Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA
Honda 600:
Do carro

a Eanes 




Antunes Ferreira
D
e 13 a 17 de Novembro de 1978 o Presidente da República general Ramalho Eanes fez uma viagem ao Parlamento Europeu, então em Estrasburgo, ao Conselho da Europa e ao Reino Unido. A finalidade da deslocação era participar na construção de uma Europa forte e democrática. Acompanhavam-no jornalistas convidados entre os quais pelo “Diário de Notícias”, eu. Lembro-me da Maria João Avillez que reportava para o “Expresso” e de outros não me recordo agora.

N
o início desta viagem, o mais difícil para mim foi arranjar uma casaca para o jantar de gala oferecido pelo lorde mayor de Londres, Sir Kenneth Cork. Tarefa realmente espinhosa, dado o tamanho deste animal, finalmente resolvida no Guarda-roupa Anahory, que me alugou a que fora usada pelo Vasco Santana
Vasco Santana & Beatriz Costa
na “Canção de Lisboa” com a Beatriz Costa. E mesmo assim foi preciso descoser as costas do colete… Dali desloquei-me à Camisaria Moderna onde comprei uma camisa própria, de peitilho engomado, botão de madrepérola e laço branco.

A
 partida num avião da TAP estava marcada para o dia seguinte pelas três da tarde. Ainda fui a casa na Travessa do Ferreiro à Lapa (nunca percebi por que motivo os presidentes da Câmara Municipal de Lisboa não mandaram mudar o nome para Travessa do Ferreira; mas vinguei-me anos depois, repondo a justa ex-homenagem no título do meu blogue…) para buscar a mala, que a Raquel já arranjara, a casaca e a minha Remington portátil. Em baixo, à porta do prédio número 5, estacionei o meu Honda 600 onde se encontrava a tal camisa e os restantes artefactos do vestuário, excepto a casaca que já estava em casa para ser passada a ferro.

E
ntão, a minha cara-metade ainda insistiu comigo para comer umas sandes pois a noite seria complexa e prolongada no quotidiano da Avenida da Liberdade, para combinar a maneira de ali chegar o serviço diário, dar os números de telefone onde podia ser encontrado (na altura nem pensar em telemóveis…) etc. Por isso, comi as duas que ela também preparara, com um copo de tinto alentejano. O melhor, ou seja, o pior estava para vir. Quando cheguei à rua - do Honda nem pó. Tinha sido roubado.
... tinha sido roubado


E com ele, as peças de roupa de cerimónia; obviamente apenas escapara a casaca. Meti-me num táxi e rumei ao DN, onde a dona Odete, chefe da secretaria, para além de acertar as coisas e dar-me as notas de libras para a viagem, telefonou para a PSP dando conta da ocorrência.

D
e manhã cedinho fui de novo à camisaria no Rossio e comprei as peças que tinham sido surripiadas. O caixeiro que me atendeu era o mesmo do dia anterior. Contei-lhe a minha “desgraça” o que acolheu com um ar pesaroso. Mas, no fundo estava contente ainda que educadamente não o mostrasse. Um cliente gordo e em duplicado tinha de ser tratado com a melhor das atenções. E num gesto benemérito até me ofereceu uns botões de punho de madrepérola, mas falsos que nem um Iscariotes.

N
outro táxi cheguei a tempo e horas ao aeroporto militar do Figo Maduro, onde fui encontrando os membros da comitiva. O coronel António Menezes, goês da mais fina cepa, para a sua malta o “Catucho”, que eu conhecera no RI1 e que afinal era primo afastado da minha esposa (costuma dizer-se que os goeses são quase todos primos…) pedira a Ramalho Eanes uma boleia até Estrasburgo o que lhe foi concedido. Eram camaradas na antiga Escola do Exército e isso diz tudo. Aterrámos na cidade francesa que antes fora alemã, e as visitas foram um singelo pró-forma. Seguia-se Heathrow. No meio de um tráfego encalacrado, dois motoqueiros da polícia levaram-nos até ao Royal Horseguards, hotel luxuoso em que ficavam os representantes dos órgãos da comunicação social. Quartos – magníficos; e numa dependência não muito ampla havia quatro telétipos e três telefones com ligação directa a Lisboa.

Royal Horseguards

U
ma breve nota para dar conta do hotel Royal Horseguards. Tem vindo a obter ao longo dos anos os maiores prémios da hotelaria britânica, com troféus expostos em cristaleiras no átrio da entrada. Ocupa um edifício classificado como Grau I com vistas para o London Eye e fica a poucos passos da National Gallery. Também se encontra perto de Covent Garden e da Theatreland (área dos teatros). E, claro, paralelo ao Tamisa. Empregados fardados a preceito solícitos mas imperturbavelmente ingleses ou afins. Fleuma q.b.

A
 Maria João Avillez, pouco à vontade com os telétipos, pediu a minha ajuda para enviar o seu serviço que felizmente era para um semanário. Obviamente acedi. O jantar de gala no palácio de Buckingham não contemplava o grupo dos escrevinhadores. Mas, o oferecido pelo Senhor Cortiça seria outra loiça, como depois veríamos. De manhã fomos até à Real Academia Militar de Sandhurst (em inglês: Royal Military Academy Sandhurst - RMAS), também conhecida simplesmente como Sandhurst, que era e é o centro da preparação inicial dos oficiais do exército britânico.

F
azia um frio de rachar Himalaias. Os visitantes estavam sentados em frente do local das manobras da infantaria e da cavalaria motorizada ou seja tanques e carros de assalto, bem como transportes de tropas. A artilharia também participava na exibição. Os mísseis terra-ar eram novidade.
... eram novidade
E a força aérea completava o quadro Eanes era general e daí a visita militar. Nesses momentos ao frigorífico matinal juntara-se um simpático nevoeiro. Manuela Eanes tiritava, mais Senhoras também enregeladas acompanhavam-na no bater de dentes. Os militares aguentavam como lhes competia. Pela minha parte sentia-me no Polo Norte a caminho da casa do Pai Natal, onde mais tarde iria...

F
inalmente uma alma mais caridosa e atenta mandou distribuir mantas aos assistentes quase pinguins.  A coisa compôs-se e mau grado o protocolo esse benfeitor teria sido ovacionado com palmas e tudo. Mas o candidato não apareceu, ou, pelo menos, não foi reconhecido; daí a ausência de aplausos. Terminada a mostra das qualidades castrenses e da qualidade dos veículos, obuses e outros, o almoço decorreu no refeitório dos oficiais da academia militar. Estava na hora de regressarmos a penates e assim aconteceu.

E
ntretanto ia caindo a noite e o jantar no imenso salão nobre da câmara municipal londrina começava às 20:00 (TMG). Toca de envergar as vestimentas de gala e ala que se faz tardem a bordo de uma carrinha co City Council. A Maria João usava um vestido comprido, aliás bem bonito e o resto da malta casaca. Na mesa fiquei sentado em frente de general dum Regimente de Couraceiros com a sua couraça a brilhar e à minha direita estava a esposa dele, enfarpelada num vestido muito british cor-de-rosa com florinhas azuis e amarelas. Um miminho.
Botão de madrepérola

A
 refeição metia entre outras iguarias faisão no forno. Sem saber a nada, rigorosamente nada, tal como os filetes iniciais com molho de amoras… E aí começou a minha desgraça. Cada vez que me inclinava para agarrar o pão, o bardino do botão de madrepérola saltava do peitilho e com elegância aterrava no meio da mesa. A cara-metade do general ria-se da cena, apanhava o botão e colocava-o no lugar dele. E com os seus setentas e muitos ia comentando que eu era a very funny Portuguese.

D
aí a pouco tentei apanhar um dos copos do serviço e o maldito do botão, plim. A Lady já gargalhava e o restante pessoal da nossa mesa mirava com ar desconfiado perguntando por certo o que se estava a passar. E capturava o fugitivo botão, para o fazer regressar ao peitilho. Na frente, o general carregava o cenho. E a velhota dizia-lhe: My dear this Portuguese journalist is very friendly and well mannered. Just do not know how to use a button mother of pearl. O militar esposo parecia que não gostava muito da graça que se repetiu até que decidi que se lixasse o filho da puta do botão e o meti no bolso.

(Espero que continue)





domingo, 24 de Agosto de 2014



NA PRIMEIRA PESSOA




(2.ª parte)

Antunes Ferreira

O
 soldado chamava-se João Jardim Ornelas e era da Madeira como toda a companhia.   E contou, entre arrancos, que enquanto o pelotão do alferes Simões, o seu dera-lhes descanso. Um grupo chefiado pelo Nóbrega começara a explorar os arredores, enquanto os outros camaradas se tinham estendido à sombra de árvores que por ali havia. A malta do Nóbrega, praí uns treze ou quinze, ele não sabia quantos eram, mas deviam andar por isso, mais homem, menos homem, acercou-se do depósito do lixo do campo de tiro, com a finalidade de encontrar recordações. Ninguém reparara neles, ninguém tomara conta deles.

A
o fim de um pedaço de tempo, voltaram com um achado que era um verdadeiro troféu: uma granada de bazuca enferrujada e torta. O Nóbrega até o convidara para ir com eles examinar a munição antitanques. Mas, o Câmara dissuadira-o. Se ainda fossem umas semilhas assadas na fogueira em que se faziam as espetadas, vá que não vá; mas, entulho velho e ferrugento, nem pensar. No entanto a curiosidade entrara nele e de longe vira o bando dirigir-se até junto do lancil do passeio que rodeava as linhas de tiro.
E já nem disse... o jantar


O
 Nóbrega tencionara endireitar a velha granada e o pessoal esguinado à roda dele assistia à operação. O Nóbrega começara a bater com a porra da coisa no lancil para a tentar endireitar. E a malta a mandar bocas, bate-lhe de lado, dá-lhe de frente que a puta endireita-se, a cabrona não é mais torcida do que tu, ó Nóbrega. E um dos camaradas até começara a cantar o eu venho de lá tão longe, venho sempre à beira-mar. Trago aqui estas coubinhas prá amanhã pró meu… E já nem disse o jantar. Um estouro tremendo, corpos pelo ar, gritos, gemidos, o dianho. Um clarão enorme, e coisas a saltar com tanta força que um pedaço de ferro lhe queimara a manga do fato de zuarte e lhe fizera o lanho que já estava coberto de gaze e adesivo. E ele tão afastado… E fumo, muito fumo, uma nuvem de fumo e cheiro a churrasco.

F
  icámos todos de cara à banda. O coronel Frazão olhava para o tenente Mendes, com uma interrogação muda, e você onde estava? Mendes não respondia, nem com os olhos, nem com um levantar dos ombros, nada. Renato Xavier olhava-o também, mas com melhores pupilas. Um silêncio ominoso fazia-se ouvir em cada um de nós. O capitão ex-miliciano Santos Nunes, comandante da companhia e o alferes miliciano Gaudêncio, comandante do pelotão do Nóbrega, do Câmara, do Jardim, do Nélio de Porto Santo, meio atordoados, repetiam monocordicamente que também eram culpados. E eram, infelizmente eram. Tivessem controlado os seus praças e o cataclismo talvez não se tivesse verificado. Se não fosse a sua falta de atenção, se os soldados estivessem controlados, se não tivessem ido à lixeira. Mas, a História está cheia de ses…
Brasão da PJM

C
 ontinuavam os trabalhos de limpeza daquele pot-pourri de restos humanos, de pedaços de metal, de botas desdentadas. As vísceras eram cuidadosamente recolhidas sob a supervisão dos oficiais médicos, maioritariamente milicianos, que tinham respondido às chamadas aflitas que os tropas do Regimento de Infantaria 1 tinham feito. Era a hora de regressar a quarteis, o que fizemos compungidos e pesarosos. Lá chegados, o comandante mandou-me chamar ao seu gabinete no primeiro andar do edifício principal. Você, Antunes Ferreira, não pode elaborar o auto de averiguações a que se seguirá o de corpo de delito, porque há possíveis arguidos de patente superior à sua.

R
espondi-lhe que sabia perfeitamente dessa impossibilidade, mas que se pudesse ajudar. Claro que pode e até deve. O Antunes Ferreira sabe mais de justiça militar do que muitos oficiais superiores e até generais, por isso… Mandou-me sentar e começámos a trocar opiniões. Em resumo, enquanto era nomeado um coronel para fazer os autos eu ia começar as diligências que entendesse possíveis. Quando o titular viesse eu ficaria como escrivão dos autos e o Ricardo Alves Vieira como meu adjunto; e não se esqueça de dar as suas opiniões a quem chegar – para isso tem o meu acordo.
Teodolito

D
ois dias depois chegou o coronel Júlio Batel, de Engenharia e com ele trouxe dois sargentos munidos de réguas, triângulos, fitas métricas e, principalmente teodolitos. Especialista em minas e armadilhas e explosões diversas, o coronel, depois de se apresentar ao comandante - de que era amigo desde a Escola do Exército - conversou longamente com ele e este disse-lhe quem eu era e que o iria auxiliar na instrução dos autos. Batel compreendeu logo a situação e foi para o meu gabinete que decidira ser o centro das averiguações. Curiosamente entendemo-nos bem logo de início e digo curiosamente porque depois, em Angola ele seria o Chefe dos Serviços de Censura da “província” e com ele eu viria a ter muitas discussões sobre cortes e seus apelos e recursos.

C
 omeçou, naturalmente, por ouvir os principais intervenientes na dramática ocorrência e eu ia metendo o bedelho nas audições. Ele tivera o cuidado – e a gentileza – de lhes explicar qual era o meu papel e aceitaram-no pois sabiam da minha especialidade e, disseram, da minha competência. Agora não me ponho em bicos dos pés, foi assim mesmo, tenho cópias das gravações das diligências, devidamente autorizadas pelo coronel Batel e pelo comandante Mendoza Frazão. Num aparte tenho de dizer que o comandante “emendava” a lista telefónica onde o seu nome constava com Mendonça. Mas era um tipo porreiro, que até queria que eu ingressasse na Academia Militar. Em vão, obviamente.

U
 ns quinze dias depois, chegou ao RI1 o Senhor Raul Ornelas que era o pai do Norberto. Vinha da Madeira pedir o favor de lhe entregarem um relógio Tissot com a caixa em aço e bracelete metálico que ele oferecera ao filho quando ele fizera a quarta classe. O espólio do soldado já lhe tinha sido entregue, mas o relógio não constava dele. Batel disse-lhe que iria tentar encontra-lo. E assim fez. Na manhã do dia seguinte acompanhei-o à Carregueira com os dois sargentos portadores dos teodolitos. O coronel Batel sentou-se numa cadeira de lona, junto ao lancil estilhaçado. Começou a fazer cálculos trigonométricos e deu ordens aos sargentos para se postarem com os teodolitos no extremo de uma linha que ele próprio traçara no chão.
A 25 cm de profundidade


E
  a cerca de vinte centímetros a sul do lancil mandou escavar o solo para abrir um buraco, o que se começou a fazer. Espanto: a 25 centímetros de profundidade estava o relógio agarrado a um pulso cheio de vermes e exalando o cheiro da putrefacção. Foi retirado com luvas de borracha, lavado, limpo, estava quase bom, apenas com umas arranhadelas. A força da explosão enterrara-o. O coronel Batel apenas fez um comentário sobre a força de uma bazuca. Por seu lado, o Senhor Ornelas quando recebeu o relógio chorou de emoção, umas lágrimas grossas escorriam-lhe pela cara curtida. Um homem não chora? Chora.





terça-feira, 19 de Agosto de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA




(Gravura do "Inferno" de Dante) 

Antunes Ferreira
H
  orror e vómitos assim posso considerar o sentimento misto e repulsivo que se apoderou de mim, face à carnificina que com me deparei.  Ainda hoje, quando recordo o que me surgiu de frente, penso que a minha sanidade mental estava fora do prazo de validade. Comigo tinha outros camaradas de farda cinzenta que abanavam as respectivas cabeças enquanto bramavam não pode ser, não pode ter acontecido, que raio é que aqui ocorreu? Um deles chorava copiosamente, outros limpavam os olhos esbugalhados, aqui e acolá soluçava-se. Eu conto, mas primeiro deixem que me localize.

A
cabado o Curso de Oficiais Milicianos (COM), casei – a guerra colonial andava por perto e candeia que vai à frente alumia duas vezes… - e fui colocado como aspirante a oficial miliciano, para desempenhar a função de agente da Polícia Judiciária Militar no então Regimento de Infantaria 1, na Amadora. Hoje é o Regimento de Comandos, que desempenhou papel fundamental no 25 de Novembro de 1975, sob o comando de Jaime Neves e sobretudo com a direcção de Ramalho Eanes. Porém o que me traz aqui decorre antes do redentor 25 de Abril.

O
 gabinete da Polícia Judiciária Militar (PJM) já existia e ali me instalei. Havia um montão de processos por terminar; ao lado numa outra sala ainda jazia mais papel. Eram os pedidos de amparo de família e dos abonos resultantes da guerra, para além de outros documentos. Resmas do chão até ao tecto, carregadas de pó, apenas com uns corredores enfermiços entre elas. Decidi que me ocuparia delas quando tivesse tempo para isso.
 
Coronel Carrilho
A
presentei-me ao coronel António Augusto Carilho que era o comandante do regimento o qual me alertou para uns “pequenos atrasos” no serviço de justiça; atrasos havia e muitos, pequenos eram apenas força de expressão do coronel, aliás pessoa excelente com que me viria a dar muitíssimo bem. Mais tarde iria encontra-lo já general comandante da Região Militar de Angola. O tenente-coronel Renato Nunes Xavier era um tipo porreiríssimo e excêntrico. Um dia contarei episódios que com ele vivi, ou antes vivemos todos os oficiais.

N
  o dia da minha entrada no gabinete apresentou-se-me o segundo sargento clarinete Ricardo Francisco Alves Vieira. O RI1 tinha uma banda que era considerada a segunda entre as militares, sendo a primeira a da Guarda Nacional Republicana (GNR). O Ricardo, entre uma clave de sol e alguns dó, ré, mi, fá, sol, lá, si era o meu escrivão. Mais, era  um homem magnífico, de quem fiquei amigo. O que se poderia chamar, com pedido de escusas ao Mário Zambujal, um bom malandro.

C
omeçámos uma tarefa ciclópica (expressão mais tarde usada pelo Marcelo Caetano quando chegou a presidente do Conselho, substituindo o cadáver adiado dum tal Salazar). Dar cabo dos processos ainda dentro do prazo, arrumar na cesta secção os prescritos, que eram muitíssimos, e tentar atacar de surpresa os amparos de família. Incomportável para um par de militares, mesmo cheios de vontade de alcançar o objectivo. Daí ter requisitado um cabo miliciano, o que mereceu despacho positivo do comandante. Mas, por força das sucessivas mobilizações para o Ultramar (as colónias) tantos passaram que nem lhe fixei os nomes.

O
s meses iam correndo e a coisa funcionando, de tal modo que o novo comandante que chegara, o coronel Américo Mendoza Frazão, me concedeu mais um louvor, em cima de um outro dado pelo seu antecessor. Assustava-me, no entretanto. Pensava para com os meus botões que, como dizia o Ricardo, ainda seria condecorado com a medalha do Mérito Militar. O que viria a acontecer, publicado na Ordem do Exército. Nada me faltava para ser feliz, castrensemense falando.

T
  al qual estória para crianças, era uma vez um dia que estava um tanto mais animado do que o habitual, fugindo à rotina dos autos de averiguação por coronha de Mauser partida durante a instrução, por faltas a formaturas diversas, por fins-de-semana para além da segunda-feira e outras menores. Mariquices como essas no dizer do Ricardo Francisco Alves Vieira, morador na calçada da Ajuda, escrivão dos mesmos que terminavam pela fórmula sagrada: e lidas as suas declarações as achou conformes e assina juntamente comigo e com o escrivão deste auto.
Actos contra natura


D
ecorria uma averiguação que daria por certo auto de corpo de delito, a que a soldadesca chamava auto de copo de litro. Um soldado fora acusado de praticar actos contra natura com um cabo RD, ou seja readmitido. Que metera o chico também de acordo com os recrutas mais espertalhões e até pelos menos. Linguagem de caserna…  O assunto era escabroso e tinha de ser tratado com pinças. O RDM, Regulamento da Disciplina Militar, seria insuficiente para tal procedimento que, aliás os dois intervenientes juravam pela saúde das mães deles que não tinham praticado qualquer falta e eram até muito homens.  Donde Código Militar.

R
icardo esfregava as mãos de contente, sem descurar a escrevinhadela nas folhas azuis, obviamente. Paneleirices, meu aspirante, paneleirices, se calhar para fugirem à mobilização os pulhas são capazes de tudo, mas não me parece invenção. Além do mais havia testemunhas, eles tinham sido apanhados à noite na caserna pelo oficial de dia. Designação que sempre me deixou perplexo. Oficial de dia uma porra; oficial de noite é que devia ser, pois um gajo tinha de supostamente ficar acordado para ver se o inimigo atacaria entre a meia-noite e a madrugada.

E
stupros, esses, excitavam o eficiente escrivão/clarinete. Tentara por diversas vezes que eu o autorizasse a assistir aos exames se sanidade das pretensas desvirguladas. Nada feito, eu respondia-lhe sempre que aquilo não era o da Joana, tratava-se de coisa séria,
Era coisa séria
só médicos e o oficial da PJM se encontravam no local da avaliação dos estragos nos hímenes das pequenas, que para o efeito eram divididos como um mostrador de relógio, do que resultava o relatório: desflorada às dezasseis e vinte, ou hímen complacente não se verificam perfurações, ou mais raramente, virgindade nos conformes.

E
is senão quando entra pelo gabinete sem bater à porta o sargento-correeiro Correia, ai meu aspirante, que desgraça, que desgraça meu aspirante! Tem de ir lá já! O sorja não era um jovem, bem pelo contrário, e aquela exaltação tinha deter um motivo grave, ou até gravíssimo. O nosso major Mário Manuel Martins Machado( a quem a caserna chamava o pentóxido da merda – cinco Ms: M de major e mais quatro correspondentes ao nome do sujeito) já tem o jipe preparado e quer que o meu aspirante, como oficial de Justiça o acompanhe.

C
orreia, foda-se, mas ir aonde? – explique-se homem. E ele, com as mãos enclavinhadas, torcidas e um esgar de susto na face barbeada, à serra da Carregueira! Estalou lá um reboliço do caralho! Interrompi a audição do oficial de dia e seguido do Ricardo corri para o jipe. O major espumava, explodia, vamos embora, e chicoteava o condutor. Tens a sirene? Então põe-na a apitar e voa para o campo de tiro. Chegava o alferes médico Oliveira e Costa e o sargento enfermeiro Rodrigues. Saltaram para a viatura e ala que s faz tarde!
O "Inferno" de Dante


O
 Inferno de Dante esperava-nos. Em frente à carreira de tiro de espingarda e pistola-metralhadora havia gente empapada de sangue, espalhada pelo terreiro que ali existia, ele próprio um mar vermelho, um cheiro intensíssimo a carne queimada, esturrada, à mistura com cinzas e restos de fardamentos e correias. No meio daquela sanguineira, daquela amálgama de morte, pude ver (juro pelos meus mais queridos que é verdade!) um cérebro a palpitar! Saído da sua caixa craniana que estaria sabe-se lá onde, era uma espécie de resquício de uma vida jovem cortada cerce.  

A
o fundo o restante pessoal, uns duzentos e tantos homens, duas companhias, miravam de boca aberta a cena maquiavélica. Os oficiais impediam-nos de avançar, uns e outros não sabendo o que teria acontecido. Mais ou menos recomposto do impacto tremendo, corri para a secretaria do campo  de tiro, seguido pelo Ricardo: Entretanto chegavam mais viaturas do RI1. Consegui articular, desenrolando a língua, que houvera uma explosão enorme e que pedissem socorros de médicos e enfermeiros de outras unidades. Ao meu lado o escrivão/clarinete conseguira falar por rádio com o Hospital Militar e aos berros fazia o mesmo alerta.

M
achado coçava a cabeça, aliás com pouco cabelo, e meio atarantado seguia a nossa actuação, desesperada. Excelente, rapazes, excelente. Chegavam o comandante e o seu segundo, tenente-coronel Renato Nunes Xavier, mas que desgraça, isto é um massacre, teria sido mina antipessoal? Onde estava o tenente Mendes, oficial de tiro? Foram-no chamar e encontraram-no sentado na bancada de onde se disparava, as mãos na fronte, chorando copiosamente, a culpa foi minha, o culpado disto sou eu, vão para a puta que os pariu, que se fodam os comandos!

No campo de tiro da Serra da Carregueira

E
nquanto isso Oliveira e Costa e os outros médicos que também tinham acorrido ao apelo, juntamente com os enfermeiros tentavam reanimar alguns dos que jaziam por terra. Injectavam-lhes soro, inundavam-nos de plasma sanguíneo, limpavam-lhes as feridas, reinavam o adesivo e as ligaduras, o mercurocromo, a tintura de iodo, os antibióticos e os analgésicos. Os mais destroçados eram enfiados nas ambulâncias que rumavam sirenando para o Hospital Militar e para os hospitais civis. Foram onze, mas alguns não aguentaram. 

M
endes aceitara que o levassem junto do comandante e comitiva, conseguira parar as lágrimas e os soluços, apenas fungava e assoava-se. Ele também não sabia o que acontecera. Seria preciso averiguar a origem da chacina. E olhava para mim, como se eu fosse um anjo salvador, o da guarda falhara. Estávamos nisto quando apareceu o Ricardo, acompanhado por um recruta de farda esfarrapada e queimada, com a cabeça ligada que fora um dos que tinham sobrevivido àquela matança. Inquirido, começou por soltar uns ais e confessou que vira o que tinha ocorrido.

O
s mortos e os restos de outros foram carregados numa camioneta com toldo. Para que não se visse a carga humana sem vida. E o restante pessoal já estava em formatura, oficiais à frente, sargentos e cabos milicianos enquadrando os pelotões que também se enfiaram em viaturas diversas, GMC da segunda guerra, Matadores da mesma proveniência, já naquela altura os nossos aliados tinham proibido o fornecimento de armas e material para atropa que lutava no que em Portugal era chamada a guerra no Ultramar e outros países e até a ONU corrigiam para guerra colonial.
A guerra colonial


C
om uma ou outra designação os combates custavam muito dinheiro para além das vítimas mortais, dos estropiados, dos afectados psicológica e psiquicamente. Começava então o descalabro das finanças de Portugal, crescia desmesuradamente o défice, as armas compradas no mercado negro, as munições, as viaturas Unimog e Berliet, os aviões Fiat, tudo custava montanhas de escudos transformados em divisas estrangeiras que os “bondosos” vendedores e os “solícitos” intermediários só aceitavam assim. As guerras têm sempre os seus “beneméritos” abastecedores. São eles que ganham com elas, são eles os vencedores.

(Continua quando Deus quiser...)