Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

sexta-feira, 17 de abril de 2015

ÁGUA DE COCO

Um condutor/

“secretário”


Antunes Ferreira
P
ara se atravessar o estuário do Mandovi há duas pontes e o ferryboat. Pangim estende-se modorrento ao lado do rio, lembrando, salvo as devidas proporções, Lisboa namorando o Tejo. Na outra banda não é Cacilhas nem Almada, nem está o Cristo Rei. Encontra-se lá Betim ou seja o local em que os ferreis atracam e outras localidades das quais a mais importante é Porvorim. Cresceu num instante quando lá foram construídos os edifícios do Governo e da Assembleia de Goa. Deste lado, a marginal leva a um local bonito com uma esplanada, a Riviera pertença do hotel do mesmo rio: Mandovi. Foi o primeiro com traço mais moderno construído nos tempos dos portugueses.

A
 esplanada é ampla e tem numa segunda zona um espaço para recepções, “pequenos” casamentos ou baptizados, aniversários ou primeiras comunhões, ou seja festas para 400 convidados, mais coisa menos coisa. Convém não esquecer que casamentos e baptizados “normais” andam pelas 1.500/2.000 cabeças. Claro que não é toda a gente que se permite organizar celebrações desta dimensão, católica ou sobretudo hindu. É, naturalmente necessário haver posses para isso. Aliás no Estado há mais recintos preparados para tais eventos. Já estive num em Margão, noutro na quinta Valadares e mais um junto de Mapuçá, que hoje se escreve Mapusa mais tem o mesmo som.


Margão -  Margao


M
ais uma curiosidade se mo permitem: o concanim não tem acentos nem cês cedilhados. Por isso esta solução. Por exemplo a segunda urbe é Margao e continua a ler-se Margão. De resto o som ão não falta: patrão é patrao e acabou-se. O concanim é uma língua das 72 que existem na Índia. Poderia pensar-se que é um crioulo. Nem pó. Incorporou bastantes palavras portuguesas, algumas com naturais corruptelas. E também se usa o inglês quando se trata de números. Por exemplo, no meio de uma frase em Concanim aparece para mencionar o tempo 12 pm. O que quer dizer meia-noite. Na verdade em português diz-se 12 horas em vez de meio-dia…

P
arecendo que não há em Goa muito dinheiro, tem de corrigir-se a ideia: há, principalmente hindus, mas também católicos e uns quantos muçulmanos… Há muitos Mercedes e BMW dos modelos mais recentes e caros, há vivendas de sonho com piscinas e courts de ténis. Há hotéis e resorts de preços altos. Verifica-se aqui o drama que percorre todo o subcontinente indiano; uma diferença abissal entre os muito ricos e os muito pobres, acentuando a bipolaridade: os bilionários e os miseráveis. Corram-se as aldeias e veja-se, da estrada, as condições em que vivem os habitantes de casas a cair de podres.



I
sto quer dizer, uma outra vez, que entrando numa casa de um hindu trabalhador se pode dar conta do que se viu de fora. O nosso condutor/”secretário” para quem sou o seu padrinho de seu nome Premanand Ankush Pednekar que nos conduz impecavelmente e sem quaisquer problemas – Sir paga no fim… - teve um problema cardíaco. Operado de urgência, foram-lhe colocados baipasses pois tinha seis obstruções por coágulos. Obviamente ainda não pode trabalhar. E sabe-se lá quando. Por isso ao chegarmos ninguém dava conta dele, de tal maneira que cheguei a recear o pior. Felizmente foi encontrado: sossegámos. Ele já é da nossa família…



O nosso Premanand


A
pesar da convalescença ter começado cinco ou seis dias antes, naturalmente depois de lhe ter dado alta, quando soube que estávamos em Goa, um cunhado que também é taxista, transportou-o bem como uma irmã dele para nos visitar. E tal era o desejo de o fazer que subiu os três lances da escada que levam ao nosso apartamento. Foi uma cena patética abraçados os três, a Raquel, eu e ele. Enfim, chorámos todos - da emoção. Vinha magro e esquálido com a faixa de cabedal tipo colete pós operação, ligaduras, gazes e etc. Penso que podem imaginar a cena…

P
assei-lhe uma descasca por se ter arriscado e disse-lhe que nunca mais o queria ver a subir tantos degraus. Sorriu, um sorriso amarelo, but Sir, aqui não há mas nem senhor, disse-lhe fingindo-me zangado, mas por dentro o meu coração sangrava. Tinha de o dizer. Sentou-se na nossa sala como sempre o fez. Estava triste mas satisfeito por nos ver e conversámos um pouco; a mulher, que há dois anos conhecíamos, tinha abortado aos cinco meses dum menino. E a filha Babita, um amor de criança, bonita e dada, com dois anitos, não podia estar com o pai porque passava o tempo a tentar sentar-se ao colo dele – o que para já não pode ser porque lhe buliria com os elementos de segurança: colete, ligaduras, pensos et aliud. Ela naturalmente ansiosa da ternura do pai que lhe retribui; adora-a.

A
 irmã tinha ido ao carro buscar dois caixotes de cartão e um saco de viagem que continham todos os nossos pertences (para que quando voltássemos não gastássemos  rupias com compras desnecessárias - versão do Premanand…) que tínhamos deixado para guardar e trouxe tudo tal como havíamos deixado. Mais um engolir na garganta. Foram-se embora levando as prendas que lhes eram destinadas, incluindo a roupinhas de bebé que trazíamos para o filho afinal perdido. Fica para o próximo disse a Raquel um tanto encavacada… (o termo não tem nada que ver com o suposto PR que ocupa o palácio de Belém, sem contrato de arrendamento, por isso sem pagar renda, electricidade, gás e água!) 


Um cão que fazia a sesta...


O
ntem fomos visita-lo a Fattawada – Nerul, onde na House 18 vive acompanhado por duas irmãs pois a esposa tinha ido com a menina para casa dos pais dela. Foi uma festa à nossa chegada. Como tenho andado apoiado numa bengala cedida pelo Zito Menezes - nomeado, para além de médico, nosso anjo da guarda privativo… - uma delas veio esperar-nos à porta do “quintal” afastou um cão que por ali fazia a sesta e ajudou-me gentilmente a descer os degraus de pedra solta que davam para a casa; nesta, outra escada de pedra introduziu-nos na habitação - eu sempre com a ajuda carinhosa da senhora.

P
remanand avisado da nossa chegada aguardava-nos com um sorriso de face a face, estava melhor, ganhara quilos, mas mantinha o colete de cabedal com o qual deveria ficar mais uns tempos, dissera-lhe o médico no hospital na última consulta de controlo da evolução do paciente. Luziam-lhe os olhos, e abraçou-nos comovido mas também orgulhoso da nossa visita. Tive de “ordenar” a paragem da emoção; às vezes é difícil tomar decisões, mas elas têm de vir à luz do dia e tão pronto quanto seja possível. Arriscar a recuperação para nos ver era perigoso e podia ter consequências complicadas.


... sumo de manga


A
li ficámos mais de uma hora; a casa era pouco apresentável, mas a simpatia das pessoas fazia-nos ignora-la; uma das irmãs trouxe-nos dois copos de sumo de manga, umas bolachas e uma ventoinha de pé alto. Quando um pobre nos dá agasalho com calor humano, mesmo que seja pouca a oferta, ela sabe melhor do que um banquete em casa dum rico. O nosso condutor/”secretário” queria voltar a visitar-nos, proibi-o de subir os lances da escada e combinámos que ele esperaria em baixo e depois iríamos almoçar todos. Acordo alcançado, regressámos a casa.

P
elo caminho a Raquel e eu recordámos o jantar de despedida que Premanand e senhora nos tinham oferecido no ano passado. O que, numa sociedade como esta em que as castas continuam a imperar e o elitismo é regra, motivou uns quantos comentários menos elegantes, Um motorista que sempre se sentou à nossa mesa quando saíamos era um tanto, como direi?, desprestigiante para quem permitia e sobretudo convidava; mais a mais um pacló (português branco,,,)

E
stava-me, estou-me e estar-me-ei nas tintas para tais ditos. Para mim os homens são todos iguais, com tonalidades de pele diferentes, com olhos mais ou menos oblíquos, de cores diferentes, com cabelos mais crespos ou mais lisos mas com tudo o resto igual, desde os órgãos internos até às unhas dos pés, avultando o coração e o cérebro os mais importantes e paradoxalmente os mais sensíveis. Digam o que digam os falsos comentadores, enquanto não me provarem o contrário continuarei a pensar que vozes de burro não chegam ao Céu. Dando, obviamente, de barato, que ele existe...   




quarta-feira, 1 de abril de 2015

ÁGUA DE COCO



Religiões de braço dado

 Antunes Ferreira
E
m tempo de Semana Santa volto ao tema Religião, não para enfatizar o catolicismo que por Goa existe – e do qual dei conta noutro artigo deste blogue – mas para apresentar um fenómeno inter-religiões que aqui subsiste. E de que maneira… Para um observador como é o meu caso que uso dizer e escrever que já fui católico, mas curei-me, é interessantíssimo constatar que as práticas religiosas valem o que valem, mas coexistindo têm mais valor acrescentado, para usar linguagem “politicamente correcta” que ninguém sabe exactamente o que é, mas é de bom tom utilizar… 

S. Francisco Xavier - urna


N
o ano de 1980 quando pela primeira vez cheguei à “Pérola do Oriente” decorria a festa de São Francisco Xavier. Uma multidão avassaladora enchia a Velha Cidade onde se encontram diversos templos católicos, num dos quais, a basílica do Bom Jesus, onde num túmulo de prata cravejado de pedras preciosas e de vidro repousa o santo cujo corpo está incorrupto. Tendo morrido na ilha de Sanchoão (China) aí foi sepultado. O corpo foi depois transportado até Malaca, donde saiu para ser colocado no já citado túmulo de prata e vidro. Dizem as más-línguas que a pedraria terá sido roubada e actualmente é falsa. Mas…

O
 facto indesmentível que vi foi uma imensa fila de pessoas aguardando a vez de beijarem a urna com uma paciência verdadeiramente oriental. Católicos, outros cristãos, e hindus a constituíam. Vi com os mus olhos (e também com os meus óculos, que as dioptrias não se compadecem com a diminuição da visão...) Um verdadeiro exemplo da convivência religiosa, religiões de braço dado, pois até sikhs faziam parte dos que se propunham beijar a urna. Uma demonstração de que os crentes não têm raças nem bandeiras, países ou continentes. Sem grande dificuldade recordei Fátima – mas sem corpo incorrupto, agora múmia ressequida e acastanhada.

P
ois bem, passo adiante pois outra prática tem lugar na Semana Santa em Pangim da responsabilidade da Igreja católica. Trata-se das procissões, nomeadamente as da época. A propósito tenho de dizer que o meu Amigo Mário Miranda, o famoso cartunista falecido há dois anos, tem nesta matéria desenhos, muitos, que dão bem a ideia das procissões, naturalmente hábitos que ficaram do tempo dos portugueses. Com características irónicas como era seu timbre deixou para a posteridade registos incontornáveis.

Autor: Mário Miranda



V
amos então entrar pelo tema das procissões pascais na capital. São duas as principais: a do Senhor Morto e a do Senhor com a Cruz às Costas. Delas falarei um pouco mais à frente com os pormenores possíveis: Isto porque tenho de referir já a Procissão das Capas Magnas que decorre na Sé existente na Velha Cidade. É com orgulho aliás justificado que o padre Francisco Mascarenhas (primo da Raquel que exerce o seu múnus  na Austrália e principalmente é dono do apartamento em Colvá onde ficamos à borla…) me refere que esta procissão só se realiza em dois sítios no Mundo: no Vaticano e em Goa. Aceito como boa a informação do sacerdote – e de resto não tenho razões para nela não acreditar.

C
omo já referi por diversas vezes é na Velha Cidade que existe a maior panóplia de templos católicos, o Arco dos Vice-Reis reconstruído e mais exemplos da importância da que foi a primeira capital de Goa nos tempos portugueses. Só que descobriram que não tinha bom abastecimento de água e era muito atreita a doenças o que originou a mudança para Pangim. É um repositório histórico-religioso que não pode, nem deve ser ignorado nas visitas turísticas e outras.

V
olto, agora à capital que viu o seu nome mudado para Panaji, o qual apenas os serviços oficiais respeitam… As duas procissões têm em comum uma originalidade: durante o percurso delas, para além dos altos em capelas e quejandos, também param em dois locais que nada têm a ver com o catolicismo. Um é em frente da casa de um dos homens mais ricos, Caculó; o outro é perante o templo dos ismaelitas que aqui são chamados kojás. Em ambos manda a tradição que sejam feitas ofertas.

S
e fosse preciso dizer – e não é – esta interreliogisidade é marca da forma como em Goa se respeitam católicos e hindus. Pode acontecer – e acontecem – conflitos entre os membros das duas maneiras de estar no Mundo em quase todo o subcontinente que é a Índia. Os órgãos de informação locais e globais dão conhecimento frequentemente deles. Note-se que o hábito não faz o monge, mas é preciso respeitar a maneira local, as normas que a regem e não ultrapassar os limites. Tentações sobretudo da carne são das piores. Dizem...

C
onvém aqui apontar que não sou puritano bem pelo contrário, aliás creio que é do conhecimento geral que assim acontece. Mas, estou a desviar-me das procissões e da convivência entre credos muito diferentes bastando dizer que é monoteísta e o outro politeísta. Raras vezes tenho visto um caso assim, com a ressalva de que os muçulmanos não são para aqui chamados nos dias de hoje, ao contrário do que acontecia no tempo dos portugueses, segundo a Raquel e outros. 

Proibido o fio dental...


M
as em Goa não é assim. Acontecem crimes sexuais, violações, algumas colectivas. Mas há que ter em conta que turistas sobretudo europeias e nórdicas para além do cabelos loiros expõem-se a esses actos criminosos porque sabem bem que não lhes permitido o biquíni  reduzidíssimo, a tanguinha e o fio-dental – e usam-nos. E muito menos e obviamente o monoquíni. E lembro-me da Marylin Monroe: o pecado mora ao lado…





quinta-feira, 26 de março de 2015

ÁGUA DE COCO

Lojas…
“portuguesas” (?)


Antunes Ferreira
Para quem me conhece não me parece necessária
a salvaguarda que deixo aqui: peço o subido obséquio
que não pensem que estas crónicas resultam
de intenções neocoloniais. Nunca fui saudosista
 dos tempos do antigamente;
não seria agora, a caminho dos 74 anos
que isso aconteceria…
P

elas ruas de Pangim, que começo a conhecer mais do que alguns naturais (ia escrevendo indígenas, mas meti travões às quatro rodas, ainda que o fonema signifique isso mesmo, porém por cá pode ser depreciativo…) da terra, vou confirmando o que já descobrira há muitos anos. Mas, para lá chegar, deixem-me que vos conte uma estória que me aconteceu no princípio da semana. Curiosamente tenho de dizer que não contava com ela, mas elas acontecem quando menos se espera. E, assim, têm mais sabor, digo eu.

 
Comida mesmo goesa
T
ínhamos almoçado no George na praça da igreja catedral que já está engalanada pois vêm aí a Semana Santa. O restaurante para mim é o melhor da capital onde se come cozinha goesa genuína, embora noutros também se encontre, mas um tanto adulterada pelos que vindos de outros Estados da Índia emigraram para Goa. Um caril à maneira goesa, um vindalho, um sarapatel, um balchão e outros têm um sabor absolutamente diferente das restantes cozinhas indianas que são muitíssimas


R
etomo a estória. Na primeira esquina do jardim Garcia de Orta, antes de se chegar ao hotel Sri Punjab, que tem um restaurante onde pontifica a comida punjabi de seu nome Aroma (nada tem que ver com a nossa palavra), um casal europeu com sacos de compras, Nikon pendurada do pescoço do homem perguntou-nos em francês que língua falávamos, ao que lhes respondi que falávamos Português, pois éramos de Portugal, mas que, na realidade, a Raquel era goesa.



F
oi um encontro de uns quinze minutos, mas muito interessante. Os franceses Marcel e Pauline Combatt vinham do Estado de Karnataka e tinham descoberto que Goa era muito diferente, pois também tinham andado por Nova Deli, chegado ao Taj Mahal, (visita incontornável na Índia) viajado pelo Punjab, terra dos sikhs e dos Templos Dourado (imperdível) e Khajurhao
Khajurhao até com animais
(visita igualmente indispensável por mor dos templos com figuras eróticas em relevo nas paredes exteriores, mesmo pornográficas, representando actos sexuais que até metem animais). Konark no estado de Orissa também é assim.


M
as Goa era diferente. Porquê? Expliquei-lhes a permanência dos Portugueses ao logo de quase cinco séculos por ali, falei-lhes das igrejas, capelas, catedrais, conventos e cruzeiros. E apontei-lhes a Papelaria J.M. Fernandes, dizendo-lhes que a loja tinha o seu nome em Português, o exemplo mais à mão dessa realidade. Nem pareciam descendentes dos irredutíveis gauleses Astérix e Obélix, pois eram muito simpáticos. Agradeceram-nos as informações e separámos com muitos abraços e beijinhos e combinámos um encontro quando fosse possível… Já os voltei a ver, mas como iam do outro lado da rua, não lhes acenei. Eles não nos tinham visto. Um dia jantaremos em qualquer parte do Mundo – se lá chegar…

Palácio do Idalcão


D
isse à Raquel que pretendia andar um bocadinho, pois fazia 34º mas há tempos que o não “marchava” (longe vai o tempo da tropa) e precisava de começar a desenferrujar as dobradiças. Fomos até ao Idalcão, antiga sede do Governo no tempo dos Portugueses. Estávamos no coração da Pangim velha a caminho do bairro das Fontainhas, e dei por mim em frente do Hotel República, assim mesmo com acento agudo. De supetão surgiu-me a ideia (cada vez mais estou um idiota…) de ir mirando lojas diversas para confirmar o que já sabia: muitas mantinham nomes portugueses.



T
arefa bem simples. Desde o Café Central até ao estabelecimento de tecidos Amaro Rebelo & Sons - antigamente era & Filhos – passando pelo Hotel Fidalgo que quantidade deles subsistia. Alguns exemplos em Pangim: Café Real, Café Nacional, Lembrança (com cê cedilhado) loja de souvenirs, para não falar da Farmácia Salcete (é o nome do distrito da Raquel que ali nasceu, mais precisamente na aldeia Raia, onde a família Melo tinha casa com capela e que é conhecida como capital do catolicismo), Hotel Palácio de Goa, de um mouro (como aqui se chama um muçulmano).

Instrumentos musicais

M
as, não me fico por aqui. A Barbearia Nova fica ali ao virar da esquina, o Hotel Mandovi em frente do estuário do rio do mesmo nome, com uma loja Pastelaria, a Barbearia República também, o Hotel Menino, a firma Pedro Fernandes & Co (Companhia) não podendo esquecer a Confeitaria Italiana a que já me referi no sportinguismo goês, prova de bom gosto futebolístico.  Aliás por toda a mencionada Salcete (com o restaurante Nostalgia perto de Raia) digam-me lá se isto é saudosismo ou neocolonialismo? Não é. São apenas constatações feitas no seu lugar. Aliás Casas há muitas, tal como os chapéus... Por exemplo a Casa Shirodkar, em que o termo português está associado ao nome do proprietário goês. E que dizer da Casa Velho (da família Velho) de artigos diversos de decoração e outros, carotes. Pronto foi um percurso pequeno, mas a capital também não é grande…





quinta-feira, 19 de março de 2015



ÁGUA DE COCO

A sesta das zebras


Antunes Ferreira
N
ão é de agora a constatação; tal como no calino anúncio publicitário, já vem de longe. De princípio tive a sensação de que alguma coisa não batia certo – porque ainda não entendia o que passava no meu cérebro – e, depois, fez-se luz. Se o trânsito era caótico, um cidadão vindo de outras latitudes, apenas tinha dois caminhos a tomar: entendê-lo ou voltar tão rapidamente quanto lhe fosse possível pra o local de origem. Optei pelo primeiro. Fiquei.

O mastodonte motorizado


A
ntes do mais tinha de guardar na massa cinzenta que o trânsito era pelo lado como o inglês, o que na primeira vez que chegara ao Reino Unido me valeu a oportunidade de levar com um autocarro ainda por cima de dois andares. Safei-me por uma unha negra e quando me preparava para invectivar, à boa e vernácula maneira lusitana o motorista do monstro, uma alma caridosa me explicou que lá era preciso olhar para a direita de onde vinha o mastodonte motorizado e só depois atravessar olhando então para a esquerda.

M
as era melhor cumprir as regras e alcançar o outro lado da rua pelas zebras pintadas no pavimento; as zebras eram as passagens dos peões. A experiência que podia ter sido dolorosa levou-me a que nos países com o tráfego à moda inglesa passasse a utiliza-lo. Como bom Português, habituado ao toca-e-foge das ruas, e ao alegre não cumprimento do Código da Estrada, a rigidez dos bifes e correlativos era um exagero. Daí que isso resultasse numa mistura explosiva: o trânsito incongruente e os desastres que originava. Ser Português é ser infractor. Nisso somo especialistas…

De pijama às riscas


A
final o que são as zebras? Aqueles cavalos de pijama às riscas também o são, mas aqui falo das passadeiras que atrás mencionei. Onde os peões se sentem seguros quando as utilizam para passar para o lado de lá. Tem dias, pois há condutores que as ignoram pregando cagaços aos pedestres e por vezes mandando-os para o hospital e até para o cemitério mais próxima da residência dele. Porém, na generalidade, as zebras não se encavalitam. Na especialidade é que reside o busílis da  questão. Não falo de São Bento, apesar da terminologia ser semelhante. No caso presente e no Parlamento há os Passos Perdidos. Oxalá os houvesse, mas com outra finalidade e com muita urgência. Mas, daqui a meses...

Muito desbotadas...


J
á estou daqui a ver os escassos leitores a perguntar a que vem este arrazoado? No escrito fala-se ou não de Goa? Ou  por outro lado o que tem o cu com calças? Tem sim senhor. Tome-se o caso da capital Pangim – é só um exemplo, na especialidade porque na generalidade são outras quinhentas mil rupias – onde há algumas, poucas,  zebras, aliás muito desbotadas. E desde já um conselho: se aqui vierem não passem nelas!

N
o meio de um trânsito mais do que caótico ninguém as respeita, muito pelo contrário são verdadeiros alvos para os condutores dos veículos motorizados, dando até a impressão que não são listadas mas sim concêntricas. Já participei em tráfegos citadinos e rurais e a ideia que continuo a ter é que as zebras de aqui seguem a norma geral: são sucêgadas. Isto porque Goa também o é, o que em devido tempo escrevi sem peias.

P
ara completar o panorama há que dizer que polícias de trânsito (???) e escassos sinaleiros (???) afinam pela mesma medida. Ou seja, assistem, impávidos (e impávidas pois também as há…) e serenos/as aos atropelos das regras (se é que elas existem cá…) quotidianos, diria até permanentes. Por isso repito o aviso se quiser atravessar por exemplo a 18 de Junho (que é a principal rua da capital e que nos tempos dos Portugueses era a 5 de Outubro) treine afincada, prudente e atempadamente os 3.000 metros obstáculos, as fintas, os dribles e os 100 metros.

Atravessar a rua


E
 se chegar são e salvo ao outro lado da rua não se admire: é mais fácil atravessar a correr por entre automóveis, carrinhas, furgões, camionetas, motorizadas, bicicletas e peões despreocupas do que tentar utilizar as zebras desbotadas que são poucas, mas que também são verdadeiras armadilhas. Tudo indica que um cidadão se arrisca mais do que os personagens duma série televisiva muito antiga, O Perigo é a Minha Profissão. Torna-se um verdadeiro alvo como acima se disse, sem contemplações dos condutores de qualquer veiculo motorizado a expelir fumo como um dragão que se preze, sem respeitar o ambiente, mas também sem o Imposto Verde de terminado pela UE. Na verdade, há que concluir e fundadamente que estas zebras fazem a sesta 24 horas por dia...



sexta-feira, 13 de março de 2015

ÁGUA DE COCO



O sportinguismo por cá

Antunes Ferreira
P
erto do mercado de Pangim, nos prédios que o rodeiam há consultórios médicos a dar por um pau. Católicos (que vão diminuindo, acompanhando o se passa com a população cristã) hindus das mais diversas origens, muitos destes sendo goeses, chineses, tibetanos, muçulmanos; anestesistas, ortopedistas, cirurgiões de todas as especialidades, cardiologistas, oftalmologistas, otorrinos. Descobri nestas minhas andanças sanitárias uns quantos esculápios judeus goeses. Por vezes também é possível encontrar magos, curandeiros, adivinhos, endireitas, e muitos mais falcatrueiros que teimam em fingir que são melhores do que os clínicos verdadeiros. E em tentar impingir-nos os seus “beneméritos serviços”

Somos goeses, os "outros" são indianos...


E
m todas as sociedades desde o Norte ao Sul, do Oeste ao Leste podem descobrir-se figurões deste quilate, vi-os na China, na Venezuela, em Cachemira, na Austrália, nos gelos pré polares da Lapónia e do Canadá, enfim, por toda a parte em que tenho posto o pé, ou, melhor no plural. Deixem-me que vos conte uma peculiaridade local. Quando se pergunta a um cidadão mais ou menos tisnado nascido nestas latitudes o que ele é a resposta é imediata sou goês. E perante a “então os outros” de tonalidades de pele iguais, de imediato salta a afirmação: esses são indianosNo mínimo, quer dizer muita coisa.

F
oi num deles que fui encontrar a Dr.ª Flora Miranda que, como já contei, é dermatologista e professora universitária. Depois da consulta o Zito Menezes, a Raquel e eu fomos a uma farmácia para comprar os medicamentos receitados. Estrategicamente situada no rés-do-chão do edifício existe uma. Dois senhores e uma senhora atendem ao balcão os pacientes. O estabelecimento nem parece ser farmacêutico, o balcão de atendimento dá directamente para a rua, aliás prática quase generalizada.

E
xcepção para a Farmácia Salcete, na 18 de Junho (no tempo dos Portugueses 5 de Outubro), a rua principal da capital um tanto à maneira duma Rua Augusta, (onde se encontram as principais lojas, incluindo as de marcas), obviamente muito menor, mas com o trânsito diabólico
Trânsito -um caos
que vigora em Goa – e no resto da Índia. Na minha rua, que já vos disse onde fica, existe outra, modernaça, mas em contrapartida com muitas faltas de mezinhas. Porém com donos simpatiquíssimos, dando logo a entender que são goeses, até nos pedidos de desculpas pelas carências nas prateleiras.

P
orém, já me alonguei demasiado; volte-se então à farmácia já citada no prédio onde abundam os consultórios médicos. Quem nos atende fala um português fluente, obviamente com o sotaque local. O outro farmacêutico e a senhora idem também se expressam na língua de Camões, de Pessoa e de Jorge Amado, ou seja a nossa. Não lhes perguntei os nomes, de tão preocupado que estava; mas, hei-de sabê-los. O Dr. Zito Menezes que os conhece bem aponta o primeiro e diz, sorridente, este é dos nossos. Zito é sportinguista ferrenho, eu sou-o também, mas mais moderado e portanto o farmacêutico também é leão, o que confirma de modo assaz tímido.
 
O famigerado...
E
mbora houvesse quórum não se realizou uma assembleia-geral verde e branca; os dois restantes elementos da farmácia não se pronunciaram sobre a cor clubista e a minha esposa é… lampiona. Lá se compraram os medicamentos e despedimo-nos dos camaradas com saudações leoninas. Se o famigerado Bruno ali estivesse – o que felizmente não acontecia – ficaria de cara à banda ao ver essa manifestação sportinguista pura. Mas, pelo sim pelo não, publicaria no Facebook um comunicado a desmentir a reunião e uma queixa/crime à FIFA e à UEFA.

A Confeitaria Italiana


J
á conhecia há muitos anos a famosa Confeitaria Italiana verdadeira demonstração viva do sportinguismo; na parede ao seu lado está pintado o emblema do Sporting Clube de Goa, igualzinho ao nosso, só que com um G em vez do P. De confeitos, bolos, bolachas tem zero; já de vinhos e outros álcoois de todas as proveniências incluindo Portugal não falta nada. Por “decreto” do Bento Miguel, seu proprietário, ali só se pode falar do verde-e-branco. Ai de quem não o fizer e traga à baila o Porto ou o Benfica. Belenenses são tolerados. A multa não está afixada na porta, mas é melhor ter cuidado. E logo me salta à memória a Maria José Valério com o cabelo pintado de verde: “Viva o Sporting! Quer se possa ou não se possa, a vitória será nossa…”

Não gosto de funerais...


E
ntretanto, no Dragon acontecera a desgraça dos 0-3, seguida por outros desastres, qual deles pior do que o seu o antecessor; um tormento visto e sofrido aqui de Miramar, o Algés de Lisboa, mas mais a dar para o fino. Por essas e outras nem tenho ido à Confeitaria, mas contaram-me depois que parecia um funeral. Não gosto de velórios, círios e coroas de flores e, sobretudo de caixões e gatos-pingados; o último a que irei e muito obrigado será o meu. Nesse, infelizmente, não posso faltar.