Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014


CRÓNICAS DAS MINHAS TECLAS




Antunes Ferreira

A apresentação das Crónicas das minhas teclas no Porto vai acontecer no dia 15 deste mês, pelas 18:00, na Livraria UNICEPE – Cooperativa Livreira dos Estudantes do Porto, que fica situada na Praça de Carlos Alberto, n.º 128 – A.
Livraria UNICEPE

Assim, o José Maria Roumier Ribeirinho em nome da Editora PRELO de que é proprietário e eu próprio damos resposta aos diversos pedidos que nos foram feitos por Amigas e Amigos, comentadoras e comentadores da Cidade Invicta para que assim acontecesse, o que nos pareceu inteiramente justo e justificado.
Na Capital do Norte tenho eu próprio muitas Amigas e Amigos que fazem o favor de comentar amiudadas vezes na nossa Travessa. Teremos assim a possibilidade de contactar com elas e com eles e, tal como aconteceu em Lisboa, conhecer pessoalmente umas e outros. A blogoesfera tem realmente muitíssima força.

Por outro lado dá-se também conhecimento do acontecimento por intermédio do Facebook do autor. De uma ou de outra maneira aqui se deixa um pedido: a PUBLICIDADE está muito difícil; os euros estão muito caros e raros… O ideal seria se alguns de vocês conseguissem que estivessem presentes alguns órgãos da comunicação social (imprensa, rádio e/ou televisão)

Entretanto a vossa colaboração na informação do evento será igualmente muito importante; por isso mais um pedido: DIVULGUEM!, DIVULGUEM!, DIVULGUEM!!!!... Obrigado


Coimbra - talvez

Estamos a estudar, o Ribeirinho e eu, a possibilidade de passar também pela cidade do Mondego e dos meus amores (até lá passámos, a Raquel e eu, a nossa “lua de mel” e fazer lá mais uma apresentação do livro. Se assim acontecer, terei imenso prazer de rever Amigas e Amigos que lá vivem.

Mas não é uma decisão “irrevogável”…, nem eu me chamo Portas (safa!) e não costumo frequentar freiras, digo, feiras. Mal chegarmos a uma conclusão, aqui se dará conta dela, como habitualmente.



Mário Soares – 90 anos


O pai da Democracia portuguesa completou hoje 90 anos. Mal parecia que sendo um fã e amigo do camarada Mário Soares ignorasse aqui na nossa Travessa uma data tão significativa e importante. Daqui lhe envio caríssimo Amigo e admirador um abração de parabéns! E para o ano cá estaremos para ver se este descalabro criminoso a que Portugal chegou pela incapacidade, mentira, sabujice, garotada e submissão mais do que total à senhora Merkel e à famigerada troika do (des)Governo de Coelho & Portas, CA . com asneiras – é finalmente chutado para canto. António Costa, dá-lhes! 




domingo, 30 de novembro de 2014


Uns dias
ausente
Antunes Ferreira
O
utra vez???? Venho informar as Amigas e os Amigos que - depois da trabalheira e da felicidade que senti e continuo a sentir – sigo amanhã para parte incerta acompanhado da minha mulher Raquel. Não posso considerar este afastamento (temporário) como um período de férias, pois conto(amos) regressar na próxima sexta-feira .
Manuel Buiça

A
 FNA…(Famintos Nacionais Agarrados ao Tacho), digo, o INATEL decidiu concorrer com os srs. Santos, Belmiro & Amorim, o que acho(amos) excelente pois a concorrência é a mãe de todas as batal…, digo, do crescimento. Assim, decidiu executar um programa de cinco noites, paga três, por 32 € diários, incluindo o pequeno almoço.  Já que o (des)Governo insiste em recusar, deturpar, alienar, resumindo, fornicar todas as nossas expectativas de uma vida melhor, não nos resta outra alternativa senão procurar um bisneto do Manuel Buiça.

D
a mesma maneira o dito pr (com caixa baixa) que andava a vender “cavalos e mulheres bonitas portuguesas” pelo Médio Oriente, tem-se esforçado por comungar das mesmas más intenções (des)governamentais, dado que são ambos da mesma cor alaranjada. Nunca tivemos um “Supremo e Venerando Chefe do Estado” que conseguisse ser um calhau como é este algarvio manhoso, sonolento, inculto, mentiroso, vingativo e bolorento, o sôr Silva. Atrevo-me a dizer que nem
O almirante
o almirante da outra senhora.

M
á sorte? Mau fado? Nada disso, viva o CANTE ALENTEJANO que acabou de atingir a glória ao ser considerado PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE, vivaaaa!!!!!!! E bem o merece.

R
ememorando: não estarei por aqui durante seis dias, mas depois atacarei com denodo, persistência e firmeza as páginas desta nossa Travessa. Se alguém conseguir adivinhar o local onde nos recolheremos ganhará um... (* ver em baixo) do Crónicas das minhas teclas, que durante a semana que hoje começa estará ao dispor de toda a gente (compradora).

D
ado que entramos em quadra festiva a obra é ideal para prendas de Natal e de Ano Novo, bem como de aniversários delas e deles, baptizados, casamentos, divórcios, primeiras comunhões, e até velórios e funerais. Naturalmente sem distinção de raças, de religiões, de partidos políticos e de eclesiásticos, e ainda de cegos, amblíopes, surdos, mudos  e outros deficientes, menos os membros e as membras do (des)Governo e obviamente do Venerando, mas esse, mental.

U
ma dica para ajudar os hipotéticos concorrentes: o local secreto fica em… Portugal, nem muito acima nem muito abaixo, o que quer dizer que renegou o diktat do (des)Governo, pois  não emigrou. E agora, adeus até ao meu (nosso) regresso. Ou como cantava a Júlia Barroso em 1958:

Júlia Barroso (1958)


Adeus, não afastes
os teus olhos dos meus,
Adeus, até que ao longe a bruma
a pairar os consuma
entre as ondas do mar e os céus.

Adeus, não afastes
Os teus olhos dos meus
Dá-lhes carinhos
Que partem de amor sozinhos
A chorar pelos meus







(* marca-páginas)


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O LANÇAMENTO DO CRÓNICAS DAS MINHAS TECLAS


Foi linda a festa, pá!

José Alex Gandum

F
oi linda a festa, pá! Até se ouviu o matraquear das máquinas de escrever, qual sinfonia de palavras que as sopas de letras transformavam em colunas escritas quantas vezes não com os dedos mas com a alma.


F
oi linda a festa, pá! E eu estive lá para saborear as palavras e os sons, os discursos e as emoções. E viajar à boleia de Crónicas debitadas quantas vezes mais com os sentidos que com as falanges dos dedos. E aquela velha máquina que encravava nem sequer encravou naquele final de tarde chuvoso.
 
O casal Valadares e o meu neto João
F
oi linda a festa, pá! Haverá coisa melhor que estar rodeado de histórias por todos os lados, contadas sem segredos, na tranquilidade de uma edição diária já fechada?

F
oi linda a festa, pá! Parem as rotativas para dar a notícia de última hora: é que foi linda a festa, pá!



ADENDA NOTICIOSA

Tal como estava previsto, o lançamento do Crónicas das minhas teclas decorreu anteontem pelas seis da tarde (mais coisa, menos coisa) no Salão Nobre do Palácio da Independência. O evento decorreu muito bem e posso dizê-lo, pois foram muitos os comentários nesse sentido.

Um único senão, que afinal foram dois, aconteceram, inopinadamente (e esta, hem?), melhor dizendo nem tanto assim. A saber: o desgraçado do velho pulha, portador das chaves
O administrador das águas
nas paragens celestiais e porteiro - a recibos eternos, (mod. 29875 A, das Finanças Paradisíacas , quarta nuvem à esquerda, para quem entra e à direita para quem sai) - do portão das supracitadas paragens, resolveu abrir as compotas, ups, com r, lá do sítio e provocou uma enxurrada quiçá maior do que a que obrigou o Noé a carpinteirar (alto, esse foi o José) a construir a arca. Se tivesse consultado amiudadas vezes a mentirologia, quer-se dizer, a meteorologia, a coisa tão teria tanto impacto aquoso.

Passe-se ao segundo:  Um clube de bairro, Benfica que até tem marcha no Santo António, tinha marchado para a URSS, travestida de Federação Russa (o que não é inteiramente verdade), com a finalidade de ganhar ao clube mais português (entre naturais e outros que por cá passaram). E que havia de dar? Marcar a partida para as cinco da tarde (TMG). Conjugando os dois factores resultou que em vez dos 249 bicos que tinham prometido e garantido irrevogalmente que assistiriam, apenas 123 cumpriram a promessa, o que na opinião de quem trabalha no Palácio não foi nada mau, pois o Salão Nobre acima mencionado encheu-se. 

A sessão decorreu, assim, bastante bem e com foi um verdadeiro prazer e uma honra ter tido a acompanhar-me gente tão extraordinária. Em suma, abriu-a o Editor, José Maria Roumier Ribeirinho (um bom amigo desde os tempos do DN) que em poucas palavras deu a... palavra ao Embaixador Francisco Seixas da Costa, também um grande amigo meu. Com o que disse deixou-me corado de vergonha, tamanhos foram os elogios sobre a obra e o autor. Exagerados ,no meu modesto entender, gentileza dele. Aplausos do público.

Entretanto, quebrando a ordem normal nestas circunstâncias, uma pessoa (cujo nome não vem para aqui chamado) alegando que tinha de despachar-se mais cedo, "você desculpe-me mas tenho um velório ou algo assim" pediu-me um simples dedicatória autografada e datada. Acedi. Não sabiam, porém, que esse singelo sim motivaria uma avalanche:
Fim da bicha/fila
os presentas desorganizam-se em bicha (politicamente correcto fila) e foram avançando para colherem a mesma fruta; uma vindima, enquanto fora felizmente a chuva que não era passageira inundava as zonas adjacentes (politicamente correcto regiões autónomas), Quase gastei a tinta e o aparo da minha Monteblanc. Feitas as contas por alto fiz mais de setenta dedicatórias acompanhadas de outros tantos autógrafos. 

Fechando a parentética sobre as assinaturas, refiro ainda que a finalizar a ocorrência falou o autor ou seja eu. A modéstia, o pudor e até a misoginia que são meu apanágio impedem-me de explicitar o que disse. Mas tenho de frisar que quando comecei a palrar li um iemeile que a minha querida Alice Vieira (ela que estava convinomeada (*)  para fazer o prefácio e a apresentação o que por motivos de saúde  não pôde fazer. É uma missiva linda de viver! (Importámos o brasuquismo (*) linda de morrer, (?) mas dele não gosto; viver é que é lindo). E que um tanto emocionado publico em baixo. Apenas posso referir que recebi sem nenhuma razão uma salva de prata, perdão, de palmas. Mas como havia ainda uns quantos cidadãos e cidadoas(*) voltei ao exercício da escrita nas primeiras páginas do livro. Sem garantir o número creio que foram mais quarenta e muitos picos. Tirando esses os outros assistentes bebiam uns copos: cálices de Porto de hora e flutes de espumante. Afortunadamente, ainda consegui mamar uma... A.F.

(*) Não é gralha nem erro do escriba que adora inventar palavras) 


Da Alice Vieira 

minha ex-(in)subordinada

Chefinho

O homem (neste caso a mulher…) põe, e a chuva dispõe…

Tinha tudo arranjado para estar aí, até tinha combinado ir com a    Margarida Maria, mas desde ontem à tarde que estou com febre, e as minhas várias maleitas não me deixam sair assim, com o tempo como está hoje.

Há dias queixei-me à minha neta Adriana: “sabes, é a primeira vez na  minha vida que me sinto doente!”. Ao que ela, do alto dos seus 18 anos, me respondeu: “Pois, mas também tens de pensar que é a primeira vez na tua vida que tens esta idade”…
Ora nem mais.
A "culpada" desta mensagem

Não estou aí mas é como se estivesse. Tu foste e serás sempre o meu “chefinho”, companheiro de grandes momentos e de outros nem por isso, mas de tudo se faz a vida de um jornalista… E acredita que os meus anos no “Diário de Notícias” foram dos melhores anos da minha vida. E, de qualquer forma, tu também contribuíste para isso.

E pronto, deves estar rodeado de amigos, e isso é que importa.
Tenho muita pena de não estar aí, como já disse – sobretudo porque se calhar ainda éramos capazes de nos aventurar a embarcar naquele coro magnífico com que tantas vezes alegrámos a nossa redacção :
    “De Sagres ,do Restelo
      partiram caravelas
      levando a cruz de Cristo
      esmaltada em suas velas…..”
com o olhar sério do Chefe Pires a pensar que éramos malucos.
E éramos.
Felizmente.
Um beijo
Alice







terça-feira, 25 de novembro de 2014

Amanhã éké

E prontos (sem s) amanhã é o dia D! Estou preparadíssimo para o lançamento do martel…, ups, Crónicas das minhas teclas.
Tenho a certeza de que todas Amigas e todos os Amigos vão estar lá para me acompanhar em momento de tanta felicidade para mim e penso que também para vocês.


E agora vou trabalhar


Caté 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014




Nova informação

INFORMO QUE, TAL COMO FOI ANUNCIADO, DEIXO AQUI DUAS ALÍNEAS:
1)   Relembrar a data e o local do lançamento: Dia 26, quarta-feira, pelas 18:00 – seis da tarde - no Palácio da Independência, no Largo de São Domingos. O palácio tem a frontaria virada para o Rossio.


2)  Num verdadeiro rasgo de genialid… ups, generosidade, o autor modestamente, como é seu apanágio, permite-se juntar ao Porto de Honra, (iniciativa do Editor), uma taça de espumante, num rigoroso e exclusivo envio directo do produtor para o supra citado autor (via supermercado cujo nome não indico por mor da lei da Publicidade) No entanto, permite-se o autor chamar a atenção para
a)  Se conduzir não beba e vice-versa;
b)  No caso de beber, faça-o comedidamente, pois embora o espumante seja suficiente, às vezes (lagarto, lagarto, lagarto) poderá desaparecer enquanto o diabo esfrega um olho.
Com os melhores compriment…, ups, cumprimentos

O autor 


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

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GENTAMIGA


Já saiu o Crónicas das minhas teclas e até já tenho o primeiro exemplar. Estou feliz; depois da trabalheira e confusões,  o parto foi sem dor…

AF

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terça-feira, 18 de novembro de 2014

 DO QUOTIDIANO


Ai Manel

Antunes Ferreira
S
entou-se na beira da cama e no escuro para não acordar as companheiras do lar tacteou com os pés tentando encontrar as chinelas. Encontradas, enfiou-as e, firmando-se bem (não tinha à mão a bengala que estava aos pés do leito) levantou-se tenta-não-tenta e arrastando-as em silêncio foi apanhar o bastão sem o qual já não passava. Não precisou de mirar o relógio-despertador comprado numa loja chinesa: eram quatro e meia, hora em que sempre, mas sempre, ia à casa de banho para urinar.

E
nquanto ia ensaiando os passos numa coreografia do negrume, agradeceu aos céus porque finalmente se libertara da algália e da arrastadeira e do trambolho onde estava pendurado o saco do soro que ela tinha usado qual cordão umbilical ao reverso. Estava cansada de tamanha guerra, de tantas batalhas, de tantas seringas, de tantos bisturis. A operação, segundo-lhe dissera  o médico tinha corrido bem e daí a três dias voltaria para casa.

C
asa? Há um ror de tempo que não a tinha, chegada aos oitentas a filha mais nova fora encurrala-la no lar de Santa Filomena, internada com pensão completa, quarto só para uma senhora, casa de banho anexa, janela para a rua, “fica bem instalada, não se preocupe, nós cuidamos dela com todo o carinho e atenção que baste. O nosso médico vem cá uma vez por semana, mas se houver urgência não há problema, ele dorme cá”.
 
E até os netos virão visitá-la
G
ina agradecera à directora que assim lhe dissera, dera-lhe um beijo, “minha mãe esteja descansada, eu ou o Jorge e até os seu netos vimos visita-la e vai passar os fins-de-semana a nossa casa”. A filha dera-lhe dois beijos, um em cada face e o genro também lhe dera um, “fique bem, esteja sossegada, está entregue em boas mãos e aqui tem com quem conversar, o lar é excelente e…” “E a minha casa?” Gina elucidara-a que os irmãos tinham-se reunido e decidido vende-la, restava muito velha tinham arranjado um comprador que lhes oferecer um preço jeitoso. E só faltava irem ao notário. Virgínia não comentara. A filha também assim se chamava mas era conhecida por Gina.

Q
uando era uma jovem bonita – o espelho dizia-lho quando a reflectia – o seu falecido Manuel (para ela Manel) chamava-lhe Guidinha. Há quanto tempo isso acontecera, embora o fizesse todos os dias? Vai para muitos anos acompanhara-o ao cemitério dos Prazeres, no meio da sua tristeza quase se rira com o nome dos Prazeres… Um cemitério com tal nome lembrava-lhe o Palácio das Necessidades onde estavam os Negócios Estrangeiros…Outros tempos, outas modas, outros nomes.

E
ntrada na casa de banho, acendeu a luz e sentou-se na sanita para incapacitados
Para incapacitados...
– tinha piada os espanhóis chamavam-lhe “taza” – e procurou a revista que estava no bidé, sabia que demorava a descarregar a bexiga que estava como ela gasta de tanto uso. Os netos diziam “fora do prazo de validade”, também ela se encontrava nesse grupo, não era como os remédios que tomava ao longo do dia. Comprimidos, injecções, xaropes e cápsulas de todas as cores e feitios. Vida mais do que madrasta. Não enganava ninguém a desgraçada, com o esqueleto da morte pousado no seu ombro empunhando a foice para o final de cena. Era triste ser velha
.

H
á uns bons anos, quando começara a aparecer-lhe a artrite e a osteoporose, pedira ao neto mais novo, o Chiquinho, para lhe apanhar os óculos porque ela não o conseguia fazer, estava velhota. E o miúdo respondera-lhe “a avó não é velhota, é idosa…” Mas, não trouxera os óculos de ver ao perto. Por isso levantou-se e foi chinelando ao quarto onde na mesinha de cabeceira eles se encontravam. Sentou-se um bocadinho na beira da cama para descansar; ultimamente dava-lhe uma moleza, um cansaço, nem conseguia explicar o que sentia quando o Dr. Bentes a visitava.

D
epois regressou aos “servicios” como diziam os nuestros hermanos. Estranho, para o que lhe havia de dar? Pela calada da noite sentada na retrete fazia reviver coisas armazenadas na cabeça. Por vezes há recordações que não se justificavam, nem sequer em momentos estranhos. E, pairando como uma nuvem por cima da memória dava com ela própria, o Manel e a Gina na plaza de Conquistadores
Em Badajoz
passeando e “mirando las tiendas en busca de escaparates”, as coisas eram mais baratas a peseta estava a cinco tostões era a sequela da Guerra Civil, para além das casas ainda esburacadas, igrejas truncadas, palácios amputados da sua anterior grandeza imperial com uns brasões descarnados.

T
inham ido muitas  vezes a Espanha – España rezavam as placas na fronteira – para comprar caramelos e mais umas coisitas. Na raia os guarditas calçados com sapatilhas de sola de corda. pediam cigarrillos aos portugueses. Partiam um cigarro português em quatro partes e enrolavam-nas em papel de jornal, Com um maço de “Três Vintes” ou de “High Life” ninguém se preocupava com algum, pequeno, contrabando, se é que se lhe podia chamar assim. A miséria era tamanha no país vizinho que tudo ajudava, nem que fosse “cualquier cosa” para dar umas fumaças. Não era corrupção, era sim a  sobrevivência de uma gente sem esperança, sem dinheiro, sem comida, sem casa, sem vestuário, sem nada.

E
ra uma verdadeira aventura ir a Badajoz a cidade onde decorrera a horrível matança perpetrado pelos mouros de Franco, na plaza de toros. O Austin do pai Manel muito bem se safava, um tanto aos solavancos, as estradas eram más, ia ultrapassando Montemor, Arraiolos e por aí fora até Elvas onde paravam para a Gina fazer xixi e beber água de Carvalhelhos de que o pater família usava e abusava. Depois era a fronteira, uma estrada muito estreita para que, segundo o Salazar, os espanhóis tivessem dificuldade em entrar em Portugal; nunca fiando…Para a comidinha era Badajoz com unas tortillas, unas tapas e una paella sin casi
Una paella
nada
; nesses tempos conturbados ainda havia muita fome em Espanha portanto salpicón de marisco ou pimientos de piquillo rellenos, riñones al Jerez nem valia perguntar se havia. Callos sim, mas ela não gostava muito de dobrada.

D
ormiam no hostal Segovia, era barato (não sendo ricos também não eram pobres, uma classe média abonada) e mais ou menos limpo e a Doña Esperanza já os conhecia: “¡Hola!  Otra vez por aquí, me gusta veros y saber que pasan bien. La salud es lo más importante, decía mi Eulálio. La chica se cuidaba cada vez más. ¿Cuando regresan a Portugal? ¿Han hecho muchas compras? ¿Cómo no? Seguro que las hicimos e bla, bla, bla. Quando havia tempo, o Manel ia à tourada, hoy torean Manolete y Luis Miguel Dominguin, diziam os cartazes e o pai corroborava, só faltava o Manuel dos Santos que os levava a Espanha, corriam-na na sua peugada que nem galgos atrás duma lebre.

M
as estava mesmo muito cansada. E farta de recordações. E cheia do lar até à ponta dos cabelos. Cabelos brancos e esmaecidos, que tinham sido negros como asa de corvo, escovados a preceito, franja, “pareces a Beatriz Costa”, “ó homem deixa-te de balelas” e o dueto terminava já dentro do quarto, “cuidado que a Gina pode estar acordada…” num jogo de pernas, de braços e do resto, em beijos lascivos e provocantes, a língua dele percorrendo-lhe os mamilos intumescidos “ai amor que me matas…” baixando suavemente para o ninho que tinha entre pernas e os lábios dela

Ai  amor que me matas...

abertos para o engolir, até que ele a penetrava e ela gemia “ai Manel que bommmmm…” A Gina dormia no quarto ao lado sem se dar conta da peleja amorosa. E, de seguida,  voltar a vestir a camisa de noite e ele o pijama com linhas aos quadrados.

N
ão conseguia urinar e não sabia porquê. Mas a moleza persistia, talvez fosse do frio, estava mesmo muito frio, estava gelado na casa de banho. Encostou-se para trás ao autoclismo e segurou com mão trémula o cordão, que logo se soltou. O frio ia aumentando, devia ter ficado na cama, mas agora parecia-lhe que era tarde. Tarde e escuro. O roupão desfraldava como se fosse uma bandeira, mas ela só sentia o gelo que se acumulava à volta dela e da sanita. E era apenas o começo de uma longa viagem, por entre brumas e ondas encapeladas, a caminho da terra do não sei onde. “Ai Manel…”

D

e manhã, a Branca, a preta angolana empregada da limpeza, aiué, o calorífico estava no máximo, uma sauna, dera com ela já rígida, sentada na retrete e encostada ao autoclismo.