Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

DE DIAMANTINA


Comandanta
incompetenta

João Paulo de Oliveira
C
omo é de domínio público não foi com o meu voto que a "Granda Toura Chefa Sentada", como diz o humorista José Simão tornou-se Mandatária maior do Poder Executivo no âmbito Federal.Apesar de ter plena clareza e acato - sem titubear - o resultado das urnas, foi amplamente divulgado nos meios de comunicação o que a que tomou posse, num processo democrático, disse aos sete ventos: - "Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição..."

O
o que me deixa profundamente exasperado é saber que todo o plano de governo, também anunciado aos sete ventos no processo eletivo, tornou-se letra morta logo após a posse. Fico cá a divagar como ela chegará - se chegar - até o final do mandato com índice de impopularidade jamais visto na nossa amada Pátria, que ainda tem palmeira e sabiás (não sei até quando...).

O
 que me deixa desalentado é saber que na hipótese de renúncia ou impeachment, após comprovadas denúncias de atos ilícitos, num longo e penoso processo, o que nos espera talvez seja pior do que acontece na fábula quando o bode é tirado da sala e, acrescento, na nossa situação aflitiva quando a sensação que temos é que a máquina flutuante está prestes a ir à pique, por conta da incompetência e mentiras da comandante, deixará um fedor insuportável na sala, digo, ponte de comando e, pior ainda, será que um comandante que a substitua terá apoio político amplo, geral e irrestrito para colocar o timão numa rota segura e que tente atenuar e evitar os erros cometidos pela "comandanta incompetenta"?Somente me resta rogar: - Max, traga meus sais centuplicado.


NE Este texto é de autoria do Casto confradamigo, comentador habitual aqui na TRAVESSA. É pequeno mas é muito sabido (o texto) Como sempre acontece com textos de brasileiros, respeito a ortografia, a morfologia e a sintaxe que são utilizadas pelo Autor.
Congratulo-me com este artigo. O Brasil está na moda por mor da Presidenta Incompetenta, Dilma Rousseff que anda a tentar sobreviver no cargo que tem em Brasília. Pelos vistos os brasileiros não pensam assim


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O Raban e a Nelly von Mentzingen são nossos Amigos há milhões de anos. Conhecemo-nos quando ele era diplomata na embaixada da RFA em Lisboa. Daí a ficarmos (bem como os filhos deles e os nossos) ligados por uma enorme Amizade foi um pequeníssimo passo. Voltaram para Portugal e fizeram em Aljezur a sua casa portuguesa, o que nos deixou (a ambas as famílias) muito felizes. São um casal católico extraordinário. E a primogénita Sofia até criou uma empresa de passeios em burros, bem como de diversas artes e agricultura biológica.

Sempre prontos a ajudar, com um enorme espírito de solidariedade e um coração que quase não lhes cabe no peito, tomaram agora esta iniciativa cujo interesse e importância nem sequer é de louvar. Pelo texto que se segue em baixo pode avaliar-se a forma como praticam o amor ao próximo. Por isso aqui deixo um pedido: se quiserem divulgar o mais possível esta proposta ficar-vos-ei muito agradecido. Eles bem merecem
e os refugiados ainda mais.

Vale das Amoreiras, 21 de Julho 2015


Refugiados 
para Aljezur 
                                                                      
N
Prezados vizinhos,
ós, cidadãos alemães de Aljezur, vivemos, em grande parte, uma vida bastante confortável e segura nesta nossa bonita região, longe dos lugares onde se faz a grande política ou de outros lugares onde a vida é vivida de forma dramática. Diria que, no grande teatro do mundo, talvez não estejamos sentados na plateia como os nossos compatriotas da costa sul, mas ainda em bons lugares no balcão olhando para o espectáculo a partir de uma certa distância e com alguma tranquilidade. O que se passa nesse teatro não nos afecta verdadeiramente, assim como não nos afecta em demasia, por exemplo, o drama dos refugiados do Médio Oriente e de África no Mediterrâneo, drama  esse que parece não ter fim.

T
ambém não temos contacto directo com os refugiados, que conseguiram superar as fronteiras da UE apesar da Frontex, e cuja chegada está a levantar grandes emoções na Alemanha, tanto a favor como contra.

F
ace à relutância persistente de vários Estados-Membros em abrir as suas fronteiras aos migrantes, a Comissão Europeia resolveu, como é sabido, distribuir aos Estados-membros da UE, pelo sistema de quotas, os cerca de 40.000 refugiados que continuam a chegar à Grécia e Itália, provenientes sobretudo, da Síria e da Eritreia.

Portugal está a cumprir a sua quota de refugiados

O drama no Mediterrâneo


O
 governo português concordou – ao contrário do governo da Grã-Bretanha e de outros Estados europeus -, em receber a sua quota de 3.100 refugiados até ao final do ano. Segundo informação que recebi de um funcionário do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, de Faro, a central em Lisboa ainda não tem planos concretos para tratar este contingente (distribuição no país, alojamento, acompanhamento, etc.)

O
 que é que nós podemos fazer? A minha esposa e eu somos de opinião - e esperamos que vocês concordem - que nós, os alemães de Aljezur e arredores, podemos dar uma modesta contribuição,, limitada a Aljezur e arredores, para solucionar o problema dos refugiados. Poderíamos, por exemplo, oferecer às entidades oficiais a nossa colaboração no alojamento e no acompanhamento dos refugiados que serão dirigidos para Aljezur. Como estrutura organizacional para este trabalho, poder-se-ia- pensar na criação de uma associação específica, sem fins lucrativos e aberta a todos os cidadãos de Aljezur, ou na cooperação com a associação cultural luso-alemã TERTÚLIA, caso a mesma esteja disposta a colaborar nos desafios que se nos apresentam.

Sofia von Mentzingen



P
orquê nós, os alemães? Lembramo-nos todos de que durante a segunda guerra mundial um grande número de fugitivos alemães, entre judeus e oponentes ao nazismo, encontraram aqui, no país mais pobre da Europa de então, um abrigo provisório antes de poderem emigrar para o exterior.

O
 papel positivo dos retornados. Recordemos também que mais de meio milhão de retornados das ex-colónias portuguesas na África refez a sua vida em Portugal, bem recebidos pelos seus compatriotas, sendo um forte contributo ao desenvolvimento do país.

                       
H
á tanta coisa que poderíamos fazer em conjunto: oferecer as nossas casas não utilizadas ou localizar casas desabitadas que, com a devida autorização dos proprietários e com o apoio das autoridades, poderiam sofrer as necessárias transformações para receber os migrantes. Juntamente com outras instituições, como a ADPHA, por exemplo, a associação arqueológica local bastante activa (guardiã do grande património mouro), ou com a Amovat, a associação dos ingleses, poderíamos pensar em criar uma escola para acompanhar os refugiados de maneira adequada, a nível da língua, mas também em outras áreas.
Crianças refugiadas
O acompanhamento psicológico será especialmente importante, dado que muitos passaram por situações extremamente difíceis. E é óbvio que teríamos que pensar também em fornecer trabalho aos refugiados que, com certeza, quererão retomar uma vida activa. Devemos cuidar especialmente, e esta é a opinião pessoal da minha esposa, das muitas crianças órfãs entre os refugiados.


A
ssim que o S.E.F., em cooperação com a competente Comissão da UE, estabelecer o processo de acolhimento e o seu financiamento - o que provavelmente será o caso no outono -, surgirá a questão como distribuir os migrantes no país. Não penso que perguntarão aos refugiados. E, com certeza, estes nunca se lembrariam de Aljezur. Mas mesmo que seja apenas o Serviço de Estrangeiros a decidir quem irá para onde, duvido que lhes ocorra a Costa Vicentina. Por isso, se quisermos receber refugiados, temos que nos preparar para tal e fazer propaganda, de preferência nas várias línguas relevantes. Mas antes disso importa que se reúnam todos aqueles entre nós que queiram colaborar nesta iniciativa. Se esse for o seu caso, agradecia que entrasse em contacto connosco. A seguir comunicaremos a todos a data e o lugar do encontro.


S
angue fresco para Aljezur: Como sabemos muito bem da nossa própria história de pós-guerra, os refugiados trazem sempre consigo uma riqueza de novas ideias de mundos completamente diferentes, e trazem nova vida, até para nós que, em parte já temos idade mais avançada. E diga-se de passagem que os alemães de Aljezur já deram provas do seu espírito de comunidade em iniciativas mais modestas no passado.

E
ntão, prezados vizinhos, vamos largar esses lugares tão confortáveis no teatro do mundo, vamos para o palco participar activamente!

Cumprimentos, cordiais

Raban e Nelly von Mentzingen         Tel. 282998532             
e-mail: rmentzingen@gmail.com


sábado, 15 de agosto de 2015

FIM-DE-SEMANA





Antunes Ferreira
Ia decorrer no Palácio da Santa Cruz, ali a Almoster, o I Congresso Nacional Religioso. Estavam convidadas padres, dispôs, arcebispos, frades e até um cardeal e as mais diversas irmãs da caridade de todos os conventos do país, excepto, claro, as de clausura que vivem isoladas do Mundo em 35 em mosteiros de Portugal.

Por isso o padre Manuel do Nascimento fora buscar no seu carro a irmã Maria do Rosário de Fátima ao mosteiro onde a Ordem estava instalada. Aparentemente estava uma noite tranquila com as estrelas a brilhar no astro. Mas de repente caiu uma carga de água, chovia a cântaros e os dois não se tinham precavido contra a intempérie, nem um simples chapéu-de-chuva, uma gabardina ou outro agasalho. Além disso e para piorar a situação fazia um frio de rachar pedras.

Acabou-se a gasolina


O padre Nascimento não atestara o depósito do seu automóvel cuidando que não era necessário, a gasolina que levava era suficiente, pois o percurso era maneirinho. Mas perderam-se deram voltas e mais voltas, sentido proibido, sentido obrigatório, uma desgraça; mas esta nunca vem só. E, de repente no meio da chuvada acabou-se o combustível. Senhor padre o que vamos agora fazer? Perguntou a freira. O sacerdote apontou-lhe uma luzinha, podia ser uma casa.

E era. Depois de terem dado corda aos respectivos sapatos chegaram ao local donde vinha a luz e era realmente uma vivenda. Molhados até à roupa interior bateram à porta e veio um senhor atender, que vestia uma gabardina e empunhava um guarda-chuva, ora esta, vêm ensopados, cheguem-se à lareira acesa pelo menos para secarem o vestuário, eu sou viúvo e a minha filha vem-me buscar para ir dormir a casa dela, e por dormir, no estado em que estão sugiro que durmam cá e amanhã logo se verá. Aceitaram.


O problema é que só tenho uma cama de casal...


Continuou o senhor com alguma tristeza, o problema é que só tenho uma cama de casal, não se preocupe, ripostou o cura, a irmã dorme na cama e eu faço uma no chão…, boa ideia, neste armário tenho muitas mantas e abriu as portas móvel recheado de cobertores. E assim foi, o dono da casa saiu, já chegara a filha, o padre Manuel, fez a cama no chão e a monja deitou-se na cama de casal.

Passada uma meia hora, o clérigo estava a pegar no sono, quando a irmã Maria do Rosário de Fátima lhe pediu, ai senhor, arranje-me mais uma manta, estou cheia de frio, o vigário levantou-se foi ao armário e levou uma manta para a freira. Voltou-se para o lado direito, o chão era duro, mas para ganhar o Céu temos de sofrer. Foi exactamente nessa altura que a freira repetiu, senhor padre estou mesmo enregelada, e o padre Nascimento foi buscar mais um cobertor.


... o raio da manta!



Nem um quarto de hora tinha avançado e a sóror muito angustiada, senhor padre ai que eu morro gelada. O padre Manuel disse para a freira, minha irmã para se aquecer talvez seja melhor fazermos como se fossemos casados. E a irmã Maria do Rosário de Fátima bateu palmas, contentíssima, era isso que eu queria…que felicidade!!! E o digno sacerdote virou-se para ela e em tom de comando… então vai tu buscar o raio da manta! 

domingo, 9 de agosto de 2015

UM DIA, CADA DIA

Chovia a potes




C
hovia. Chovia que Deus a mandava. Chovia a potes. As cordas da água eram um emaranhado tocado pelo vento. Juvenal encolheu-se tentando diminuir-se, o portal onde se acolhera era pequenote, não lhe dava qualquer protecção estava que nem um pinto assarapantado, órfão de galinha, quiçá relembrando o ovo aconchegado e quente, antes da postura, evidentemente. O cu da mãe expulsara-o sem sequer lhe dizer água vai. E agora para Juvenal/pinto água não faltava.

S
e houvesse um gajo que lhe abrisse a puta da porta, então outro galo, mesmo que ensopado, cantaria, mas não conseguia divisar  qualquer dama ou cavalheiro num raio de cem metros, o raio, esse sim, que os partisse; puxou ainda mais o casaco puado para o cimo da cabeça. Vida desgraçada, não tinha chapéu-de-chuva muito menos gabardina nem sequer aqueles de plástico que o chinês Wang San vendia. E davam o pio com qualidade mais do suspeita. Habituara-se andar sem eira nem beira, desde a mão morrera, Deus a tivesse à sua direita…


BI Militar


O
 anátema de ser filho de pai incógnito que até o Bilhete de Identidade Militar trazia e talvez quando tirasse o Cartão de Cidadão assim viesse, era uma porra, uma grande porra. Parecia-lhe que depois do 25 de Abril isso não era proibido, mas não estava bem certo; homem de poucas letras, concluíra apenas a terceira classe, como antigamente se dizia, dera por si à procura de trabalho e finalmente agarrara o de ajudante de marçano na mercearia do sôr Fernando (Nando para os amigos) Carvalho para entregar nas casas as mercadorias que as pessoas tinham comprado.

N
ão contava os dias em que de cesto no ombro, pesado que nem chumbo (muito compravam aquelas almas de Deus ou do diabo para no fim das contas muitas irem para o caixote do lixo) subindo e descendo as malditas casas de patamar em patamar e entre eles os degraus. Conheci-as de olhos fechados, como o cego Maurício que tocava rabeca no fim da rua à esquina da baiuca da Luísa apanhadeira de malhas, e que além disso dava umas quecas  nada más, pelo menos ele tinha experimentado, saíra todo contente e quando sobrava alguma massa voltava como um pombo correio ao seu pombal…


... e quando chegar o meu marido

E
 a carga de água não parava, podia apanhar uma constipação, quem sabe uma gripe e até uma pneumonia. Foi então que apareceu uma senhora toda triques à beirinha que meteu a chave na porta e lhe disse, ó homem você parece um gato-pingado (lagarto, lagarto, lagarto) venha para dentro, e não apanha mais água. E quando chegar o meu marido, eu cá não gosto de insinuações de vizinhas suba para cima (essa agora, se calhar ela também dizia desça para baixo…) ao segundo andar esquerdo que eu faço-lhe um chá quente e alguma coisa de comer.

A
ssim foi, quando chegou o Senhor Doutora Silva Santos perguntou-lhe o que se passava e ele, educadamente, explicou tudo de fio a pavio. Subiu com o Senhor Doutor, ó amigo sente-se aqui ao pé da lareira, é eléctrica mas aquece. Arminda, se fazes favor, traz um chazinho para este senhor que bem precisa dele… Dona Arminda – assim se chamava ela – trouxe o chá e uma sandes de pão com queijo flamengo. Ficaram de olhos arregalados, marido e mulher ao verem a rapidez com ele tinha acabado com o papo-seco e com a chávena de chá.


Mais uma carcaça...


M
ais uma carcaça e foi de novo um vê-se-te-avias. Jorge - pelos vistos era o primeiro nome do Senhor Doutor – o … como é a sua graça, Juvenal, um criado às ordens de Vossa Excelência, o senhor Juvenal janta connosco, penso que há comida suficiente… ó homem aqui não falta nada, apenas faltam os euros, mas ponto assente o senhor Juvenal janta connosco, o Manel e a Guiducha jantam na cantina da cidade universitária, à noite têm uns estudos em casa da Nela e talvez até durmam lá

Q
ue não minha senhora, estou a dar-vos grandes incómodos, a lix…ops, a dar cabo da vossa privacidade, deixe-se de tretas, se lhe posso dizer assim senhor Juvenal, não nos incomoda nada, e vamos para a mesa que a sopa está pronta. Foram, a Senhora Dona Arminda trouxe uma terrina a fumegar, cheirava que era um regalo. Juvenal deixou a Senhora e o Senhor Doutor servirem-se (assim tinha aprendido com a sua mãe) e só depois meteu a concha na sopa umas duas ou três vezes e… foi um sonho concretizado.

V
ieram uns bifes de panela, com muita cebola e alho e, senhor Juvenal faça o favor de se servir, cá em casa não há etiquetas, desculpe minha Senhora, mas a minha mãe desde que eu era menino ensinou-me primeiro as Senhoras, se a sua mãe o disse, faça-se-lhe a vontade, mas isso já quase não se usa… Ó senhor Juvenal desculpe-me a indiscrição, faça favor Senhor Doutor, perguntava eu o que é que faz? Trabalha? Onde? Ou está desempregado? Desempregado e sem-abrigo, parece que o governo - no que respeita ao desemprego - insiste nos números da Estatística e a oposição afirma que são “arranjados”

... Uns jornais


N
ão sei qual deles tem a razão do seu lado, mas a verdade nua e crua Senhor Doutor é que estou desempregado e sem subsídio, a vida é muito matreira e a corrente parte sempre pelo elo mais fraco, concordo consigo senhor Juvenal, mas só mais uma pergunta, e onde vive? Onde calha, Senhor Doutor, umas vezes aqui outras acolá e tenho como cama uns jornais estendidos  por vezes debaixo duma soleira qualquer. Debaixo de uma ponte ainda não fiquei mas dizem.me os outros sem-abrigo que pelo menos lá não chove, quem sabe se algum tenho de experimentar, da maneira como vai a vida, nada é de espantar... A conversa resvalara para o choradinho.

O
 Senhor Doutor Silva Santos olhou para Juvenal, limpou os óculos, pigarreou e a Senhora Dona Arminda assentou com um jeito da cabeça a dizer que sim, o senhor Juvenal anda com o ego em cisco e precisa de o levantar, mas como minha Senhora se não tenho onde cair muito menos trabalho que se veja. Safo-me com uns biscates, mas isso cada vez mais foi chão que deu uvas. Ora o Senhor Doutor era o administrador do condomínio juntamente com o engenheiro Sílvio do quarto frente, ocupação chata que lhe dava até Dezembro para então a equipa ser substituída – a votos.


Se quiser ser o porteiro...


S

enhor Juvenal se quiser pode ser o porteiro do prédio, o anterior morreu… e não era grande espingarda, não pagamos uma fortuna, bem pelo contrário, mas tem casa garantida, um quarto, casa de banho e uma pequena cozinha. Tem cama para se deitar, tem…, Senhor Doutor não diga mais senão ponho-me a chorar, nem sei como lhe agradecer, mas juro que merecerei a oportunidade que me dá, ó homem não tem de quê, mas o senhor precisa de mudar de roupa, não de casaca de asas de grilo, naturalmente, mas um porteiro tem de se apresentar bem vestido, limpo e escanhoado e creio que o senhor não tem posses para o fazer, mas hei-de ter Senhor Doutor, juro-lhe pela alma da minha mãe.




B
om, o condomínio vai estudar o assunto, mas posso adiantar-lhe umas massas por conta do salário, Senhor Doutor olhe que me ajoelho, o Senhor é um santo daqueles de pôr num altar. Arminda empertigou-se, por mais que o senhor Juvenal esteja agradecido, coisas dessas não se fazem nem em Fátima para cumprir promessa, o que acho uma grande estupidez, acrescentou o marido. Pode já dormir lá esta noite, não sei se haverá por lá lençóis´, mas amanhã trata-se disso. Tome um bom banho de chuveiro, banheira não há, mas tem um polibã, vire-se para o lado que lhe dê mais jeito e durma…


...um soninho descansado


… u
m soninho descansado, falou e sorriu a Senhora Dona Arminda, que cantarolou: Ó papão vai-te embora, de cima desse telhado: Deixa dormir o menino um soninho descansado, ao que o marido acrescentou, quando era menino o meu pai, santa pessoa, dizia-me sempre uma noite feliz, não caias da cama senão partes o nariz… O casal riu-se e o Juvenal para não fazer desfeita riu-se também. E quando se apanhou na casa do porteiro que era a partir desse momento a sua casa, ele que se esquecera de como rezar, agradeceu a não sabia quem, mas agradeceu, despiu os farrapos ensopados duchou-se e estava nisto quando tocou a campainha da porta. E foi atender, despido.

E
ra o Senhor Doutor Silva Santos com um grande saco de plástico dum hipermercado, não se apoquente, já vi muitos homens nus na tropa… Tem aqui umas coisas para se vestir e calçar e a minha mulher manda-lhe um miminho para o pequeno-almoço, as lágrimas soltaram-se e correram-lhe pela face de tal modo que só conseguiu dar um muito obrigado, mas muito enrolado. O Senhor Doutor fora-se embora, para a casa dele e Juvenal abriu o saco – milagre, tinha o necessário; até escova de dentes e pasta do Lidl.


Sem legenda


A
 estória podia acabar aqui - mas não acaba. No dia seguinte de manhã cedo Juvenal dedicou-se às compras sobretudo de alimentos para poder armazena-los e ficar mais descansado dessa preocupação. Fê-lo com os euros adiantados pelo Senhor Doutor Silva Santos que, em boa verdade devia chamar-se Santo. Entrou no Minimercado e no Lidl para escolher o mais barato e apenas géneros essenciais. Voltou à sua casa e arrumou-os numa arrecadação que fazia de despensa. Depois, entrou ao serviço. Havia muito para fazer, mas não enjeitou a tarefa, tinha de ser um porteiro competente, assim tinha prometido aos benfeitores.

D
a lavagem das escadas e dos patamares (que bem precisavam…) passou ao elevador que, além de sujíssimo, tinha frases escritas em jeito de grafitis. Apagou tudo, deu-lhe um trabalhão mas depois ao mirar a “obra” deu-se por satisfeito… O lixo era também um problema, em prédio de ricos parecia que desmentiam a classe, tanta porcaria faziam. Despejou os nos caixotes nos vidrões  tricolores e esfregou-os com muita lixivia e creolina. E assim foi avançando na faina, quando chegou um dos condóminos nem queria acreditar no que viu, o senhor é o novo porteiro? Era.

O
 Senhor disse-lhe que era o do quinto esquerdo e que nunca vira a escada e o ascensor como os via agora. Qual é o seu nome? Juvenal. E quem o nomeou porteiro? O Senhor Doutor Silva Santos, tenho de dar os parabéns ao Jorge pela aquisição, fico-lhe muito agradecido, claro que está a morar na casa do porteiro, estou sim Senhor, desculpe-me, mas qual é a sua graça? Eduardo Barros - proprietário de uma cadeia de lojas de mobiliário e electrodomésticos - a casa é apertadita, mas a partir de agora é a minha casa. Tem televisão?

C
omo havia de ter? Por isso Juvenal, com algumas reticências, ainda não tenho, mas com muito trabalho, que é o que aqui não falta, e muito cuidado, um destes dias vou tentar comprar uma, mas, está claro, a prestações, o que, como o Senhor Barros sabe muito bem, é coisa muito difícil por causa da crise e da austeridade (esteve pra dizer destes filhos da puta, mas engoliu, e se o Senhor Barros era deles?) os dias vão difíceis e quem paga sempre são os pobres, pois digo-lhe que simpatizei consigo, tenho lá em casa um televisor que ainda se safa, suba que eu ofereço-lho, isso é muita bondade de Vossa Excelência, só vou chatear…



S
uba e está feito, o prédio tinha antena colectiva para os condóminos e a sua casa também era beneficiada, parecia um ganapo saindo da escola com uma boa nota, todo satisfeito. Ligou o aparelho e imediatamente o Mundo entrou na sua casa sem pedir licença. Juvenal estava meio aparvalhado, sentia que lhe saíra a taluda do Natal, que mais lhe podia acontecer, a roda da sorte desandara para o seu lado, nem queria acreditar no que a magana lhe oferecera. Nessa noite antes de adormecer ainda viu a TVI24. Crimes, guerra, atentados, bombas, suicidas, jihadistas, nem
Nem apagou o televisor...
apagou o aparelho, virou-se para o lado esquerdo e começou a ressonar.  

J
uvenal depressa entrou na rotina de fazer bem o que lhe competia fazer; ganhou o respeito de alguns condóminos, outros nem lhe ligaram e uma tipa (podia falar assim…) do sétimo direito que descia o ascensor com um cãozinho sem trela quase que o insultou quando ele, educadamente, lhe comunicou que os animais de estimação não podiam utilizar o elevador por deliberação da administração, até estava colado na parede do aparelho um aviso que fora ele próprio o fizera, a gaja regougara que não precisava de avisos ou de insinações, palavra que fora assim que ela dissera, e empinando o nariz saíra, não quero mais conversas.

E
ntão, para ser completamente feliz idealizava que viria bem uma mulher ou uma rapariga que o ajudasse nos trabalhos do condomínio, que lhe desse a oportunidade de ter mais uma folga, que saísse com ele até Cascais no comboio eléctrico a ver os barcos a navegar à bolina no Tejo, enfim que lhe aquecesse a cama. Viria bem a calhar. Os desejos de um homem têm de ser concretizados, senão não são desejos, não são nada…

N
uma manhã ensolarada, andava Januário a varrer o passeio das cagadelas de cão em frente do prédio da sua casa, passou uma miúda bem gira, toda ela era sexo, desde as pernas às mamas, distraiu-se, uma boazona daquelas era só o que lhe faltava, mas ela não saía numa cautela…Começara a compra-las, nem uma aproximação ganhara; o mesmo acontecia no Euromilhões que registava na máquina do Monteiro da tabacaria no átrio do Pingo Doce, ou uma raspadinha: o resultado era XXXXXXX a negro no boletim. Em qualquer jogo da Santa Casa ia-se-lhe a sorte de que gozava.

O
uviu a gaita dum amolador de facas e tesouras que não passava naquela rua há mais de séculos e lembrou-se que o homem também deitava pingos nas panelas num tempo que era um passado, recordou o guarda-chuva que comprara na loja do chinês Liao Wang e que como todos artigos que vendia não valia um pataco, perguntou ao amolador se ainda arranjava sombrinhas e similares, claro que arranjo, tenho na minha casa uma a que falta uma vareta, espere por favor que vou já busca-la.


Em frente da sua casa


Q
uando voltava nem se deu conta de um chiado dum autocarro duplo e articulado e um berro cuidado!!! O monstro amarelo com o condutor desvairado a tentar uma marcha atrás esmagou-o como se fosse um cilindro de calcar asfalto. E também a bicicleta/oficina do amolador. Numa poça de sangue finou-se no passeio em frente da sua casa. E um sujeito choninhas e curioso que parara para assistir à chegada do INEM com a sirene a uivar e da polícia, no meio dos pategos que rodeavam como sempre acontecia no local dum acidente, comentou que o gajo até parecia um bacalhau espalmado. 
Antunes Ferreira