quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010







O COQUEIRO DA ESQUINA

Riquexos & procissoes

Antunes Ferreira
Ao ruído das
buzinas, omnipresente e incontinente, misturam-se os grasnidos das gralhas. À minha esquerda, impecável de brancura, a igreja de Santa Inês, ladeada pelo cemitério de uma e outra parte, é referência que usamos para voltar ao apartamento nos riquexós a preto e amarelo. O bairro, aliás, leva o nome do templo e do terreno dos mortos. Por isso, tem de se dizer ao condutor, near igreja. Isto, naturalmente, depois de se discutir previamente o preço da corrida.

Alto lá. Um euro vale 65 rupias. O câmbio já esteve mais alto, aqui há uns dias, mas o insondável mercado é mesmo assim. Talvez amanhã as coisas sejam diferentes, o que, de qualquer modo não tem grande significado. Com este dado monetário, importantíssimo, pode-se compreender o significado dessas propostas e contra-propostas com o bravo motorista. A Raquel, regressada às origens, começa por perguntar – kitlé? Quanto é?

Ele pede 60 rupias e ela, retomados os hábitos ancestrais, oferece 30. A minha cara-metade esqueceu praticamente no total, ou quase, o concani. Por isso, quando o driver se arrepela dizendo que é um infeliz que tem uma enorme família a seu cargo, sou eu que imagino as alegações dele. E chuta umas 50. Estaria aqui a fazer perder tempo com a descrição de tantas diligências. Pagamos mesmo as 30 da inicial contraproposta da senhora. Ou seja, economizamos meio euro. É obra… Um sucesso. Raquel – 1; riquexó – 0. Nunca me meto nestes transes. Tenho vergonha, eu que sou um desavergonhado...

Estou tranquilamente a rememorar esse empolgante episódio, sob duas ventoinhas de tecto, quando me entra pela porta da varanda a sonoridade de uma banda. Levanto-me do cadeirão de plástico, coloco cuidadosamente o copo de uísque na mesita de plástico ao lado, enfio um tanto precipitadamente as sandálias de plástico e chego ao parapeito. É uma procissão, com palio, senhores de opas vermelhas, anjinhos, participantes de diversas qualidades e feitios e assim.

Que trampa! Esqueci-me, dentro, da máquina fotográfica. Volto à sala, cai-me uma das chanatas, a da esquerda, tropeço – mas equilibro-me e encontro a desgraçada da câmara. Quando volto ao balcão, já a procissão se afasta. Tiro-lhe uma foto, já detrás. Nada de desânimos. Um destes dias haverá outra. E outras. Dessa vez, será de frente. Para se ver o andor. Que esta, aliás, não tinha. Era da primeira comunhão, com as meninas e os meninos impecavelmente alvos.

Diz-me depois, ao jantar, logo vos descreverei esses ágapes, o Carminho Costa, que Goa continua a ser a Roma do Oriente. Agradeço – mas não lhe respondo que nao era preciso. Guardo a coisa apenas para mim. Aqui nao posso ser mal educado. Nem aqui, nem em sitio nenhum.) de tal esclarecimento. Bastou-me o incenso do turíbulo.

NE – Por vezes o til e os acentos nao saem... Sorry.

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010




AS CORES DOS MESES

Janeiro é branco


Maria Lúcia Garcia Marques
Desde todo o sempre – pelo menos desde que me lembro de exercer estas sinestesias – Janeiro para mim é branco. Não é branco de cor, embora de facto o sinta um tanto lívido ou álgido (o que não admira dado o seu retrato meteorológico…) Mas branco no sentido de vazio, de pausa, de compasso de espera, de velada de armas antes da grande iniciação. Tal como a informática define uma “palavra” – tudo o que fica depois de um espaço em branco até outro espaço em branco – este branco é uma espécie de grau zero do movimento ou do existir, uma suspensão no Tempo, própria da execução musical, a tender para a reticência.


Assim a começar o ano, Janeiro funciona como um hausto, uma funda inspiração antes do início de um salto ou de uma corrida. No nosso hemisfério, Janeiro é frio, pelo que há, por aqui, uma sobreposição de “brancos”: o já referido branco de ‘suspensão’ do Tempo, espaço escondido de todas as germinações, e o branco ‘alvo’ que se define e adensa com a deposição da neve e se fixa no traiçoeiro brilho do gelo - esse branco deposto, repousando-se por telhados, muros e ramagens, dulcificando as agruras do terreno, apagando trilhos e caminhos, desenhando, na sua imobilidade, uma paisagem de fotografia, quieta e muda onde o tempo parece ter parado, para sempre incólume. É para este Janeiro de neve que convoco a palavra tão singela quanto íntima de Augusto Gil, na sua “Balada da Neve”, onde parece haver algo de misterioso no advento da esvoaçante brancura. Ora oiçam:




Batem leve, levemente
Como quem chama por mim
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim.

É talvez a ventania;
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho…

Mas eis a branca revelação:

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Segue-se o quadro dolorido da passagem pressentida de uma criança descalça que o faz exclamar (em estrofe que todos sabemos de cor e que desgraçadamente continua a ser verdadeira):



Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?
Porque padecem assim?

E termina no tom certo, tão de época e também tão seu, mas que nunca deixa de nos comover:

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.

Porem, não fica bem a Janeiro que é a “porta de entrada” do ano, esta melancolia – tão lusitana aliás. Há que saudar o Novo Ano e já na Antiguidade se dava voz a tal costume.
Janeiro era o mês de Jano, precisamente o deus das portas e da entrada – era o porteiro dos Céus, deus protector a quem especificamente se implorava que afastasse das casas os maus espíritos, sendo tradição entre os romanos saudarem-se entre si e, em grupo, festejarem em sua honra. Fiéis herdeiros que deles somos, cantamos também e ainda, pelas portas e entradas, pedindo aos senhores da casa um qualquer óbolo – são as Janeiras. No final da ronda, juntam-se as ofertas – que vão dos frutos secos da época, passando pelos enchidos de feitura recente até aos chocolates e, fora da tradição mas nunca rejeitado, algum dinheiro – dividem-se por todos ou consomem-se em conjunto. É uma tradição que se cumpre variamente – em letras e em música – mas talvez ainda todos oiçamos dentro de nós as que no deixou Zeca Afonso, no seu “Natal dos Simples”:



Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro
Às raparigas solteiras
Etc., etc. etc.
.
Na tradição popular há deliciosos exemplos. Começam, em geral, por elogios à casa e aos donos da casa:

Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé na escada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada.

Viva lá minha senhora
Linda boquinha de riso
Linda maçã camoesa
Criada no Paraíso.

a preceder o pedido:

Levante-se lá senhora
Desse banquinho de prata
Venha-nos dar as janeiras
Que está um frio que mata.

Às orelhas moucas e aos corações indiferentes atira-se-lhes com:

Trinca martelo
Torna a trincar
Barbas de chibo
Não tem que nos dar!

Mas quando satisfeitos os pedidos, logo se cantam louvores e se formulam votos felizes:

Ó que estrela tão brilhante
Que vem dos lados do norte
Á família desta casa
Que Deus lhe dê boa sorte!

E também a todos vós, meus indulgentes leitores.

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010


Como tenho vindo a referir em respostas a cumentários (com o) diversos, vamos, a Raquel e eu, passar uns diazitos a Goa, Damão e Diu.

De tanto falar nisto, até já enjoa. Mas, o facto é que saímos no domingo, 17, e voltamos no dia 9 de Março. Coisa pouca, portanto.
Por este motivo, peço o subido obséquio de se coibirem de aplaudir esta ausência.


Não são necessárias, creio, grandes manifestações de contentamento, que, além do mais, poderiam incomodar os vizinhos. Que, como todos os cidadãos têm direito ao sossego, ao bem-estar e ao respeito que, aliás, bem merecem. E, não se esqueçam que estaremos de volta num abrir e fechar de olhos.

Tentarei, mesmo de lá, acompanhar o que se irá passando aqui no Travessa. Com tal gente, nunca é de fiar…
Deu borem korum, o que significa kittös em concanin, ou seja mulţumesc, como dizem os Romenos. Resumindo: obrigado.
A.F.

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010


TROTAMUNDO

Wałesa – uma conversa a três (4)

(Finalmente, a conclusão. Já não era sem tempo...)
Antunes Ferreira
O homem rejubilava. Todos os rodeios que eu tivera para camuflar o meu objectivo tinham sido descobertos por ele, desde que, alegadamente para uma curta visita turística, lhe dissera para dar a volta pela zona costa. Céu carregado, chuva (ainda que miudinha), fotos nem uma, porque o dia estava muito escuro, alegara eu, aliás desnecessariamente, praias vazias, em Sopot estava mais claro, mas, tudo levava a que a desconfiança no estrangeiro visitante fosse aumentando ao longo da manhã.

A cena canalha na igreja completara o ramalhete de pétalas murchas. O que eu queria era encontrar o «nosso», deles, claro, Lech. Só faltou que o Franciszek me tivesse perguntado para que tinha sido toda aquela encenação. Sem mais demoras, seguíamos para o prédio onde Wałesa tinha o apartamento. Só que era necessário entrar na Rua de Santa Maria. Bem vistas as coisas, não era grande cometimento para quem avançava num projecto louco que, porém, parecia ir ter um bom fim.



Singularmente, porem, a rua estava interditada. Barreiras listadas de vermelho e branco, iguais a todas as que existem pelo Mundo fora estavam ali plantadas a esmo. Ominosas. O taxista, que se preparava para dobrar a esquina que a ela dava, para nela, parou de mansinho junto ao passeio, travou e virou-se para trás. Werken. Obras. Da electricidade, da água, do gás, dos esgotos. O pavimento esventrado tinha montes de pedras, de manilhas, de tijolos, de fios eléctricos.

Ele sorriu, por baixo do bigodinho aparado à Errol Flynn. De tão loiro, quase branco como o cabelo, nem o tinha notado. Aber… e avançou com afirmações veementes sobre a polícia política de lá. E jurou-me que se estava nas tintas para os tipos que andavam aos pares por entre os buracos. De gabardina modelo BX, chapeuzinho de abas curtas, reviradas atrás e ares de boa gente. São eles, os filhos da, exaltou-se. Avançamos! Gegen wir! Em frente!

Nem tempo tive para lhe dizer que era uma loucura, subiu o passeio com o Mercedes e foi estacionar obviamente em cima dele, passeio, junto a um edifício de três ou quatro andares. Es ist hier. É aqui. Wir mussen warten. Temos de esperar. O «nosso» (deles, repito) ia descer daí a um bocado para ir à missa. Esperámos. Eu, um tanto sofridamente. Ver-me em tais assados, num país estrangeiro de regime comunista e com agentes da PIDE de lá em redor, não foi uma situação muito agradável, podem crer.

Tive a nítida sensação de que haviam passado horas sem fim. Mas, foram apenas uns minutos. Saíram do prédio várias pessoas. Eram Wałesa, que lambia um chupa-chupa,
sua mulher Danuta – reconheci, naturalmente, ambos, de tão disseminadas que estavam as imagens deles – mais uma senhora e uns quantos rapazes e raparigas. Dirigiram-se para uma rua transversal, onde estava estacionada uma carrinha Volkswagen. Que, depois, soube ter sido uma oferta da RFA.

Franciszek saltou, como que impulsionado por uma mola invisível. Saí atrás dele, mais devagar e fiquei a uns metros do grupo. O motorista sacudira efusivamente a mão do sindicalista, dera-lhe um abração e pespegara-lhe os já familiares beijos nas faces. Beijou a mão de Danuta e cumprimentou a outra mulher. Trocou umas palavras com Wałesa e fez-me sinal para avançar.

Quando me cheguei a eles, Marowchinski, apresentou-me: Der Portugiese Herr, o senhor português. E Lech estendeu-me a mão que apertei e falou para o motorista. Sabia quem eu era, tinham-no avisado. Estava a sair pela sexta ou sétima vez desde que tinha sido colocado em prisão domiciliária. Depois de ter estado na outra. Ia com a família assistir às cerimónias do Dia de Finados. Tinha, ainda, uns minutos para falar comigo. Rejubilei.

E começou uma conversa – dizer uma entrevista seria um exagero… - a três, numa algaraviada tipo salada mista, em que eu dizia umas coisas no meu diminuto alemão, interpoladas de inglês e, quiçá, de português, o condutor passava para polaco, Lech, que só falava a sua língua, respondia no mesmo comprimento de onda e o motorista-intérprete traduzia em alemão para mim. A torre de Babel era um Lego, se comparada com aquilo.

Dificílimo um tal equilíbrio linguístico, mais a mais sem rede, mas com muitas interrogações à mistura, bocas mais ou menos abertas de espanto, sinalefas e gestos e várias gargalhadas, lá consegui obter umas quantas declarações. Que, ainda hoje, não garanto que tivessem sido exactamente as que o líder do Solidariedade terá dito. Mas, a necessidade aguça o engenho e… quem não tem cão caça com gato. No caso, o tradutore, traditore não passaria de uma miragem.



Soube então, que Wałesa já decidira que não iria receber o Nobel, porque receava que, mesmo sendo autorizado a deslocar-se a Estocolmo, o chefe do Governo, general Jaruzelski já não o deixasse voltar à Polónia. Decidira, assim, que seria a esposa a ir receber o galardão. O Governo polaco já fizera um protesto pela atribuição, mas quer Oslo, onde fora decidido o vencedor como habitualmente, quer Estocolmo não tinham ligado peva à posição de Varsóvia.

Não quero pôr-me em bicos dos pés, até porque um paquiderme não o consegue fazer, mas penso que fui o primeiro jornalista em todo o Mundo que soube da decisão e o DN, concomitantemente, o primeiro a publicá-la. Também me revelou que o que queria continuar a ser, quando a Polónia chegasse à Liberdade, era electricista dos estaleiros navais. Que não tinha jeito nenhum para a política, por isso nunca se candidataria a um cargo desses. Meses depois, encontrar-se-ia com Jaruzelski para preparar a transição.

Sem o saber ele, muito menos eu, e ainda muitíssimo menos (se é possível utilizar aqui o superlativo) o nosso «intermediário», seria o primeiro Presidente da Polónia Democrática. As voltas que a vida dá… Entretanto, os senhores de gabardina e etc. continuavam a rondar. Fotografias nas barbas deles – nem pensar. Devem ter-me tirado umas quantas, mas não tive coragem, muito menos desfaçatez para lhas ir pedir…

Abordei, ainda, o tema Karol Woytila. Aí o seu entusiasmo atingiu o pináculo. Mais do que ser João II, era o seu herói, para não dizer o seu Deus, ainda que fosse o representante na Terra. Sabe uma coisa – Franciszek estava igualmente entusiasmado e sorria mais do que tentava traduzir – é a maior figura mundial e o melhor Papa de sempre. Ele vai acabar com o comunismo. Premonição que se revelaria certa: o contributo do Pontífice era já muito importante nesse particular.

E, antes que se esquecesse, ou me esquecesse eu, acrescentou que, além disso tudo, Woytila era Polaco. Brilhavam-lhe os olhos e tremia-lhe o bigode. Despedimo-nos com a última declaração: gostava muito de ir a Portugal. Fiquei com a sensação de que ele nem sabia muito bem onde ficava o nosso País e que era uma forma de terminar simpaticamente essa conversa a três, verdadeiramente kafkiana. Mas, caiu-me bem.

Voltámos ao aeroporto. Não sei quantas vezes olhei pelo vidro traseiro a ver se nos seguiam. Ainda não caíra em mim, o cagaço instalara-se – mas a coisa estava feita. Na aerogare entreguei ao Franciszek, sem pejo nem peias, a pequena fortuna em zlotys, transaccionada no mercado negro, obviamente, que possuía. Muito mais do que o que havíamos acordado. Apenas me limitei a guardar umas quantas notas para as últimas despesas, pois no dia seguinte regressava a Portugal. E ainda lhe dei uns dólares para comprar umas prendas para os descendentes. O homem merecia-o.

E quando quis comprar no dia seguinte e na sala de embarque do aeroporto de Varsóvia, duas garrafas de Wiborowa, que me conquistara definitivamente, esses restantes zlotys não me serviram de nada. O free shop só aceitava dólares. Ou marcos ocidentais. Ou francos suíços. Ou libras esterlinas. Ou outras moedas a sério. Naqueles tempos, ninguém pensava em euros. Não fez mal. Ainda colei umas notas na porta da minha casa de banho na Lapa. Como suvenires

sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010


TROTAMUNDO

Wałesa – uma conversa a três (3)


Nota prévia Muitos leitores, cumentadores, com o, e até muitos contribuidores se me têm dirigido a rogar, quase genuflectidos (bonito, não acham?), que ponha fim a este tormentoso folhetim ou telenovela, ou o que lhe queiram chamar. E, sobretudo, que o desenlace ocorra antes da minha (nossa, ca Raquel não me deixa ir sozinho) partida para Goa, Damão e Diu.
Ainda que fazendo aguardar um pouco os textículos dos outros membros do Timão, decidi por unanimidade pôr cobro a esta dilemática e inquietante situação. Para alguma coisa o Aéfe é o «dono da bola», ora tomem lá! Nem o Pedroto, malta, nem o Pedroto. Por isso, aqui vai o terceiro capítulo, a que se seguirá o… seguinte. Que espero bem seja o fantástico final, a girândola fogueteira , o vero epicentro deste tsunami de pacotilha.
Mas, estejam sossegados. De 17 próximo (quando avionamos, embarcamos é mais barcos, botes & currelativos, com o, para Frankfurt e a 18 para Dabolim) a 9 de Março (saímos do Paraíso, infelizmente, sem maçã nem serpente nem nada, excluídos as peças de vestuário e calçuário), não me aturam. Descansem, pois. Não sendo, de forma alguma, o fim do Mundo, será para vós - um alívio. No entanto, sabe-se lá se, de lá poderei fazer chegar até cá alguma coisita. Não prometo. Mas…

(Continuação)
Antunes Ferreira

Como a porta de entrada do Novotel fechava à uma da manhã «por questões climatéricas», de acordo com informação colocada no balcão da recepção, (leia-se «de segurança») previdentemente fui falar com o porteiro que dizia umas coisas em inglês. Disse-lhe que tinha uma reunião importante nessa noite e que talvez precisasse de chegar mais tarde. Nada feito, ele limitava-se a cumprir ordens superiores. Sem espalhafato, mostrei-lhe umas notas de um dólar. Contei-as, one, two, three, four, five, stop. Finish.

Os olhos brilharam-lhe. Vestiu limediatamente a camisola do clube dos amadores dos USA billets, yes, e logo de seguida, two more for my friend…. Ok. O friend era o guarda nocturno que me foi apresentado uns minutes depois da recepção – na recepção. Perfeitamente, chegasse à hora que chegasse, a porta reabria às cinco da matina, mas havia uma campainha, que logo me indicou. Agradeci. Dziękuję, obrigado. E, enchouriçado num casacão acolchoado, um anorak como então se dizia, casaco e gravata - nunca saberei porquê - cachecol e boné à Lenine, que comprara em Wroclaw para a minha colecção de tais adereços, meti-me à chuva molha tolos que caía e só parei debaixo da ponte, que era, de resto, de dimensões menores. Em Lisboa seria como o bairro: pontinha.

Já ali estava há uma boa meia hora, no mostrador do meu relógio vira já os ponteiros a caminho das onze, escuridão total, batendo os pés para tentar minimizar o frio de fim de Outubro, quando uns faróis me bateram nos óculos. Eu, sem eles, não sou nada. Pestanejei, enquanto me faiscava o lobo occipital – são eles, é desta!... E o lobo frontal, desmancha-prazeres - é capaz de ser a polícia. O carrito parou junto ao passeio, o vidro da frente baixou: Ferreira? Era.

Entrei para o banco traseiro, com dois sujeitos a ladearem-me, apertadinhos os três, começava a lembrar-me da estória da lata de sardinhas, quando, num francês excelente, o cidadão que seguia na frente ao lado do condutor, me disse que tinha de me deixar vendar, naturalmente para que não visse o percurso que íamos seguir. Acedi, que mais podia fazer? Tirar as cangalhas, claro. E deixar que me pusessem um trapo negro como a noite, em cima dos olhos. Estava feito. E só não me borrei porque não usava cuecas castanhas.

Demos uma série de voltas e, finalmente, estacionámos. Saí e destaparam-me (os globos oculares, pois que mais havia de ser?), pus os ólicos e vi que estávamos nua rua sem vivalma à volta. Enquanto o motorista seguia, fomos os quatro restantes até uma porta na qual o que parecia ser o chefe bateu com os nós dos dedos, telegrafando a senha da nossa chegada. Um sujeito alto abriu-a e entrámos.

Um corredor comprido, uma lanterna de mão e nova porta. Uma sala onde apenas havia algumas cadeiras e uma mesa, atrás da qual se sentava um senhor com cara de pau, magro. E uma lâmpada pendurada do tecto, com o clássico abajur à maneira da PIDE, como eu bem me recordava. Cenário «acolhedor» e gente «simpática», pensei para com os meus botões e o meu frio, pois o local estava mais gélido do que a rua. Fiquei ali, de pé, enquanto o suposto chefe trocava umas palavras em polaco (podia ter sido em japonês, que para mim seria igual) com o verdadeiro patrão.


Este, sentado, perguntou-me também em francês excelente, se eu era o Henrique Armando Antunes Ferreira, pronunciando o meu nome completo pausadamente. Respondi-lhe que sim. Tem o seu passaporte? Mau, mau, o documento, como acontecia em todos os países da cortina de ferro, era depositado no hotel. Informei-o. Mais uns comentários entre os dois, e tem mais documentos? Disse-lhe do BI, da carta de condução e do cartão do DN. E tornou ele: com fotos e outros elementos de identificação?

Aí, explodi. Disse-lhe – e ao outro, os dois restantes não sabia, sequer, se falavam ou eram mudos – se também queria os meus números de colarinho e de sapatos, que estava farto daquela brincadeira, que era um jornalista português, que não viera de Lisboa ali para jogar à cabra-cega e que, mal chegasse à minha terra, ia ter uma conversa muito séria com o outro Henryk, avisando-o que, face ao que estava a acontecer, não contasse mais comigo em Portugal. E voltei-me, para sair. Palavra que não sei, até hoje, como o consegui fazer, mas, o que é certo é que o fiz. E, volto a sublinhar, não me caguei.

O senhor levantou-se, deu a volta à mesa, pespegou-me dois beijos nas faces e abraçou-me, meu querido amigo, não te exaltes, agora já sei que és tu mesmo, dos nossos, o Henryk disse-me há uma semana, por carta para a Austria, que depois me foi entregue em mão - a organização não era, de todo, má - como tu eras, um gajo porreiro até te chateares, etc. e tal, efusões seguidas pelo subchefe(?) e pelos três restantes. Amigo, bebamos uma Wyborowa. Como por magia, surgiu do nada o motorista (que já voltara) com duas garrafas geladíssimas de vodka e copos. E mais dois beijos.

Saí dali pelas três e tais da matina, bem aquecido e embebido, isto é, bem bebido. Com todas as indicações para Gdansk. Na despedida, até coresponderam ao meu pedido: tiraram-me uma foto com a venda nos olhos. E só então se apresentaram todos. Os dois bosses eram o Borisłav Geremek, futuro MNE, e o Tadeusz Mazowiecki, este último que, anos depois, viria a reencontrar e a entrevistar como primeiro-ministro da Democracia. Dos restantes, ou foi pela vodka ou pelo frio, não me lembro dos seus nomes. Geremek e Mazowiecki eram obviamente da cúpula do Solidariedade.

Entrei, tranquilamente, no hotel, abençoada por um sorriso do segurança da noite. Facílimo. As notas do tio Sam eram um verdadeiro abre-te Sésamo. Na manhã seguinte, check out, e ala para o aeroporto. Comprei um bilhete - igualzinho ao que então tínhamos nos nossos autocarros -, mas para o avião das linhas internas. Durante o voo, tentei organizar a cabeça (o que nunca consegui na minha vida, ou quase), imaginando como decorreriam as coisas.

À saída da aerogare, vi-me rodeado do habitual enxame de taxistas que entre eles me disputavam. Um que fale inglês, solicitei. Ninguém respondeu à chamada. Nie. Entreolhavam-se, entre o desiludido e o aborrecido, olha este mânfio. Em polaco, obviamente.
Um deles adiantou-se e disse Spique uardes fiu. Aber ich spreche Deutsch. Muito bem. Tentaria safar-me. Puxei de todo o meu alemão dos dois últimos anos liceais e disse-lhe que queria dar uma volta por Sopot e Gdinia e, depois, voltar a Gdansk. Seher gut. Tinha um Mercedes.

Assim fizemos, com ele a explicar-me (?) que fora camionista dos TIR para as duas Alemanhas e por isso falava alemão. Um tanto mascavado, mas melhor do que o meu, garanto-vos. Dois filhos e uma filha e chamava-se Franciszek Marowchinski. Um sujeito excelente, que gostava de futebol e até conhecia o Iuszibiw, grande futebolista. E eu ralado, sabia lá quem era o dito cujo. Binfika. Olá, que raio de sorte, era o Eusébio, do Benfica. Não lhe disse que era do Sporting. Não valia a pena estragar uma tão bela confraternização.

De volta a Gdansk, disse-lhe para irmos à Igreja de Santa Brígida. Era onde me encontraria com o padre Henryk Jankowiski, o confessor de Wałesa. Seria ele que me levaria ao sindicalista. Dia de Finados. Templos a abarrotar. Crianças e adultos pejavam os confessionários. Até polícias sinaleiros abandonavam os respectivos postos para assistir às cerimónias litúrgicas. Eu vi-os, fardados e ajoelhados. O catolicismo na Polónia era, realmente, a sério. E um verdadeiro mistério.

Passava, por entre o enxame de fiéis, um cura já velhote. Tentei em francês: Mon père... E ele: Qu’est ce que vous vouleeeeez? Um vozeirão impressionante. E eu, cada vez mais baixinho, que queria falar com o padre Jankowiski. Quoi? Pourquoi? Il n est pas. Il est parti pour Varsovie. Il a quelques affaires avec le cardinal. Ou bien avec la police. Altissonante o digno sacerdote. Porque surdo que nem um muro de betão.

Já olhavam para mim muitos assistentes. Ou antes, olhavam para nós, por força dos decibéis usados pelo meu interlocutor. O qual, erguendo os braços em sinal de descoberta, trovejou: Je comprends. Ce que vous voulez c’est parler avec notre Lech. Mais lui, il n’est pas aussi. Il ne viendra que d’ici a deux heures. Pour la messe principale des défunts. Ah, ce que vous voulez c’est Wałesa… Fripooooon!!!!!!

Saí do templo,
depois de um merci esfarrapado, com um sorriso amarelo-parvo, entre o receoso e o envergonhado. E o Franciszek, que devia ter compreendido o que se passava, falou para mim, com um sorriso na face: So wir mussen gehen Szant Marien ulica. Unser Lech Strasse. Temos de ir até à Rua de Santa Maria. A rua do nosso Lech. O filho da mãe entendera, desde o princípio, o que eu pretendia…
(Conclusão - um dia destes…)

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010


TROTAMUNDO

Wałesa – uma conversa a três (2)

(Continuação)
Antunes Ferreira
Já instalados no hotel, bateram-me à porta do quarto. Eram o Rita e o Tovar. Que não me queriam chatear, mas que – se eu estivesse para aí virado – gostavam de aclarara o verdadeiro motivo da minha vinda. Não podia continuar com a estória sem pés nem cabeça e contei-lhes tudo, desde o suicídio do meu irmão, até à intenção de falar com o líder do Solidariedade, o Solidarność.

Acharam que se tratava de uma verdadeira loucura, mas juraram que se manteriam caladíssimos perante todos os outros elementos da comitiva, desde os jogadores aos restantes jornalistas. E cumpriram. Mais: dentro das possibilidades deles ajudar-me-iam a atingir o meu objectivo. Logo lhes pedi o primeiro contributo – auxiliar-me na crónica do jogo do dia seguinte. Assim também aconteceu. Grandes camaradas de profissão e enormes Amigos.

O grupo tinha dois intérpretes: os irmãos Adam e Joana Mieszkowski, cujo pai tinha sido representante do país a nível de relações comerciais no Brasil e era então o presidente do Comité Olímpico da Polska Rzeczpospolita Ludowa. Eles falavam um Português fluente e excelente, naturalmente com a pronúncia brasileira. Preciosa ajuda nos deram, a todos os que ali estávamos por mor dos desafios de futebol e, no meu caso, de algo mais.



Foi, de resto, o Adam (que mais tarde viria para Lisboa durante um ano escolar para fazer um curso na Faculdade de Letras e ficaria alojado, como mais um filho, em minha casa…) que me traduziu um curioso incentivo que os espectadores gritavam bem alto, obviamente em polaco puro: «Só mais um, só mais um, que assim a Rússia já não vai a Paris!» Registe-se que a selecção nacional estava a ganhar e acabaria por terminar o prélio vencedora… Tal era o «amor» que eles tinham à «patroa» URSS…

Final da partida, vitória portuguesa, telefonar, se possível, para os respectivos órgãos de comunicação. Era assim que se fazia naquele tempo, pelo fio telefónico. Nem fax havia... Confusão, falo eu primeiro, não, falo eu, que o jornal fecha mais cedo, eu vou à frente, os Mieszkowskis numa dobadoira, implorando a maior pressa à operadora de uma central com uma só linha disponível, oficialmente.

Lá consegui ditar o que alinhavara, com uma leitura prévia e rápida do Joaquim Rita (que me cedeu a vez, porque o DN era diário e A Bola ainda não, bela atitude) e com o Tovar a dar-me os apontamentos das três equipas – incluindo a de arbitragem – e os minutos em que tinham acontecido os momentos mais importantes.
Do lado de lá estava o Celso, da Secretaria da Redacção, que me atendia e o António Castro, o chefão do Desporto e(mais um) grade Amigo, que ia tomando breves apontamentos do texto que eu lia, para fazer os destaques. E me incentivava, mas também me pedia que me despachasse. Para o jornal «não perder os comboios».

Finalmente, dei o título: Só mais um, só mais um na primeira linha. E na segunda, assim a URSS não vai a Paris. Quando me vi livre daquela embrulhada, fui-me a uma vodka Zytnia, excelente, tirada do congelador do bar que por ali havia. Os outros continuavam a desbobinar coisas. E, na altura, por incrível que pareça, fui eu quem ajudou A Bola e a RTP: a garrafa, melhor, uma e meia, foi mamada por nós três, o Rita, o Tovar e eu. Ficámos aconchegadinhos.

Regressado a Varsóvia, informei a comitiva que ficava mais uns dias. Fui, inclusive, ao aeroporto despedir-me. Ali se verificou um curioso episódio que meteu muitas golas e casacos de peles e muita gente que as tinha comprado com zlotys trocados na candonga, vulgo mercado negro. Grande confusão, polícias e aduaneiros brandindo as leis e os talonários das multas – um charivari.

Depositados os artefactos para mais tarde se tentar resolver o imbróglio, fiquei encarregado pelos muitos interessados de seguir as diligências. Imbuído de tamanha responsabilidade por delegação, jurei a pés juntos, que seria um fiel e escrupuloso defensor dos direitos dos infelizes compradores e que cumpriria solene e totalmente o meu dever. Nunca mais vi, nem veria, os objectos do crime. Foi, realmente, como escreveria o Erle Stanley Gardner, «O caso das peles malfadadas». Sem Perry Mason, nem Della Street.

Havia ainda a necessidade de prolongar o meu visto, que me fora concedido pela embaixada polaca em Lisboa para os dias da estada das equipas portuguesas. De novo o jovem Adam em acção. Congeminei um plano e uma justificação. Eu ficaria mais uns dias para assistir aos treinos de equipas locais e poder reporta-los.
Um chefão da Polícia, que amavelmente se dispôs a embolsar um punhado de dólares, lá pôs o desejado carimbo. Antes, porem, houve que regatear as notas verdes. Tudo gente boa e… honesta.

E pronto. Entrava assim, na segunda etapa da viagem à Polónia. A partir dali – era a conversa com Lech Wałesa. Coisa simples, como se pode imaginar. Nessa noite dormi, sozinho, em casa dos Mieszkowskis, sob o cenho franzido dos pais. Antes de me deitar tentei convencer o Adam a acompanhar-me a Gdansk, para me fazer entender o que o sindicalista me diria. Estava plenamente convencido de que alcançaria esse objectivo.

Só que, na manhã seguinte, o brioso mancebo informou-me que não podia ir. Doía-lhe a garganta e tinha febre, e… Compreendi que os pais, a quem ele dera conta do assunto, o tinham proibido de ir comigo. Fui para o hotel onde já tinha o quarto reservado, arrumei a mala e a máquina de escrever e desci ao bar, onde me passeei devagarinho, com umas quantas meninas de minissaia e pintadas até aos calcanhares, sentadas nos bancos altos junto ao balcão, que me faziam sorrisos simpáticos, me mostravam as cuequinhas, cruzando as pernas longas e bem torneadas, e me endereçavam olhares pestanudos.
Estivessem elas tal-como-deus-as-deitara-no-mundo e não fariam melhor figura. E visionei-as assim, apenas in mente, claro, para ir matando o tempo e à espera de não sei quê.

Estava eu nisto, um olho nas piquenas outro na sala, quando um sujeito passou rente a mim e, num sussurro, Ferreira? Era, sim senhor. E, com decibéis negativos num espanhol aceitável, acompañeme a los servicios. Mau. Teria maricones a bordo? Naturalmente hesitei. E preparava-me para avisar que cada um fizesse ca sua. Ferreira, no pasa nada. Venga. El estudiante… Lisboa, su casa.

Fui. Cruzando os dedos, por si acaso, e pronto para administrar um murro nas trombas do sujeito, se fosse caso para isso. Não era. O cidadão puxou os autoclismos das três retretes, e abriu de jacto as torneiras para criar ruído de fundo, não houvesse microfones por ali. Inspeccionou rapidamente o local sem encontrar qualquer manigância e deu-me instruções, num registo que continuava em soto voce. Tiene que salir esta noche del hotel y caminar hasta el puente, bajo el cual le buscará un Polski. Solo debe de decir su nombre y ya está. Buenas.

Já não podia
voltar atrás. Estava enterrado até aos cabelos num pântano carregado de areias movediças – e fora eu que me metera naquilo. Por conseguinte, não tinha outra alternativa senão ir mesmo para baixo da danada ponte que vira quando viera para o Novotel. Nem valia a pena encomendar-me ao Padre Cruz, que, nestas coisas, os santos não são nada dados a colaborações, muito menos de fiar.
(Continua num dia destes…)



segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010



UM BAHIANO EM BRASÍLIA

Como ganhar dinheiro na guerra

José Fonseca Filho
Estimulado pelas estórias do meu amigo Henrique Antunes Ferreira acerca de suas peripécias como jornalista internacional, atrevo-me a relatar uma especial. Estive ausente muitas semanas. Não peço desculpas porque não sei se notaram. Mas eu senti a falta dos amigos de Portugal e dos brilhantes colaboradores da Travessa do Ferreira. Chega de intróito. Ao trabalho.

Janeiro de 1978
viajei ao México em missão jornalística, para cobertura da visita do presidente do Brasil. Era ainda um militar, mas que deu início ao processo de abertura. Chamava-se Geisel. General, claro. Missão cumprida, preparava-me para voltar ao Brasil quando o jornalista Pedro Joaquim Chamorro, proprietário do jornal La Prensa, principal adversário de Anastácio Somoza, foi assassinado pelos esbirros do ditador, há 30 anos no poder na Nicarágua.


Mudança de rumo. Tornei-me o primeiro jornalista brasileiro a cobrir o início da guerra civil na Nicarágua. Uma viagem repentina, para a qual não havia previsão financeira. Fui assim mesmo. O hotel seria pago na filial da rede no Brasil. Desembarquei na capital, Manágua, e fui recebido grosseiramente pelos soldados da Guarda Nacional, que encostaram o fuzil na minha cara assustada. Claro, tinham horror a esses jornalistas que chegavam para revelar ao mundo a violência da ditadura de Somoza.

Em poucos dias éramos uns 40 jornalistas, a maioria dos Estados Unidos e da Europa. A guerra civil ganhava contornos mas explodiria dali a cinco meses. Ficamos todos no hotel Intercontinental, o único que havia sobrevivido ao terremoto de 1972. De lá se avistavam os prédios ainda destruídos, porque o dinheiro da ajuda internacional de reconstrução foi roubado por Somoza e sua família.

Acertei as contas com a direção do hotel, inclusive combinando lá fazer as refeições, para incluir tudo na nota final. E também, naquele clima, era o único lugar seguro. Dos quartos ouvíamos o ratatá de metralhadoras, tiros de fuzil e ruídos mais altos, de granadas. Carros militares trafegavam cheios de soldados com pinta de assassinos.



Dois dias depois conseguimos uma entrevista com o ditador Somoza. Comigo o correspondente do New York Times e outro de um jornal londrino. Revistados, entrámos no gabinete do monstro, que juntamente com o pai, outro Somoza, dominava a Nicarágua, política e economicamente, há cerca de 50 anos. E havia outro Somozinha esperando para assumir, o que felizmente não aconteceu graças à revolução sandinista.

Me apresentei. José Fonseca, do jornal O Estado de São Paulo, Brasil. E frisei meu nome de guerra: Fonseca, pois todos declinávamos um nome principal pelo qual seríamos identificados. Somoza não gostou do meu nome, nem seus esbirros. Logo percebi a razão: o fundador das Forças Sandinistas de Libertação Nacional (FSLN) chamava-se Carlos Fonseca Amador. Tivesse ele ascendência lusitana, quem sabe não seria meu primo? O inglês me sugeriu: “You’d better announce yourself only as José.” Todos os jornalistas centralizados no mesmo hotel. Durante um almoço, explosão acidental no sistema de ar condicionado foi confundida com uma granada e metade dos comensais do restaurante correu para a rua. Alguns, prevenidos, levaram seus pratos. Eu estava fora, convencendo um taxista a me levar, de noite, à casa de Viloleta Chamorro, viúva de Pedro Joaquim, para uma entrevista. Anos mais tarde ela viria a ser presidente da Nicarágua.


Não queria ir de jeito nenhum. Os guerrilheiros jogavam bolas de pregos nas ruas para evitar tráfego de veículos e atacar os jipes da Guarda Nacional. Ainda mais de noite, casa distante. Juntei os últimos dólares que tinha e ofereci. Que horas te pego? - respondeu alegre. E fomos. Tudo bem, mas na volta, realmente um pneu do carro estourou. Ficamos os dois, apavorados, no meio da noite trocando pneu.

“Rápido señor Fonseca, se a Guarda nos pega atira antes de perguntar” - dizia o motorista. Ainda mais eu, que sou tido como primo do criador do Exército Sandinista, respondia rindo muito, mas muito sem graça mesmo. Acabou tudo bem e firmou-se ali uma amizade nicaragüense-brasileira: dei mais 20 dólares pelo transtorno, e o motorista fez questão de me devolver dez. Por ter ajudado com o pneu.

Desde o início havia notado, no hotel, a presença de três jovens bonitas, corpos bem torneados, geralmente com roupas provocantes. Não demorei a me certificar de que se tratavam de prosti... isto é, de garotas de programa, assim chamadas modernamente. Até porque, com o passar dos dias aflitos em que a guerra de verdade não começava, eram mais escaramuças pela cidade e interior do país, eu percebia que elas
sempre subiam o elevador acompanhadas. Puderam fazer um verdadeiro curso de jornalismo internacional, relacionando-se com correspondentes de tantos países.

Menos o Fonseca, claro, porque como disse desde o início, estava sem dinheiro. E sem vontade também, porque naquele clima não havia como arranjar durex e eu tinha medo de pegar uma insólita doença centro-americana. Poderiam ainda ser agentes de Somoza disfarçadas, tentando acabar comigo por ser supostamente parente de Fonseca Amador.

Bem que elas tentaram, mas eu resisti bravamente. Umas duas ou três vezes não consegui escapar e uma delas entrava comigo no elevador, me submetendo, no curto trajeto, a uma série de vexames. Passavam a mão no decote e diziam: “Mira, señor Fonseca”. (Depois de vinte dias no mesmo local todos já se conheciam). Eu respondia meio sem graça: “Si señorita, muy bueno, pero no tengo la plata”. Esse, para quem não sabe, é um argumento fatal para uma prostituta: sem dinheiro não interessa.

E assim sofri e me diverti e me assustei e me solidarizei com um povo massacrado por um ditador calhorda na Nicarágua. A guerra civil não explodiu até então e aos poucos todos fomos embora. Um belo dia de sol cheguei ao aeroporto para retornar. Subi alegre ao avião. Foi uma bela aventura, pensava comigo mesmo ao sentar, quando ouvi uma voz ao lado: “Mira, señor Fonseca”.

Eram elas. Duas ao meu lado e a outra no corredor. Não lembro os nomes. Interessante conversa em três horas de vôo. Tinham ido visitar um parente quando perceberam o hotel cheio de homens solitários e resolveram ficar. Nunca haviam ganhado tanto dinheiro sem sair do lugar.

Voltei realizado ao Brasil: primo de chefe guerrilheiro e amigo de putas.