de longe vira o bando dirigir-se até junto do lancil do passeio que rodeava as linhas de tiro.
E já nem disse... o jantar


O
 Nóbrega tencionara endireitar a velha granada e o pessoal esguinado à roda dele assistia à operação. O Nóbrega começara a bater com a porra da coisa no lancil para a tentar endireitar. E a malta a mandar bocas, bate-lhe de lado, dá-lhe de frente que a puta endireita-se, a cabrona não é mais torcida do que tu, ó Nóbrega. E um dos camaradas até começara a cantar o eu venho de lá tão longe, venho sempre à beira-mar. Trago aqui estas coubinhas prá amanhã pró meu… E já nem disse o jantar. Um estouro tremendo, corpos pelo ar, gritos, gemidos, o dianho. Um clarão enorme, e coisas a saltar com tanta força que um pedaço de ferro lhe queimara a manga do fato de zuarte e lhe fizera o lanho que já estava coberto de gaze e adesivo. E ele tão afastado… E fumo, muito fumo, uma nuvem de fumo e cheiro a churrasco.

F
  icámos todos de cara à banda. O coronel Frazão olhava para o tenente Mendes, com uma interrogação muda, e você onde estava? Mendes não respondia, nem com os olhos, nem com um levantar dos ombros, nada. Renato Xavier olhava-o também, mas com melhores pupilas. Um silêncio ominoso fazia-se ouvir em cada um de nós. O capitão ex-miliciano Santos Nunes, comandante da companhia e o alferes miliciano Gaudêncio, comandante do pelotão do Nóbrega, do Câmara, do Jardim, do Nélio de Porto Santo, meio atordoados, repetiam monocordicamente que também eram culpados. E eram, infelizmente eram. Tivessem controlado os seus praças e o cataclismo talvez não se tivesse verificado. Se não fosse a sua falta de atenção, se os soldados estivessem controlados, se não tivessem ido à lixeira. Mas, a História está cheia de ses…
Brasão da PJM

C
 ontinuavam os trabalhos de limpeza daquele pot-pourri de restos humanos, de pedaços de metal, de botas desdentadas. As vísceras eram cuidadosamente recolhidas sob a supervisão dos oficiais médicos, maioritariamente milicianos, que tinham respondido às chamadas aflitas que os tropas do Regimento de Infantaria 1 tinham feito. Era a hora de regressar a quarteis, o que fizemos compungidos e pesarosos. Lá chegados, o comandante mandou-me chamar ao seu gabinete no primeiro andar do edifício principal. Você, Antunes Ferreira, não pode elaborar o auto de averiguações a que se seguirá o de corpo de delito, porque há possíveis arguidos de patente superior à sua.

R
espondi-lhe que sabia perfeitamente dessa impossibilidade, mas que se pudesse ajudar. Claro que pode e até deve. O Antunes Ferreira sabe mais de justiça militar do que muitos oficiais superiores e até generais, por isso… Mandou-me sentar e começámos a trocar opiniões. Em resumo, enquanto era nomeado um coronel para fazer os autos eu ia começar as diligências que entendesse possíveis. Quando o titular viesse eu ficaria como escrivão dos autos e o Ricardo Alves Vieira como meu adjunto; e não se esqueça de dar as suas opiniões a quem chegar – para isso tem o meu acordo.
Teodolito

D
ois dias depois chegou o coronel Júlio Batel, de Engenharia e com ele trouxe dois sargentos munidos de réguas, triângulos, fitas métricas e, principalmente teodolitos. Especialista em minas e armadilhas e explosões diversas, o coronel, depois de se apresentar ao comandante - de que era amigo desde a Escola do Exército - conversou longamente com ele e este disse-lhe quem eu era e que o iria auxiliar na instrução dos autos. Batel compreendeu logo a situação e foi para o meu gabinete que decidira ser o centro das averiguações. Curiosamente entendemo-nos bem logo de início e digo curiosamente porque depois, em Angola ele seria o Chefe dos Serviços de Censura da “província” e com ele eu viria a ter muitas discussões sobre cortes e seus apelos e recursos.

C
 omeçou, naturalmente, por ouvir os principais intervenientes na dramática ocorrência e eu ia metendo o bedelho nas audições. Ele tivera o cuidado – e a gentileza – de lhes explicar qual era o meu papel e aceitaram-no pois sabiam da minha especialidade e, disseram, da minha competência. Agora não me ponho em bicos dos pés, foi assim mesmo, tenho cópias das gravações das diligências, devidamente autorizadas pelo coronel Batel e pelo comandante Mendoza Frazão. Num aparte tenho de dizer que o comandante “emendava” a lista telefónica onde o seu nome constava com Mendonça. Mas era um tipo porreiro, que até queria que eu ingressasse na Academia Militar. Em vão, obviamente.

U
 ns quinze dias depois, chegou ao RI1 o Senhor Raul Ornelas que era o pai do Norberto. Vinha da Madeira pedir o favor de lhe entregarem um relógio Tissot com a caixa em aço e bracelete metálico que ele oferecera ao filho quando ele fizera a quarta classe. O espólio do soldado já lhe tinha sido entregue, mas o relógio não constava dele. Batel disse-lhe que iria tentar encontra-lo. E assim fez. Na manhã do dia seguinte acompanhei-o à Carregueira com os dois sargentos portadores dos teodolitos. O coronel Batel sentou-se numa cadeira de lona, junto ao lancil estilhaçado. Começou a fazer cálculos trigonométricos e deu ordens aos sargentos para se postarem com os teodolitos no extremo de uma linha que ele próprio traçara no chão.
A 25 cm de profundidade


E
  a cerca de vinte centímetros a sul do lancil mandou escavar o solo para abrir um buraco, o que se começou a fazer. Espanto: a 25 centímetros de profundidade estava o relógio agarrado a um pulso cheio de vermes e exalando o cheiro da putrefacção. Foi retirado com luvas de borracha, lavado, limpo, estava quase bom, apenas com umas arranhadelas. A força da explosão enterrara-o. O coronel Batel apenas fez um comentário sobre a força de uma bazuca. Por seu lado, o Senhor Ornelas quando recebeu o relógio chorou de emoção, umas lágrimas grossas escorriam-lhe pela cara curtida. Um homem não chora? Chora.