Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

quinta-feira, 26 de março de 2015

ÁGUA DE COCO

Lojas…
“portuguesas” (?)


Antunes Ferreira
Para quem me conhece não me parece necessária
a salvaguarda que deixo aqui: peço o subido obséquio
que não pensem que estas crónicas resultam
de intenções neocoloniais. Nunca fui saudosista
 dos tempos do antigamente;
não seria agora, a caminho dos 74 anos
que isso aconteceria…
P

elas ruas de Pangim, que começo a conhecer mais do que alguns naturais (ia escrevendo indígenas, mas meti travões às quatro rodas, ainda que o fonema signifique isso mesmo, porém por cá pode ser depreciativo…) da terra, vou confirmando o que já descobrira há muitos anos. Mas, para lá chegar, deixem-me que vos conte uma estória que me aconteceu no princípio da semana. Curiosamente tenho de dizer que não contava com ela, mas elas acontecem quando menos se espera. E, assim, têm mais sabor, digo eu.

 
Comida mesmo goesa
T
ínhamos almoçado no George na praça da igreja catedral que já está engalanada pois vêm aí a Semana Santa. O restaurante para mim é o melhor da capital onde se come cozinha goesa genuína, embora noutros também se encontre, mas um tanto adulterada pelos que vindos de outros Estados da Índia emigraram para Goa. Um caril à maneira goesa, um vindalho, um sarapatel, um balchão e outros têm um sabor absolutamente diferente das restantes cozinhas indianas que são muitíssimas


R
etomo a estória. Na primeira esquina do jardim Garcia de Orta, antes de se chegar ao hotel Sri Punjab, que tem um restaurante onde pontifica a comida punjabi de seu nome Aroma (nada tem que ver com a nossa palavra), um casal europeu com sacos de compras, Nikon pendurada do pescoço do homem perguntou-nos em francês que língua falávamos, ao que lhes respondi que falávamos Português, pois éramos de Portugal, mas que, na realidade, a Raquel era goesa.



F
oi um encontro de uns quinze minutos, mas muito interessante. Os franceses Marcel e Pauline Combatt vinham do Estado de Karnataka e tinham descoberto que Goa era muito diferente, pois também tinham andado por Nova Deli, chegado ao Taj Mahal, (visita incontornável na Índia) viajado pelo Punjab, terra dos sikhs e dos Templos Dourado (imperdível) e Khajurhao
Khajurhao até com animais
(visita igualmente indispensável por mor dos templos com figuras eróticas em relevo nas paredes exteriores, mesmo pornográficas, representando actos sexuais que até metem animais). Konark no estado de Orissa também é assim.


M
as Goa era diferente. Porquê? Expliquei-lhes a permanência dos Portugueses ao logo de quase cinco séculos por ali, falei-lhes das igrejas, capelas, catedrais, conventos e cruzeiros. E apontei-lhes a Papelaria J.M. Fernandes, dizendo-lhes que a loja tinha o seu nome em Português, o exemplo mais à mão dessa realidade. Nem pareciam descendentes dos irredutíveis gauleses Astérix e Obélix, pois eram muito simpáticos. Agradeceram-nos as informações e separámos com muitos abraços e beijinhos e combinámos um encontro quando fosse possível… Já os voltei a ver, mas como iam do outro lado da rua, não lhes acenei. Eles não nos tinham visto. Um dia jantaremos em qualquer parte do Mundo – se lá chegar…

Palácio do Idalcão


D
isse à Raquel que pretendia andar um bocadinho, pois fazia 34º mas há tempos que o não “marchava” (longe vai o tempo da tropa) e precisava de começar a desenferrujar as dobradiças. Fomos até ao Idalcão, antiga sede do Governo no tempo dos Portugueses. Estávamos no coração da Pangim velha a caminho do bairro das Fontainhas, e dei por mim em frente do Hotel República, assim mesmo com acento agudo. De supetão surgiu-me a ideia (cada vez mais estou um idiota…) de ir mirando lojas diversas para confirmar o que já sabia: muitas mantinham nomes portugueses.



T
arefa bem simples. Desde o Café Central até ao estabelecimento de tecidos Amaro Rebelo & Sons - antigamente era & Filhos – passando pelo Hotel Fidalgo que quantidade deles subsistia. Alguns exemplos em Pangim: Café Real, Café Nacional, Lembrança (com cê cedilhado) loja de souvenirs, para não falar da Farmácia Salcete (é o nome do distrito da Raquel que ali nasceu, mais precisamente na aldeia Raia, onde a família Melo tinha casa com capela e que é conhecida como capital do catolicismo), Hotel Palácio de Goa, de um mouro (como aqui se chama um muçulmano).

Instrumentos musicais

M
as, não me fico por aqui. A Barbearia Nova fica ali ao virar da esquina, o Hotel Mandovi em frente do estuário do rio do mesmo nome, com uma loja Pastelaria, a Barbearia República também, o Hotel Menino, a firma Pedro Fernandes & Co (Companhia) não podendo esquecer a Confeitaria Italiana a que já me referi no sportinguismo goês, prova de bom gosto futebolístico.  Aliás por toda a mencionada Salcete (com o restaurante Nostalgia perto de Raia) digam-me lá se isto é saudosismo ou neocolonialismo? Não é. São apenas constatações feitas no seu lugar. Aliás Casas há muitas, tal como os chapéus... Por exemplo a Casa Shirodkar, em que o termo português está associado ao nome do proprietário goês. E que dizer da Casa Velho (da família Velho) de artigos diversos de decoração e outros, carotes. Pronto foi um percurso pequeno, mas a capital também não é grande…





quinta-feira, 19 de março de 2015



ÁGUA DE COCO

A sesta das zebras


Antunes Ferreira
N
ão é de agora a constatação; tal como no calino anúncio publicitário, já vem de longe. De princípio tive a sensação de que alguma coisa não batia certo – porque ainda não entendia o que passava no meu cérebro – e, depois, fez-se luz. Se o trânsito era caótico, um cidadão vindo de outras latitudes, apenas tinha dois caminhos a tomar: entendê-lo ou voltar tão rapidamente quanto lhe fosse possível pra o local de origem. Optei pelo primeiro. Fiquei.

O mastodonte motorizado


A
ntes do mais tinha de guardar na massa cinzenta que o trânsito era pelo lado como o inglês, o que na primeira vez que chegara ao Reino Unido me valeu a oportunidade de levar com um autocarro ainda por cima de dois andares. Safei-me por uma unha negra e quando me preparava para invectivar, à boa e vernácula maneira lusitana o motorista do monstro, uma alma caridosa me explicou que lá era preciso olhar para a direita de onde vinha o mastodonte motorizado e só depois atravessar olhando então para a esquerda.

M
as era melhor cumprir as regras e alcançar o outro lado da rua pelas zebras pintadas no pavimento; as zebras eram as passagens dos peões. A experiência que podia ter sido dolorosa levou-me a que nos países com o tráfego à moda inglesa passasse a utiliza-lo. Como bom Português, habituado ao toca-e-foge das ruas, e ao alegre não cumprimento do Código da Estrada, a rigidez dos bifes e correlativos era um exagero. Daí que isso resultasse numa mistura explosiva: o trânsito incongruente e os desastres que originava. Ser Português é ser infractor. Nisso somo especialistas…

De pijama às riscas


A
final o que são as zebras? Aqueles cavalos de pijama às riscas também o são, mas aqui falo das passadeiras que atrás mencionei. Onde os peões se sentem seguros quando as utilizam para passar para o lado de lá. Tem dias, pois há condutores que as ignoram pregando cagaços aos pedestres e por vezes mandando-os para o hospital e até para o cemitério mais próxima da residência dele. Porém, na generalidade, as zebras não se encavalitam. Na especialidade é que reside o busílis da  questão. Não falo de São Bento, apesar da terminologia ser semelhante. No caso presente e no Parlamento há os Passos Perdidos. Oxalá os houvesse, mas com outra finalidade e com muita urgência. Mas, daqui a meses...

Muito desbotadas...


J
á estou daqui a ver os escassos leitores a perguntar a que vem este arrazoado? No escrito fala-se ou não de Goa? Ou  por outro lado o que tem o cu com calças? Tem sim senhor. Tome-se o caso da capital Pangim – é só um exemplo, na especialidade porque na generalidade são outras quinhentas mil rupias – onde há algumas, poucas,  zebras, aliás muito desbotadas. E desde já um conselho: se aqui vierem não passem nelas!

N
o meio de um trânsito mais do que caótico ninguém as respeita, muito pelo contrário são verdadeiros alvos para os condutores dos veículos motorizados, dando até a impressão que não são listadas mas sim concêntricas. Já participei em tráfegos citadinos e rurais e a ideia que continuo a ter é que as zebras de aqui seguem a norma geral: são sucêgadas. Isto porque Goa também o é, o que em devido tempo escrevi sem peias.

P
ara completar o panorama há que dizer que polícias de trânsito (???) e escassos sinaleiros (???) afinam pela mesma medida. Ou seja, assistem, impávidos (e impávidas pois também as há…) e serenos/as aos atropelos das regras (se é que elas existem cá…) quotidianos, diria até permanentes. Por isso repito o aviso se quiser atravessar por exemplo a 18 de Junho (que é a principal rua da capital e que nos tempos dos Portugueses era a 5 de Outubro) treine afincada, prudente e atempadamente os 3.000 metros obstáculos, as fintas, os dribles e os 100 metros.

Atravessar a rua


E
 se chegar são e salvo ao outro lado da rua não se admire: é mais fácil atravessar a correr por entre automóveis, carrinhas, furgões, camionetas, motorizadas, bicicletas e peões despreocupas do que tentar utilizar as zebras desbotadas que são poucas, mas que também são verdadeiras armadilhas. Tudo indica que um cidadão se arrisca mais do que os personagens duma série televisiva muito antiga, O Perigo é a Minha Profissão. Torna-se um verdadeiro alvo como acima se disse, sem contemplações dos condutores de qualquer veiculo motorizado a expelir fumo como um dragão que se preze, sem respeitar o ambiente, mas também sem o Imposto Verde de terminado pela UE. Na verdade, há que concluir e fundadamente que estas zebras fazem a sesta 24 horas por dia...



sexta-feira, 13 de março de 2015

ÁGUA DE COCO



O sportinguismo por cá

Antunes Ferreira
P
erto do mercado de Pangim, nos prédios que o rodeiam há consultórios médicos a dar por um pau. Católicos (que vão diminuindo, acompanhando o se passa com a população cristã) hindus das mais diversas origens, muitos destes sendo goeses, chineses, tibetanos, muçulmanos; anestesistas, ortopedistas, cirurgiões de todas as especialidades, cardiologistas, oftalmologistas, otorrinos. Descobri nestas minhas andanças sanitárias uns quantos esculápios judeus goeses. Por vezes também é possível encontrar magos, curandeiros, adivinhos, endireitas, e muitos mais falcatrueiros que teimam em fingir que são melhores do que os clínicos verdadeiros. E em tentar impingir-nos os seus “beneméritos serviços”

Somos goeses, os "outros" são indianos...


E
m todas as sociedades desde o Norte ao Sul, do Oeste ao Leste podem descobrir-se figurões deste quilate, vi-os na China, na Venezuela, em Cachemira, na Austrália, nos gelos pré polares da Lapónia e do Canadá, enfim, por toda a parte em que tenho posto o pé, ou, melhor no plural. Deixem-me que vos conte uma peculiaridade local. Quando se pergunta a um cidadão mais ou menos tisnado nascido nestas latitudes o que ele é a resposta é imediata sou goês. E perante a “então os outros” de tonalidades de pele iguais, de imediato salta a afirmação: esses são indianosNo mínimo, quer dizer muita coisa.

F
oi num deles que fui encontrar a Dr.ª Flora Miranda que, como já contei, é dermatologista e professora universitária. Depois da consulta o Zito Menezes, a Raquel e eu fomos a uma farmácia para comprar os medicamentos receitados. Estrategicamente situada no rés-do-chão do edifício existe uma. Dois senhores e uma senhora atendem ao balcão os pacientes. O estabelecimento nem parece ser farmacêutico, o balcão de atendimento dá directamente para a rua, aliás prática quase generalizada.

E
xcepção para a Farmácia Salcete, na 18 de Junho (no tempo dos Portugueses 5 de Outubro), a rua principal da capital um tanto à maneira duma Rua Augusta, (onde se encontram as principais lojas, incluindo as de marcas), obviamente muito menor, mas com o trânsito diabólico
Trânsito -um caos
que vigora em Goa – e no resto da Índia. Na minha rua, que já vos disse onde fica, existe outra, modernaça, mas em contrapartida com muitas faltas de mezinhas. Porém com donos simpatiquíssimos, dando logo a entender que são goeses, até nos pedidos de desculpas pelas carências nas prateleiras.

P
orém, já me alonguei demasiado; volte-se então à farmácia já citada no prédio onde abundam os consultórios médicos. Quem nos atende fala um português fluente, obviamente com o sotaque local. O outro farmacêutico e a senhora idem também se expressam na língua de Camões, de Pessoa e de Jorge Amado, ou seja a nossa. Não lhes perguntei os nomes, de tão preocupado que estava; mas, hei-de sabê-los. O Dr. Zito Menezes que os conhece bem aponta o primeiro e diz, sorridente, este é dos nossos. Zito é sportinguista ferrenho, eu sou-o também, mas mais moderado e portanto o farmacêutico também é leão, o que confirma de modo assaz tímido.
 
O famigerado...
E
mbora houvesse quórum não se realizou uma assembleia-geral verde e branca; os dois restantes elementos da farmácia não se pronunciaram sobre a cor clubista e a minha esposa é… lampiona. Lá se compraram os medicamentos e despedimo-nos dos camaradas com saudações leoninas. Se o famigerado Bruno ali estivesse – o que felizmente não acontecia – ficaria de cara à banda ao ver essa manifestação sportinguista pura. Mas, pelo sim pelo não, publicaria no Facebook um comunicado a desmentir a reunião e uma queixa/crime à FIFA e à UEFA.

A Confeitaria Italiana


J
á conhecia há muitos anos a famosa Confeitaria Italiana verdadeira demonstração viva do sportinguismo; na parede ao seu lado está pintado o emblema do Sporting Clube de Goa, igualzinho ao nosso, só que com um G em vez do P. De confeitos, bolos, bolachas tem zero; já de vinhos e outros álcoois de todas as proveniências incluindo Portugal não falta nada. Por “decreto” do Bento Miguel, seu proprietário, ali só se pode falar do verde-e-branco. Ai de quem não o fizer e traga à baila o Porto ou o Benfica. Belenenses são tolerados. A multa não está afixada na porta, mas é melhor ter cuidado. E logo me salta à memória a Maria José Valério com o cabelo pintado de verde: “Viva o Sporting! Quer se possa ou não se possa, a vitória será nossa…”

Não gosto de funerais...


E
ntretanto, no Dragon acontecera a desgraça dos 0-3, seguida por outros desastres, qual deles pior do que o seu o antecessor; um tormento visto e sofrido aqui de Miramar, o Algés de Lisboa, mas mais a dar para o fino. Por essas e outras nem tenho ido à Confeitaria, mas contaram-me depois que parecia um funeral. Não gosto de velórios, círios e coroas de flores e, sobretudo de caixões e gatos-pingados; o último a que irei e muito obrigado será o meu. Nesse, infelizmente, não posso faltar.



sábado, 7 de março de 2015

ÁGUA DE COCO

Glorioso 
Santo



Antunes Ferreira
E
m Goa não há católicos não praticantes. Aqui o catolicismo é “radical”: ou se é católico de missa dominical ou mesmo quotidiana, ou não se é. Não há meios-termos como no maniqueísmo entre o branco e o preto: o cinzento, seja mais carregado ou menos não existe. E nas missas (quase) toda a gente comunga. Naturalmente não me refiro aos hindus, uma maioria destacada. De resto os católicos – embora firmes - são cada vez menos: nem 30% chegam a ser. A zona de Salcete, de onde a Raquel é natural, é onde os católicos predominam – ainda. Como me disse o padre Mouzinho Ataíde daqui a pouco só restarão as igrejas…  

O túmulo de São  Francisco Xavier

                                                                                    
Q
ue aqui não faltam: catedrais, igrejas, capelas, nichos votivos, cruzeiros e similares. Veja-se a basílica do Bom Jesus na Velha Ciddade onde se encontra o túmulo de São Francisco Xavier, cada vez mais menos incorrupto. Quando se vai de Pangim a Margão (a segunda cidade) são tantos que já deixei de os contar. Porém a maior parte do estado é hinduísta. O hinduísmo não é uma religião, é uma forma de vida; nele existem templos diversos dedicados aos deuses que são em número para dar e vender… Só para dar um exemplo, quando há anos fui de Bengalore a Misore, pelo caminho encontrei uma multidão com serpentes vivas nas mãos. Iam ao templo da deusa da serpente cujo nome não retive.


Templo de Shri Manguesh



E
m Goa os templos católicos convivem com os hindus e as mesquitas e as sinagogas ainda que os judeus sejam uma minoria. Ainda que os muçulmanos não sejam do agrado dos outros. O Francis, chofer de táxi, disse-me que um dia destes Goa passará a chamar-se Burquistão. De burca, naturalmente… Aliás para ele e para mais gente o tempo dos Portugueses é que era porreiro… Os muslimes invadiram a terra, ou vão-no fazendo e já são em número considerável. São facilmente reconhecidos, eles de barbas grandes, elas vestidas normalmente de negro e somente com os olhos numa fresta que não deixa ver mais nada do que eles. O Aycha condutor de riquexó informou-me que até nesse meio de transporte muito utilizado e barato eles estão a tirar o lugar aos goeses e já dominam o mecado, de Meca, obviamente. O mecado e o mercado.

P
orém volte-se ao catolicismo. Há igrejas, capelas e até a Sé Catedral na Velha Cidade quase esgotam os nomes sagrados, desde o Coração de Jesus até à Santíssima Trindade, passando por Santa Inês, São Pedro, São Paulo, Nossa de Fátima, diversas outras Nossa Senhoras, Sagrada Família, naturalmente São Francisco Xavier que continua a reinar sem contestação alguma. Tudo indica que mais dia, menos dia, haverá um templo com o nome do Santo padre José Vaz, recentemente canonizado. Curioso. Mas para além do apóstolo das Índias quem segue em segundo lugar é o São Sebastião que se afigura ter caído na graça dos católicos goeses. Ele é a igreja, ele é a capela, ele é omnipresente.
Capela de S. Sebastião - Fontaínhas
Nas Fontainhas (a “Alfama” de Pangim onde reina a arquitectura portuguesa antiga) há uma capela dedicada ao Santo junto da qual está a casa onde morou a Raquel.

J
á estava convencido da importância do santo carregado de flechas (enterradas no tronco nu dele) mas acabo de confirmar o que pensava. Vindo de Vernã para Pangim no táxi do já citado Francis passei por mais uma capela. O que não é motivo de espanto…, bem pelo contrário. Como atrás referi elas são como os cogumelos, salvo seja, só que não são de geração espontânea. Quem as edificou foram os nossos antepassados. E nada de enganos. Homens são homens, esporos são… botânica. Já vejo no horizonte o Vaticano agitar-se e brandir a excomunhão; porém Roma não se safa, já plantei o salvo seja que espero como boia de salvação ou bula redentora. Mas desta feita o templo tem o nome bem destacado na frontaria: Chapel of the Glorious Saint Sebastian.

Vasco da Gama chega a Melinde


E
 como estou no campo da heresia deixem.me que vos diga que este Sebastião não é de maneira alguma o que comia tudo sem colher e que ficava todo barrigudo e depois dava pancada na mulher…A lengalenga da minha infância surge-me de supetão à vista da capela, pintada de branco debruado de azul onde avulta o letreiro identificador. Cada vez mais espero pela tal bula já referida - ainda que duvide da sua eficácia. Adiante. É espantoso saber que os actuais católicos de Goa têm as suas raízes nos Portugueses de antanho pois quando Vasco da Gama aqui chegou quem reinava era o Islão. Para que não haja dúvidas ou maledicências que há por este Mundo fora, o letreiro acaba com elas. Ou seja neste caso o santo é reconhecidamente glorioso.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ÁGUA DE COCO

Nomes com História



 Antunes Ferreira
A
inda não tinha contado que o Amigão Dr. Zito Menezes, já muitas vezes citado nas colunas da nossa Travessa, decidira levar-me à Professora Doutora Flora Miranda para que ela me visse a perna esquerda muito escalavrada, por mor de um trambolhão maior do que se pode pensar, a que juntara no dia seguinte uma bela ferida na canela. Assim aconteceu e ilustre médica receitou-me um antibiótico forte, um sabonete desinfectante e… Betadine. Pela consulta, paguei a exorbitância de 300 rupias, pouco mais de… quatro euros; um exagero… Já comecei o tratamento e a pata esquerda parecia melhorar. Parecia, mas não estava. Infectara. Daqui a uns dias, se tiver paciência e engenho contarei o que seguiu. Uma saga doentia…

P
or isso, voltou-me então alguma disposição, animado pelos Amigos Zito Menezes, Carminho Costa e Álvaro Amorim, este de longa data e que é o “presidente” da nossa tertúlia Sabores & Saberes que todas semanas às quintas-feiras se reúne no restaurante “Sabores de Goa” no Bairro das Colónias aí em Lisboa. Note-se que foi a única denominação escapada ao frenesim salazarento que, como bom provinciano, pensou ter enganado a ONU com a transformação em… províncias ultramarinas. Porém o Bairro manteve orgulhosamente assim e ninguém foi capaz de do derrotar, nem por decreto-lei aprovado na “Assembleia Nacional”.

Meninas bonitas mas mais "compostas"...


D
aí que na antevéspera do Carnaval (que por estas bandas é também e ainda muito comemorado, com desfile de carros alegóricos e toda a parafrenália do entrudo) me decidisse a escrever este textículo; anoto entretanto que por cá, apesar da língua inglesa utilizada Carnaval é mesmo Carnaval com a e não Carnival como dizem os bifes. No entretanto achei por bem não ir ver o desfile, por mor da desgraçada perna. Muito pó, muitíssima gente, a infecção poderia aumentar e a chaga era grande.

P
ortanto assisti ao Entrudo pela televisão, dois canais goeses, pelo menos deram-no em directo. E creio que um nacional. Aproveito o ensejo para Informar que neste subcontinente há mais canais televisivos do que coqueiros, passe o exagero… E aqui para nós que ninguém nos ouve, pasme-se: em São Paulo procedi da mesma maneira. Mas, por favor, não divulguem. A costela brasileira fazia – faz sempre -  parte das brincadeiras com algumas marchas, mas onde jovens farristas iam muito menos despidas… Uma cegada suficientemente vestida… Quem nunca experimentou as cenas que, mesmo assim, se verificavam, com mais samba (e menos bundas do que no Sambódromo carioca) faça como disse o Camões: “mais vale experimenta-lo que julga-lo; mas julgue-o que não pode experimenta-lo”.

M
as, volte-se à intenção inicialmente desenhada de escrever umas linhas sobre esta terra bendita (exceptuada a perna…). O que nem é original; cada vez que estou em Goa – e mesmo noutras “índias” – tenho escrito sempre sobre estas bandas. Aproveito para lembrar que até entrevistei Indira e Rajiv Gandhi, ambos com primeiros-ministros e ambos assassinados. Lagarto, lagarto, lagarto. Donde que estas prosas serão curtas e convalescentes. Férias são férias, serviço é serviço, conhaque é conhaque.

... também se festeja o Carnaval


U
m exemplo: no centro de Pangim, mais coisa menos coisa, a caminho da praça da igreja da capital, há um jardim (que já vi mais do que maltratado) agora reconstruído pela “câmara municipal” da cidade, o City Council. Chama-se ele Garcia de Orta - quando puto o desgraçado que dissesse Garcia da Orta seria imediatamente “premiado” com cinco palmatoadas pela dona Clélia Marques, directora da escola Mouzinho da Silveira e professora da quarta-classe – em homenagem ao médico e botânico que chegou a físico da Imperatriz da Rússia, no século XVI.

P
ois num dos prédios que o rodeiam pode encontrar-se com letreiro para a praça o Clube Vasco da Gama onde nos tempos dos portugueses decorriam bailes famosos até de madrugada, com serviço aprimorado (e apropriado), onde eram famosos os croquetes de carne bem picantes, O clube fica num terceiro andar, debruçado sobre o jardim, mas hoje está reduzido a um restaurante sem grandes motivos para aplauso. Nele continuam a pontificar os croquetes, que posso dizê-lo por experiência própria têm vindo a definhar. A freguesia é, cada vez mais, mais magra. Por lá param muitos cabelos brancos, que mais dia, menos dia seguirão o seu destino final. Não faltará muito para que dos tempos coloniais portugueses só restem as igrejas…

... com os seus croquetes


N
esta terra de contrastes mas também de singularidades, é curioso para um luso-viajante que aqui aporta encontrar esta curiosidade. Para quem já está habituado, com é o caso do escriba, não tem especial significado esta coincidência. No entanto, e mesmo assim, em prédios onde há mais de cento e muitas lojas que na maioria dos casos ostentam nomes como Vishal, Karmonkar e outros, (uma papelaria, porém, ostenta o título de J. M. Fernandes, livros e artigos de escritório, em português e uma “Casa Velho” de artigos decorativos que antes tinha sido uma loja de vende tudo) pode encontrar-se esse Clube Vasco da Gama com pintura e pendão do descobridor que inaugurou o caminho marítimo para a Índia sem transferência em qualquer estação e sem cor identificadora da linha – é obra. Ainda que os croquetes já não sejam o que era, Sic transit

(Um destes dias sou capaz de recair; no textículo, no trambolhão nem pensar. Quando me der na bolha…e a maldita perna me deixe em paz. Desculpem-me a insistência sobre a lesão que talvez seja mais grave do que parecia)



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Uns mesitos 
em Goa


Gentamiga

P
artimos (a Raquel e eu) amanhã, sábado, para Goa, de onde contamos voltar a 21 de Abril. Quero agradecer-vos as atenções que me têm dispensado e bem assim a paciência com que me têm aturado.
De qualquer forma vou levar o meu portátil, pelo sim, pelo não. Se houver motivos para isso enviarei uns textos para a nossa Travessa; mas não é uma promessa: é apenas uma intenção…

Qjs & abçs para todas e todos

Henrique