Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

UM BAHIANO EM BRASÍLIA





José Fonseca Filho dá-nos hoje na sua crónica
uma explicação do que se tá a passar na Brasil
quanto às eleições presidenciais. É um texto
que foge do habitual estilo do cronista baiano,
mas que informa e simultaneamente analisa
a corrida às urnas de duas candidatas ao palácio
presidencial em Brasília. Esta introdução
serve apenas para chamar a atenção dos leitores
da nossa Travessa. Pessoalmente entendo que
tem muito interesse; oxalá os leitores
o achem também.


José Fonseca Filho

Depois da Dilma, pode vir a Marina. Se a Marina não chegar, tudo indica que a Dilma continua. O candidato do sexo masculino à presidência do Brasil está em terceiro lugar na avaliação das pesquisas. Tudo indica que lá deverá continuar. O Brasil, depois da 
Dilma x Marina

graça e do charme, se curva ante o poderio de suas mulheres.
Serão duas mulheres sucessivamente, no comando do país. A Dilma já é conhecida:  ex- guerrilheira, lutou contra a ditadura militar imposta em 1964 ao país. Foi  presa, torturada, resistiu, lutou, sobreviveu. Cinquenta  anos depois foi eleita Presidente da República.
Marina, nascida na floresta amazônica, jovem perdeu o pai e ajudou a cuidar dos irmãos.  Aos 10 anos trabalhava num seringal, aos 14 perdeu a mãe. Foi alfabetizada aos 16 anos, formou-se em História aos 26. Na selva sobreviveu a duas hepatites, três malárias e uma leishmaniose.
Dilma foi conduzida ao poder por Lula outra raridade ocorrida no Brasil.  Operár
Lula da Silva e o poder
io, filho da miséria do Nordeste, sem instrução, levado na traseira de um caminhão para São Paulo. Adolescente, começou a trabalhar e se dedicou ao sindicalismo. Também enfrentou a ditadura e acabou presidente do Brasil.
Dilma e Marina ingressaram na política graças à criatividade e ao apoio de Lula e seu PT. Marina divergente, depois se distanciou dos dois, do homem e do partido. Dilma é tida como dependente e a serviço de Lula.
A disputa é acirrada. Dilma estava com franca vantagem em relação  aos dois candidatos homens. Morto um deles em desastre de avião, Marina, sua vice,  foi alçada à condição de candidata e logo emparelhou com Dilma nas pesquisas. E assim continuam.
A  briga agora é entre elas. Com fama de durona, ríspida, Dilma passou ao ataque contra Marina, com o objetivo de, como dizem os profissionais do marketing político, promover sua "desconstrução". Dilma e Lula não admitem perder para uma raquítica mulher de expressão sofrida, tornada  candidata pelo destino.
Os(as)  brasileiros(as) estão divididos(as) entre duas mulheres. Uma tida como rude, Dilma, a outra suave, como Marina, ambas decididas e de forte personalidade. Afinal, não é fácil sobreviver a meganhas e torturas da ditadura nem a feras, doenças e o desamparo da selva. Depois se verá se a eleita conseguirá  sobreviver ao Brasil e seus
problemas.
Lula está preocupado com a eventual derrota da Dilma, que representaria a desmoralização do Partido  dos Trabalhadores, por ele criado. A sociedade brasileira demonstra estar saturada com o corporativismo sindicalista do PT e seu envolvimento com  atos de corrupção.
O mais famoso deles o "mensalão", em que o partido pagava mesadas milionárias a parlamentares para ter votos favoráveis a seus interesses no Congresso. Tido como o maior escândalo da história do país. Há insatisfação generalizada contra o PT, embora Lula continue como o mais popular político brasileiro.


Dilma, Marina e Aécio

Apesar da aparente fragilidade Marina é uma mulher forte, e mantém a calma mesmo transformada em alvo principal dos ataques do PT e do PSDB do candidato masculino. Vale tudo para derrubar a chata que se intrometeu na disputa previsível entre Dilma e Aécio.









quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA



Gorbachev, Reagan

e o Fax

(Segunda parte)

C
orriam no local conversas e boatos, disseram-me que se disse porque tinham dito que tinham ouvido dizer, de certeza mais do que segura, as fontes eram idem, idem, aspas, aspas. Que eram desmentidas durante as conferências de imprensa alternadas do senhor Alexander Haig e do camarada (ex?) Eduard Shevardnadze, os dois responsáveis pelas pastas dos negócios estrangeiros dos EUA e da URSS. Para fazer uma pergunta a este último tive de fazer-me de louco: subi no tampo da minha mesa/secretário e aos pulos (então dava, dava…) agitei duas latas de Coca-Cola e bati ambas para chamar a atenção do ministro soviético que me respondeu, no meio de palmas e bravos dos jornalistas.


M
andar um serviço para o DN era um tormento quotidiano. A desorganização conduzia ao caos. Junto das telefonistas havia bichas – ainda não chegara à Portela a "fila" brasileira – quilométricas. Para os faxes existentes que eram razoavelmente poucos acontecia o mesmo e com prévia inscrição no gabinete que os autorizava. Logo ao primeiro dia tentei desenrascar-me, mas como? Estava entre a deserção e o suicídio. E decidi arriscar. Na zona reservada (?) às comunicações da Secretaria de Estado americana, posto num mesa, imperturbável e mudo, estava um fax que ninguém parecia utilizar.
Bendito Fax


L
evantei o auscultador e do lado de Washington respondeu-me uma vos feminina que perguntou o que havia. Não disarmed: I am a poor Portuguese journalist who wants to send his report to Daily News of Lisbon and… Da capital americana veio a voz feminina: Why I have to do with it? Here is the Secretary of State... E eu informei-a: I know, but here is too complicated ... I need your help, please. O choradinho deu resultado:  Well, okay, you seems to me a nice and genuine guy ... Give me the fax number of your newspaper, man. Eu com a voz mais macia do que seda natural: Thanks a lot, madam. I will do greatly, when I will back to Lisbon I'll send you a bottle of port wine Ok and tomorrow you can reconnect; by the way, my husband and we love Porto wine! (*)


E
 a coisa repetiu-se durante os dias restantes. Ficámos a conhecermo-nos via fax. Disse-lhe quem era, onde morava, a minha família, sei lá que mais mas não enviei o número do colarinho por pura vergonha… A senhora chamava-se Emma Whiteson, mas era preta, risos, casada e com três filhos, morava em Arlington, mas não no cemitério célebre, risos, e etc. No dia em que terminou a Cimeira, liguei-lhe para agradecer-lhe, despedir-me e confirmar o vinho do Porto… Ainda lhe mandara outro fax além dos “normais” onde lhe dizia if visiting Lisbon, you have to go to my home. Começava aí uma bela Amizade; mal cheguei a Lisboa mandei-lhe pelo correio três garrafas de Porto… Ferreira velho.

Três garrafas de Porto Ferreira velho


T
erminou a Cimeira com fracos resultados e um tanto decepcionantes: tinha sido quase o mons parturiens. Os dois presidentes tinham assinado um acordo sobre a notificação prévia do lançamento de mísseis intercontinentais e um outro sobre a verificação conjunta de provas atómicas. As muitas expectativas sobre os resultados tinham ido pelas águas do Potomac. Mas também houvera um outro acordo referente a África: estava aberto o caminho para a independência da Namíbia, com a consequente retirada das tropas sul-africanas deste território e, também, da província angolana do Cunene. Por outro lado, as tropas cubanas passavam a retirar de forma faseada de Angola, de acordo com um calendário que decorreria entre Março de 1989 e Julho de 1991.


A
 conferência de Imprensa de Gorbachev estava marcada para as seis da tarde, tempo suficiente para escrever o início do meu texto com os resultados. No quarto, recebi um telefonema. Era o Dimitri a informar-me de que na recepção estava o cartão da minha acreditação para ela. Obviamente agradeci-lhe, sem ti não teria sido possível, queres alguma coisa para os teus pais? Telefonava todos os dias para a embaixada, logo apenas podia transmitir-lhes que ao vivo me parecia que estava óptimo… e mais crescido. Gargalhadas.
José Goulão


N
a recepção, acotovelavam-se os jornalistas. Um funcionário do ministério das Relações Exteriores lia-a o nome do país e dos jornalistas acreditados; quando chegou a Portugal saiu o nome: Henriques (era Henrique, mas que selixasse, o Afonso também eracom s) Antunes Ferreira, do jornal “Diário de Notícias”. Os outros portugueses disseram-me que eu era um sortudo; apenas o Goulão desabafou: e eu que sou de “O Diário” comunista não entrei. E concluiu que era mais um exemplo da luta de classes. Mas, ficámos amigos como dantes, quartel-general em Abrantes. E até hoje continuamos amigos.


A
ssim, fui o único jornalista português que entrou na sala. Não éramos muitos, comparativamente ao número dos enviados especiais e afins ao mediático encontro. Umas 150, vá lá, 200 almas, imbuídas das melhores intenções que se resumiam numa pergunta. E fui que a coloquei: face aos fraquíssimos resultados que se conseguira alcançar, a reunião fora um flop total? Eu já me encontrara com o novo Senhor do Kremlin em Lisboa, aquando da vinda dele para participar - então ainda então ainda não chefe do PCUS - num Congresso dos comunistas portugueses.


M
ikhail Serguéievich Gorbachev (Михаил Сергеевич Горбачёв, la vem mais um cirílico, mas fica bem) voltou-se para Edward Shevardenaze, então seu ministro dos Negócios Estrangeiros e trocou umas palavras, escassas, com ele. 
Gorby e Shevardenaze
Este último apontou para mim e retorquiu ao patrão no mesmo tom sussurrado. Cumprindo a regra, eu tinha-me apresentado antes de colocar a questão: Antunes Ferreira, Diário de Notícias, Lisboa, Portugal. Isto apesar dos três cartões de identificação com que a burocracia me tinha presenteado: o passe normal, o especial para aquela reunião e o que se destinava ao restaurante do Palácio dos Congressos.

O
 patrão moscovita sorriu e comentou dirigindo-se a mim, ah, o Português… Creio que me lembro de si, em Lisboa… Uns segundos de silêncio. Em minha opinião, posso dizer-lhe que esta cimeira foi falhada, mas não foi perdida… Obrigado. Spassiba. (Спасибо. Ver nota acima). A afirmação seria parangona da primeira página do “DN” no dia seguinte. Mas, não apenas. Órgãos de todo o Mundo a usaram, sem copyright, naturalmente. De resto, no final da Conferência de Imprensa, fui rodeado por camaradas de profissão, os mais diversos, a felicitar-me ou a tentar pequenas entrevistas – ao que acedi. Oficiais do mesmo ofício…. Sabem como

R
ecordo-me de que falei para a TV polaca, para duas rádios japonesas, para a Tass e a Novostni, para o Le Monde, para a Rádio Suisse Romande, para a televisão sueca e para um jornal paquistanês. Se calhar para outros, mas não me ocorrem. Dali fui a correr para o meu quarto numa das duas torres do Hotel Beograd 1 e vá de me agarrar ao teclado da minha Remington portátil. Já havia muito pessoal com computadores, faxes e outras modernices. Mas… A vida de um enviado especial é dura e um verdadeiro contra-relógio.


P
elo telefone passei a notícia para Lisboa. Enfim, estava terminada a aventura da Cimeira. Tinha o avião da Aeroflot (Аэрофлот…) às dez da noite, por isso aproveitei o tempo que me restava para fazer a mala, meter a Remington na respectiva malinha ir ao bar tomar uma Vodka, pagar a conta e ala que se faz tarde. No entanto, um jornalista francês, André Mercier-Boissy queria ainda dar uma volta pelo famigerado barco Moskva. Levei-o lá, avisando-o previamente do que o esperava. Entrámos e logo uma loura minimamente vestida pestaneou. Vamos embora, disse o gaulês, parece a minha colega Valéry com quem não me dou nada, mas mesmo nada, bem. Grande sorte têm os fazedores de jornais – em França

 
A rolha ainda continuava lá...

M
as um curioso apontamento ainda me havia de dar gozo. Em vez de tomar o elevador desci os degraus dos quatro andares e fui ver o meu falecido quarto. Estava de porta aberta, talvez para arejar. Uma matrona (матрона) que vigiava a zona (havia-as em todos os andares) olhou-me de esguelha, mas fingiu que não me via. O chão tinha secado, mas o lavatório continuava divorciado da parede e a rolha também continuava lá.  E nem falo do cheiro.


(*) Para quem não saiba Inglês traduzo: Eu sou um pobre jornalista português que quer enviar a sua reportagem para o “Diário de Noticias” quotidiano de Lisboa, e... E de Washington a mesma voz feminina: Porquê? Que tenho a ver com isso? Daqui é da Secretaria de estado.... Retorqui-lhe: Eu sei mas isto está muito complicado... preciso da sua ajuda, por favor  Bom, está bem, você parece-me um tipo simpático e verdadeiro...dê-me o número de fax do seu jorna.  Muitíssimo obrigado; quando chegar a Lisboa mando-lhe uma garrafa de vinho do Porto e ela: Ok e amanhã pode voltar a ligar-me; e a propósito, o meu marido e eu adoramos o vinho do Porto!








segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA

Gorbachev
Reagan
e o fax

Antunes Ferreira

Cheguei ao aeroporto moscovita Sheremietevo da então União Soviética, a URSS, ou seja a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em russo (Союз Советских Социалистических Республик, não sei cirílico mas fui apontando umas “coisas”…), em 26 de Maio de 1988. Ia reportar a Cimeira entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev. O Presidente dos Estados Unidos deslocava-se ao que tempos antes afirmara ser o Império do Mal. Eu fazia parte de um grupo de jornalistas lusos que ali se deslocava para cobrir o encontro para diversos órgãos da comunicação social portuguesa. Naturalmente eu estava ao serviço do DN.


O nosso grupo era uma gota de água no meio do oceano de mais de
quatro mil elementos da Informação de todo o Mundo que acompanhariam os trabalhos. Mas, antes de escrever algum apontamento, tinha de tratar da acreditação junto dos serviços que a concediam. Por isso, fui até ao Hotel Beograd 1,
Os dois Beograd
um arranha-céus em frente de outro igual, o Beograd 2. Não vale a pena pormenorizar a quantidade de impressos que tive de preencher na recepção. Prática da casa: ficaram-me com o passaporte até ao fim da estadia…


Antes da partida para a capital soviética o embaixador em Lisboa, Valentin Kasatkin, tinha-me oferecido um almoço na embaixada. O diplomata, que já vivia envolvido na perestroika (reconstrução ou reestruturação) e na glasnost (transparência) implantadas por Gorbachev, era um senhor muito simpático, bem como a esposa que participou na refeição. Era sinal de que algo se passava em Moscovo, pois não era habitual as Senhoras aparecerem em público acompanhando o marido. As boas relações que mantinha com Kasatkin justificavam a refeição pois mais nenhum dos jornalistas que iam à URSS tinha sido convidado.


Kasatkin deu-me muitas informações sobre a reunião dos dois presidentes e das respectivas comitivas e o que se esperava dela, bem como me deslocar em Moscovo, onde eu nunca estivera, hábitos da população, políticos, lojas mais importantes, meios de comunicação, etc. Pela altura do café já discutíamos futebol, pois ambos gostávamos do chamado desporto-rei, e de repente ele, ah já me esquecia, no ministério dos Negócios Estrangeiros trabalha o meu filho Dimitri, que é segundo-secretário e está no início da carreira diplomática. Ele fala Português bastante bem ainda que com acento brasileiro. Vivemos lá quatro anos, na nossa embaixada. Vou telefonar-lhe a dizer que você vai. E o número de telefone dele é o…….


A acreditação era quase um pesadelo apesar da organização que a Organização afirmava ter. Na verdade, uma desorganização. Era uma confusão com centenas de pessoas despassaradas, a tentar obter os cartões respectivos. Ao fim de três horas, mais coisa, menos coisa, vi-me na rua com o precioso cartão dotado de mola para prender na banda do casaco ou doutra peça de roupa, mas bem visível. Para que não houvesse sarilhos. Por aquelas bandas ainda havia uns senhores que tinham um ar de santinhos, mas que exsudavam pelos mesmos poros do antigamente.

 
Vodka e caviar
E de repente ouvi falar Português. Um brasileiro conversava com outro sobre coisas da Cimeira, mas também do Brasil. Aproximei-me como se fosse para pedir uma informação e um deles, o mais alto leu a minha identificação. Pediu desculpa ao cavalheiro e voltou-se para mim, você é o português e eu sou o Dimitri Kasatkin. Foi de você que meu pai me falou; vamos beber um copo, cara? Fomos. Afastado, o ex-conservador por certo se perguntava mas quem é este safado que me rouba o Kasatkin? Porém, eu estava-me nas tintas para o despromovido. E fomos até ao bar do Beograd 1 beber uma vodka (водки) acompanhada de caviar vermelho-alaranjado (красно-оранжевый икра). Esta pago eu, disse-me o Dimitri. E vai mais uma? perguntei. Que sim; então esta é de minha conta.

Ao fim de umas quantas vodkas e caviares, já muito bem dispostos, perguntou-me do que eu necessitava. No programa da Cimeira constava uma conferência de imprensa dada por Gorbachev no final dos trabalhos. Era nela que eu queria entrar. A paralela do Reagan devia ser puro Stradivarius. O Kasatkin Júnior disse-me que ia ver o que podia fazer lá no ministério. Despedimo-nos. Fiquei no bar e mandei vir uma wasser/voda, вода (água) mineral. Os meus fracos conhecimentos de alemão ajudavam-me bastante. Entretanto chegavam o Freire Antunes que representava o “Expresso”, o José Goulão, jornalista do “Diário” de tendência comunista e outros, de que não me lembro.




Fui para o quarto já eram umas cinco da madrugada e decidi tomar um duche, cuja mangueira ligava directamente à torneira do lavatório. Quando tentei abri-la fiz força porque estava muito perra e ele saiu da parede. Começou obviamente a jorrar água do cano, parecia uma fonte mas de só uma bica. Telefonei para recepção. Responderam-me em russo. Peguei no meu insipido alemão estudado no “Deutsche Sprachlehre für Ausländer” (“Ensino de Alemão para estrangeiros”) e do outro lado da linha apareceu uma menina que, pelos vistos e pelos ouvistos, ups, ouvidos, conseguia saber menos alemão do que eu.
Junto da sanita...


Desesperado consegui dizer Wasser mein Zimmer, e ela respondeu Warten Sie eine Moment . Ou seja, água no meu quarto e espere um momento. E a água continuava a jorrar. Coloquei no tampo da mesa a Remington e a minha mala de viagem e esperei. Decorreram uns bons vinte minutos quando bateram à porta; apareceu um empregado com uma garrafa de água. Mostrei-lhe a casa de banho. Junto da sanita deveria ter rebentado o esgoto, pois havia um líquido castanho que cheirava muito mal. Disse-me qualquer coisa em russo e saiu. Nessa altura já eu estava em cima da cama.


Daí a um quarto de hora chegou um fulano de fato-macaco e com uma maleta metálica de ferramentas, tirou uma rolha que me pareceu de cortiça e zás!, três marteladas tapando assim a fonte. Desci com ele, veio o chefe do balcão e que falava um inglês misturado com alemão, russo, polaco, francês e presumo que japonês e deram-me outro quarto, quatro andares acima do primeiro alagado que era no 14.º andar. Escrevi umas linhas para o jornal e como a Cimeira começava no dia seguinte fui dar umas voltas pela cidade. Do que eu me havia de lembrar…


Para sair do hotel tive de preencher mais três formulários… Fui
Cúpulas a cores
à Praça Vermelha, Câmara Municipal, igreja de São Basílico com as suas cúpulas multicoloridas e mausoléu de Lenine. Entrei de seguida nas galerias Gum, uma espécie de centro comercial enorme com dois andares e lojas de todas as qualidades, tamanhos e feitios, mas com poucas ofertas para os consumidores, e lá consegui comer uma sopa de couve vermelha/roxa e beterraba, a famosa borsch, (борщ) uma sandes de salpicão russo(сэндвич салями) e uma pivo – cerveja. Num menu deslavado vinha (пиво). Estava, realmente, a sobreviver no reino do cirílico.


Mais tarde, pelas oito horas fui até ao rio Moskva e entrei num barco ancorado e muito iluminado que se chamava… “Moskva”. Era um bar e talvez restaurante onde umas cachopas, com decotes até à cintura, pintadíssimas e saltos tipo torre Eiffel, mas mais altos, aguardavam pelos clientes com sorrisos de dentadura tão brilhante e certa que se via logo que era postiça. Fizeram olhinhos com as pestanas falsas a dar e dar e uma delas, louraça com uma mini-saia de pele de leopardo (plástico), piscou-me um olho carregado de rímel azul, a convidar-me por certo para uma… partida de gamão. Como não estava interessado, nem sabia jogar, bazei e fui deitar-me, que no dia seguinte, 28, começava o circo com palhaços ricos e pobres…
O Palácio dos Congressos


Num salão tsunâmico do Palácio dos Congressos alojavam-se os quatro mil (ou mais) jornalistas de todas as cores, fatiotas idem, olhos normais e em bico, cabelos de todas as tonalidades numa parafernália made in colour como nos filmes do senhor Cecil B. DeMille, rei de Hollywood. Ali passei, passámos, três dias de loucura, com as câmaras da televisão e do cinema montadas num estrado ao fundo do recinto e mesas para os escravos da teclagem fazerem as suas notícias.

(Espero continuar)



terça-feira, 2 de Setembro de 2014


NA PRIMEIRA PESSOA




(2ª parte)


Q
uando saímos do palácio chovia cats and dogs – a potes. E da carrinha – zero. Enfarpelados conseguimos apanhar um táxi cujo condutor nos mirou com apreensivo e assim chegámos ao hotel. Com isto tinha de se fazer passar o serviço para os nossos órgãos de informação. Sentei-me a um dos telétipos e vá de martelar as teclas. Mas a casaca, a camisa de peitilho engomado, o laço branco só chateavam. Despi o despiciendo e, como fazia frio, tinha usado por baixo da camisa uma t-shirt vermelha. Imagine-se a cena que motivou tanta galhofa, a pontos de aparecer um daqueles fleumáticos empregados para ver o que se passava e que não conteve um sorriso.

Teclando

A
cabei o meu texto e atirei-me a teclar o que a Avillez me ia ditando e aproveitando os passos possíveis do que eu escrevera; a solidariedade é muito bonita sobretudo quando exercitada em meio traje de cerimónia. Mas estávamos convencidos a João e eu que no meio do barulho das luzes nenhum leitor daria conta dessa reportagem a duas mãos como num piano Steinway. Dessa maneira conjugaram-se autores e trabalhos mais ou menos literários. Em Lisboa, pelo menos que eu soubesse, não se registaram queixas.

E
ram duas da madrugada quando arribei ao bar de Royal Horseguards, onde o respectivo barman me serviu galhardamente uma dose bem aviada do uísque irlandês que considero o melhor do Mundo, o Black Bushmills, aliás da Irlanda ocupada com se diz em Dublin. Na altura fumava que nem uma chaminé Gitanes sem filtro. Perguntei ao solícito empregado se podia dar umas fumaças, Of course, Sir, here is prohibited, but… Para o compensar de tanta gentileza convidei-o a beber um copo comigo, para mim o terceiro – com soda.

C
om muitos cuidados, olhando minuciosamente em redor, o mister Jonhson, que nascera na Irlanda ocupada, aceitou a proposta. Mas como o Demo podia estar atrás de uma porta, mesmo no Horseguards, deu por encerrado o bar, fechando os dois acessos. Conversa pra cá, Bushmills pra lá, quando eram cinco da matina selámos o encontro com um shakehands. Tínhamos sabido que eramos ambos virgens (de horóscopo) três filhos meus, um casal dele, as moradas respectivas e etc. Só não trocámos e-mails porque na altura era fruta que ainda não amadurecera. Temporã..,  Mas, hoje, já há e continuamos através deles a cultivar a Amizade que fizemos.

H
avia um dia livre e o embaixador Armando Martins Janeira decidira, tal como lhe competia, dar um almoço informal (?) à comitiva presidencial. Era um Senhor. Cultíssimo, para além de diplomata era escritor. Orientalista, estivera por duas vezes no Japão, a última das quais já como embaixador. E até fora condecorado pelo governo nipónico.



Armando Martins Janeira recebendo a conderoração

O acolhimento que deu aos componentes do grupo português foi sensacional. A sua esposa, Ingrid Bloser, alemã, considerava-se a embaixatriz de Portugal mais… portuguesa. Em Tóquio aprendera o ikebana, a arte japonesa do arranjo floral que praticava e ensinava.

N
o final do almoço, servido o café e os digestivos, Janeira informou Ramalho Eanes das repercussões da sua visita nos órgãos de informação ingleses, um trabalho excelente que o Presidente muito apreciou e que o levou a felicitar o embaixador. Palavra puxa palavra e com a autorização de Eanes coloquei algumas questões ao diplomata, nomeadamente sobre o tema que mais o encantava, o orientalismo. Disse-lhe que a minha mulher Raquel era goesa o que motivou comentários quase entusiásticos dele.

A
 comitiva despediu-se do embaixador e quando eu ia a fazê-lo, ele puxou-me de lado e perguntou-me o que faria no resto do dia e onde tencionava jantar. Informei-o que, primeiro que tudo tinha de mandar a reportagem do dia, aliás coisa pequena pois não tinham havido acontecimentos muito importantes para além, claro, do que se passara na embaixada. E por isso teria de ir ao hotel; depois ficava livre.

M
as você não precisa de ir ao Horseguards. Faz daqui uma chamada para o DN e dita o seu serviço. Já percebi que não se engana e que sabe resumir os assuntos (palavras dele). Lá em Lisboa, no seu jornal, e se for necessário completarão as coisas com os telexes da ANOP. Convido-o para conversar um pouco e em seguida janta cá connosco. Um transmontano é sempre assim. E a minha mulher também embeiçou consigo. Queremos, quando a ocasião se propiciar, conhecer a sua goesa. Impossível dizer que não.
Onde ainda existem palheiros...

P
or isso, assim aconteceu. A conversa e o jantar (aquele sim, absolutamente informal), terminou com uma bagaceira de Felgueiras, donde Janeira era natural. Ouça lá, meu amigo, Felgueiras, mas de Trás-os-Montes, uma aldeia pequenina a 13 quilómetros de Torre de Moncorvo. Onde ainda existem palheiros. Por acaso a nossa empregada Conceição Gomes também era de lá, tinha casa, construída pelo pai, quando tinham retornado de Angola, mais precisamente do colonato da Cela. E bagaceira. E eu já tinha estado em Felgueiras e visto os tais palheiros.

M
as que homem extraordinário que você, Antunes Ferreira, me saiu. Sabe tudo, conhece tudo, andou por todo o lado, corre os cantos do Mundo (ver nota acima, foram palavras do diplomata…), o que aproveitei para lhe contar mais uma anedota para além das várias que tinha “atirado” durante a tarde. Sabe o Senhor Embaixador, qual é a diferença entre Deus e Mário Soares? Não sabia; e eu elucidei-o: Deus está em toda a parte; Soares esteve. Mais umas boas risadas em que a Dona Ingrid participou. Teutónicas, mas participou.

E
le ia aposentar-se no ano seguinte, 1979. Tínhamos, forçosamente de ir visitá-los à vivenda que possuía no Estoril, o que viemos a fazer. Infelizmente pouco tempo depois faleceria. Na rua onde moro existe uma outra perpendicular com o nome dele. Homenagem justíssima. Compromisso selado com a famosa bagaceira e conversa animada a entrar pela noite. Mesmo sem ter delegação para isso, sugeri-lhe que depois da reforma fosse colaborador do Diário de Notícias. Trato feito e mais charla e mais bagaceira e com isso eram três da matina, que é como se diz em Felgueiras, mas de Trás-os-Montes. Mais uma noite perdida? Nada, não, mais uma noite ganha. 


Começou-se pela London Tower

A
 porra é que no dia seguinte de manhã, com a visita à Torre de Londres, ao Parlamento e à abadia de Westminster terminava a viagem oficial do Presidente Ramalho Eanes. Alvorada às cinco e meia. Depois de fazer as abluções mínimas mas necessárias, começou o périplo. A guia, (bem bonita, aliás) foi dando ensinamentos e explicações.  A London Tower com uma história de mais de 900 anos, fora construída por William, o Conquistador, para afirmar o seu poder e proteger a cidade.

F
ortaleza, palácio, prisão, arsenal, é uma das edificações mais famosas do mundo. Aqui guarda-se, além de muitos tesouros históricos, corvos, armaduras e as Jóias da Coroa, o tesouro mais precioso da Grã-Bretanha. A história da torre começou no século XI. É a primeira fortaleza europeia, já foi ocupada pelos Romanos, foi palácio real, prisão, local de execução, arsenal, abrigo de animais selvagens e casa de jóias. E podem-se ver os vestígios de cada uma das partes desta história extraordinária.
Com um par de...

D
e seguida o Parlamento. E de acordo com a guia, (repito, elegante e belíssima com um par de... olhos) o Palácio de Westminster, também conhecido como Casas do Parlamento, ( Houses of Parliament) é onde estão instaladas as duas Câmaras, a dos Lordes e a dos Comuns; fica na margem norte do Tamisa e próximo de outros edifícios governamentais ao longo da Whitehall. É um dos maiores Parlamentos do planeta. Tem mais de mil salas, cem escadarias e cinco quilómetros de corredores.

E
 pela última vez, a guia, (que mulheraça com todas as curvas nos respectivos lugares) informou: A Igreja do Colegiado de São Pedro em Westminster mais conhecida como Abadia de Westminster (Westminster Abbey) é uma grande igreja em estilo gótico é considerada a mais importante de Londres e, talvez, de toda a Inglaterra. É famosa mundialmente por ser o local de coroação dos monarcas do Reino Unido. Entre 1546 e 1556 obteve o estatuto de Catedral e actualmente é uma Royal Peculiar.

O seu carro já apareceu
(A foto é posterior) 

N
ela aconteceu o impossível. Durante a visita, Ramalho Eanes fez-me sinal para me aproximar dele, o que fiz. E não sua voz característica, mas baixinho, sussurrou-me "o seu carro já apareceu". Olhos esbugalhados os meus. Podia lá ser. Podia. A dona Odete da secretaria da redacção recebera da PSP a informação de que o meu Honda 600 fora encontrado, ainda que em muito mau estado. Comunicou para o Royal Horseguards. Mas eu já tinha saído com a bagagem. Tentou outro número da sua lista e ouviu uma voz de homem perguntar-lhe o que acontecera. Disse-lhe que não era nada preocupante e pediu-lhe que me informasse do aparecimento do meu mini para eu ficar mais sossegado. A voz era do ajudante de campo do PR que transmitiu a Ramalho Eanes o que acontecera ao meu boguinhas. O presidente disse-lhe que ia resolver o assunto; e resolveu. O prometido – cumpre-se. Ele há dias em que um homem não deve sair de um hotel, de madrugada.

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NB O Honda 600 podia ter ficado como está no título, mas felizmente não ficou...