Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA (2.ª parte)




Antunes Ferreira
M
as, não me fui deitar, não senhor, pois o Almerindo Jaka Jamba agarrou-me por um braço e inquiriu-me: já conheces o jango? Ao que respondi que não senhor, não conhecia. Mas que porra é essa? Já vais ver. E dirigimo-nos para uma cubata grande e circular onde entrámos. No centro dela ardia uma fogueira cujo fumo saía por uma “chaminé” aberta logo por cima no telhado de colmo. Acompanhando as paredes havia um banco corrido que circundava todo o recinto.

A
lmerindo foi sentar-se e eu tomei lugar ao lado dele. No banco havia mais militares que conversavam em voz baixa. Esta é a nossa sala de retiro, meditação e troca de opiniões; como vês é comunitária e muitas decisões sobre temas da guerra são aqui discutidas, analisadas, ponderadas, para depois ser tomadas. A ideia parece-me boa, anui. E é, podes crer. A nossa conversa versou porém sobre o futebol. Ele era benfiquista e eu sporingé (como em Angola se dizia…). O assunto prolongou-se e no fim fui-me deitar eram quase três horas da matina.


N
a manhã, ou seja, horas depois, meio acordado, maio adormecido, tentando esconder os bocejos, tomei o pequeno-almoço com o engenheiro Elias Salupeto
Savimbi morto (2002)

Pena e um coronel Eduardo Sapalo Kalundula. Conversámos bastante sobre o futuro de Angola que no entender deles teria de passar forçosamente por Savimbi a quem tratavam por Presidente. Mal sabia eu – e eles – que, tempos depois, ambos estariam mortos no grande massacre de Outubro de 1992 que, para a UNITA, resultaria em mais de cinquenta mil mortos. E Savimbi também seria abatido, já em 2002 em circunstâncias enigmáticas. Teria havido uma traição? O certo é que a UNITA estava muito debilitada. Em 1998 a UNITA cometeria um erro gravíssimo, quando o general Altino Sapalalo Bock atacara o Kuito, e sofreria uma enorme derrota. A partir daí a guerra era difícil por falta de homens, de armas e de munições. Mas, volto à permanência na Jamba.

A
 propósito, transcrevo um texto do jornalista e analista político de temas angolanos Orlando Castro: “(…)nessa altura, o MPLA tentou neutralizar todos os que pensavam de maneira diferente do regime”. E, mais à frente, escreveu ainda Orlando de Castro: “Foi uma tentativa de decapitar a UNITA. Tanto que fala-se em milhares de mortos, eventualmente até em cerca de 50 mil. É certo que também o próprio vice-presidente da UNITA, Jeremias Chitunda, tal como Mango Alicerces [secretário-geral da UNITA] e Elias Salupeto Pena [sobrinho do líder do partido, Jonas Savimbi] foram mortos nesse massacre", conta Orlando Castro. "Na história do MPLA, os massacres, ou as purgas, ou o que se lhe quiser chamar, são uma regra estratégica do regime, mesmo até para os próprios simpatizantes do MPLA.”

N
ão me quero pronunciar sobre o que terá acontecido, pois durante a visita à Jamba nada fazia pressupor a ocorrência de tal mortandade.  Mas a ter sido assim deveria ser apelidado de genocídio. No entretanto, retomo o que passou na visita a que já me referi e da qual contei antes algumas minudências. Carlos Fontoura que se tornou um bom amigo, dirigia o grupo, mas eu que me atrasara com a conversa durante o mata-bicho, fui acompanhado por Salupeto Pena.
 
Costurar vestuário civil
C
omeçámos pela “oficina de fardamento”, onde um numeroso feminino trabalhava em máquinas de costura – algumas, poucas, eléctricas -  na produção de fardamentos para a tropa. Era um enorme barracão, ou melhor uma enorme cubata e no entender de Salupeto, os resultados eram muito bons. Perguntei-lhe se os militares pagavam por cada um e fiquei a saber que na Jamba não corria qualquer moeda. Era uma economia de troca.


U
topia pensei, mas não comentei. Cada um procedia como lhe mandavam e só tinha que cumprir bem a sua missão. Uma equipa à parte costurava vestuário civil para os habitantes. Thomas Morus ficaria, por certo extasiado perante um tal espectáculo. A escola também foi objecto do nosso périplo e aí reencontrámos o nosso grupo para visitarmos o hospital.

E
ste funcionava em três cubatas, dotadas da maior higiene e até tinha sala de operações e radiologia. Carlos Morgado, como seu sotaque angolano carregado explicou-nos como o serviço de saúde funcionava; contava com mais cinco médicos formados na África do Sul, na Argélia e em
Carlos Morgado
Portugal que se revezavam nos serviços sem grande apego às espacialidades, como víamos eram poucos; de igual modo poucos também eram as enfermeiras e enfermeiros.  Mas faziam o que melhor podiam fazer.

H
avia uma proposta para irmos à serração, bastante afastada da “capital”  por picadas um tanto incómodas. Mas quando Norberto me elucidou que era lá que se preparava todo o madeirame de que a Jamba necessitava para a construção de novos edifícios ou ampliação de outros já existentes e reparação de mais alguns  – e como já me tinha habituado a tais pavimentos na minha época fardada… decidi ir. Não sei se o Crespo nos acompanhou porque fomos em dois jipes, mas seguimos.

E
ra uma antiga serração de madeiras que vinha da época colonial e lá trabalhavam diversos homens com protecção militar. Foi ali que inquiri o Norberto o porquê dos tectos de colmo quando, por exemplo, a minha cubata tinha-os reforçado por dentro por tijoleira de cimento. Seria pela chuva? E o mulato respondeu que também, mas que os telhados de colmo eram uma boa camuflagem, pois num ataque da aviação inimiga era difícil distingui-los da mata em redor. Nas cercanias não se ouvia um tiro que fosse. E regressámos à “capital” depois de ter distribuído mais uns maços de Gitanes sem filtro. Fiz as minhas contas de cabeça: estavam a acabar. Talvez uns Hermínios viessem a resolver  a carência que se aproximava… Também era tabaco preto e de origem angolana.

V
oltámos. Por via do tempo manhoso a picada, revolvida entretanto pelos camiões carregados de troncos na ida e de madeira já aparelhada na volta, estava transformada num depósito de areia que originava um nevoeiro de nem queiram saber. Passámos ainda por uma capela católica pois ainda que Savimbi dissesse que era anglicano não se esquecera dos padres missionários que tinham sido os seus primeiros professores. A versão era do Norberto que se dizia católico não praticante. Opção dele.


O banho dos elefantes

E
, de repente, parámos. Não muito longe estava “estacionada” uma manada de elefantes que se banhavam ruidosamente num enorme charco barrento. Aí, o condutor que entrara mudo e saíra calado, tomou a palavra, elis tão no banho pra mulhari a peli po causa da sol. Se não se mete na áuga, os bicho podi morer porque não pdi respirar. Elis respira pelo pele pelo boca e pela nariz comprida, tromba. E o Norberto, completou, pressuroso, como vês estão absolutamente livres e sãos.
, .

D
izem que por estes lados, continuou o mulato, nós caçamos elefantes para lhes tirar os dentes e depois vender o marfim por bom preço. E também consta que juntamente com os diamantes são a forma de pagarmos o auxílio exterior. Mas podes vê-los à solta, tomando o seu banho de beleza para ficar mais giros e engatar mais fêmeas. No bando podia ver-se elefantinhos, crias agarrados às respectivas mães, com a tromba enrolada no cauda da progenitora.
 
O boato é crime...
A
gora, se o quiseres fazer, já podes dizer que viste elefantes vivos e combater essa ideia peregrina de que aqui se caçam elefantes e os que há continuam com as presas de boa saúde. Respondi-lhe porém, que me tinham garantido que os caçavam permanentemente e que aqueles que eram visíveis estavam num cercado e apenas era soltos para visitante ver; Norberto fez um leve sorriso, coscuvilhices há em toda a parte e boataria também. Não te esqueças dos cartazes que durante a guerra colonial  foram colados nas paredes de Lisboa, de Luanda e por Angola fora: Boato é crime e fere como uma lâmina

A
o chegarmos já passava da hora de almoço, ou mais precisamente a “minha” gente já tinha comido. O Norberto pôs um ar sério e antes de eu ir tomar um grande duche pois estava cagado da poeira, disse que pelas quatro/cinco horas da tarde, Jonas Malheiro Savimbi iria receber-me e dar-me a prometida entrevista. Era o dia de aniversário dele e para a noite estava programada uma farra que poria toda a gente a dançar.

E
nfim, às quatro e meia, Norberto de Castro levou-me ao bunker do “presidente”. À entrada havia duas autometralhadoras sul-africanas montando guarda. Pude reconhecer, dentro dos veículos militares, gente branca quiçá da mesma origem. O “buraco” ficava a cerca de três metros de profundidade. À nossa espera estava o Almerindo Jaka Jamba que me cumprimentou com um ar grave de quem nunca se conheceu e vai apresentar uma personalidade. E segredou-me à orelha, não faças muito barulho pois “ele” acordou mal disposto.
 
No bunker de Savimbi
E
ntrámos na sala de visitas e Jonas Savimbi veio ao meu encontro, sorridente, e apertou-me a mão, um aperto forte de um homem grande. Sentámo-nos, o Norberto também, em maples amplos e macios. E começámos a conversar, apenas os dois, o o mestiço apenas fazia presença. Perguntei-lhe se podia gravar ao que acedeu, pode, claro que pode, aqui não vai haver segredos. E se eu não quiser responder a alguma das suas perguntas, peço-lhe para parar um minuto a gravação. Concordei.

D
urante mais de uma hora focámos os assuntos mais diversos como a sua decisão, renegando os acordos de Bicesse onde assinara o compromisso da paz, de continuar a guerra; não fui eu quem a recomeçou, foi o Neto, eu tinha de responder olho por olho, dente por dente… E a propósito, falava-se muito dos elefantes “falsos”... Sabia, sabia das mentiras que eram propaladas e repetidas tantas vezes que às vezes se transformavam em verdades ficcionadas.

F
alei-lhe sobre a eliminação física de colaboradores dele, alguns mesmo os mais chegados. Espere, deslig…, não desligue nada, às vezes havia situações em que era preciso ter mão de ferro… E as pessoas sabiam o que lhe podia acontecer. Então, não há oposição interna? Claro que há, discute-se, mas no fim tem de prevalecer o interesse do movimento. E eu, antes de me despedir: diz que é um democrata, mas o maoismo ainda conta para si? Sou anticomunista e basta.E digo-lhe: ou venço ou morro de arma nas mãos!.. Premonitório... À noite vamos encontrar-nos na farra. Vai ter lugar no palco, ao pé de mim,,,

Carlos Fontoura, Savimbi,
Norberto de Castro e o autor


E
 foi realmente assim, uma enorme farra com gente da Jamba, dançando e pulando freneticamente, depois de ter ouvido o “presidente” que falou em umbundu, que o Carlos Fontoura, também no estrado, ia traduzindo para mim e disse, em resumo, que era preciso defender a nossa terra Angola dos bandidos comunistas do MPLA. Aplaudidíssimo, acabou por dizer que essa noite era de aniversário e não de política. Mal ele sabia que uns bons treze depois cumpria-se o seu vaticínio…

Q
uando a Nelly entrou pelas coladeiras foi o fim da picada. Pelas cinco horas da matina já rompera o sol fui dormir umas coisas. Fui acordado pelo Kwando Manuel que entrara sorrateiramente para me pedir patrão esqueces se faz favor o que eu li contou antes. Esquece, podi acontecer mal no meu famíla e até em eu. Que ficasse sossegado. E dei-lhe os cigarros franceses que me restavam. E dois maços de Hermínios que ainda tinha por encetar. E uma esferográfica daquelas de quatro cores. E um isqueiro bic. E uns óculos escuros Ray Ban. Ficou sossegado e saiu de mansinho, tal como entrara.

o Dakota vinha cheio


N
a viagem de volta o Dakota vinha cheio que nem uma lata de sardinhas sem pele e sem espinhas. Além dos passageiros que éramos nós – alguns pegaram no sono mesmo com o barulho dos dois motores Pratt & Whitney… - havia carga um tanto estranha: eram sacos e sacos de serapilheira cheiíssimos. Curioso, de alguns saíam pequenas pontas cor de marfim; mas na Jamba não se caçavam elefantes.






domingo, 12 de Outubro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA



Jamba:
"capital"
do Galo

Negro

Antunes Ferreira
F
oi o Norberto de Castro, um mulato castiço, que era jornalista e radialista (mas que infelizmente já faleceu em 2004, de acordo com a informação do Orlando Castro, a quem agradeço) em Luanda e que trabalhou na “PALAVRA” jornal semanário de que fui director-adjunto, que me convidou em Lisboa para ir à Jamba falar com o Savimbi. Respondera-lhe que sim mas que da conversa resultaria uma entrevista. Ele concordou e disse-me que ia tratar do assunto – viagens, instalação, refeições, etc. e que faria parte de um grupo de convidados.

D
ele faziam parte a Isabel Soares, o Torres Couto e esposa, a Margarida Patrício Gouveia (viúva do meu Amigo António Patrício Gouveia que morreu no desastre de Camarate), o jornalista Mário Crespo (então na RTP), uma jovem cantora cabo-verdiana no início da carreira Nely Andrade (avó da actual Mayra Andrade), Norberto de Castro e eu, grupo heterogéneo mas bem-disposto e com vontade de aprender coisas sobre o quartel-general e “capital” da UNITA.

O Estado-Maior da UNITA

A
 UNIÃO NACIONAL para a INDEPENDÊNCIA TOTAL de ANGOLA era um movimento político (que depois viria a ser partido) anti comunista – dizia Savimbi – que por isso combatia o MPLA, movimento que era considerado leninista-marxista. Mas Savimbi também o fora e até chegara a ser maoísta. Apesar de se terem encontrado por várias vezes, Jonas Malheiro Savimbi e Agostinho Neto e depois da morte deste, José Eduardo dos Santos eram inimigos na ideologia e pessoais.

N
o aeroporto de Lisboa apanhámos um Jumbo da South African Airlines que nos levou a Joanesburgo, onde ficámos instalados num bom hotel e ali também se verificou a primeira estranheza da viagem. O jantar era bifes de crocodilo, ao tempo manjar desconhecido para nós; a malta recusou-o, mas eu avancei nos steaks do sáurio. Que eram realmente bons. Explicou-me o criado (era assim que se dizia) de mesa que eram da cauda do animal, zona mais tenra e saborosa. Obviamente não traziam a pele dura e rugosa herdeira dos dinossauros.

M
anhã do dia seguinte: ir, cuidadosamente, a fim de não dar nas vistas, para um aeroporto militar (pelo menos pareceu-me) onde embarcámos num DC 3, o velho Dakota da II Guerra Mundial, onde além de nós seguia um senhor branco com barba, que se apresentou: Carlos Fontoura, militante da UNITA. Mais tarde dir-me-iam que era dos poucos brancos do Movimento. Além dele havia o Rui Oliveira, a Fátima Roque, o Joffre Justino e Carlos Morgado, o médico pessoal de Savimbi. Além disso a aeronave transportava caixotes com armas e munições, comida enlatada e outras vitualhas tudo de origem sul-africana, de acordo com os rótulos.
"Aeroporto" da Jamba

A
terrámos na pista de macadame do Aeroporto Internacional da Jamba Cmdt Kazumbela, denominação que estava afixada na cubata que servia de terminal. O que me despertou a atenção e por isso indiquei aos companheiros que estava escrito em três línguas: Português, Inglês e Africânder. Já tinham reparado mas não tinham feito comentários. E esperava-me uma surpresa.

F
ardado de camuflado e com uma boina vermelha estava à nossa espera o comandante Jaka Jamba; caímos nos braços um do outro, era o Almerindo, oito anos mais novo do que eu, mas que fora meu bom amigo em Lisboa. Licenciado em Histórico-Filosóficas antevia-se-lhe uma promissora carreira universitária, mas decidira dar aulas de Filosofia no novo Liceu de Oeiras, onde era muito considerado por alunos e professores.

U
m dia faltou às aulas, o que acontecia pela primeira vez; estranho, não tinha avisado, talvez estivesse doente: Mas, não estava. Estava a aproximar-se o tempo do serviço militar e  quiçá seria mobilizado; resolvera antecipar-se. Largou tudo o que possuía, pegou numa maleta de viagem e depois de chegar a Luanda ainda participou numas manifestações encapotadas e seguiu para a Jamba. Como? Nunca mo explicaria.

A
presentou-nos o brigadeiro N’zau Puna, de Cabinda, exemplo de que a UNITA não tinha só gente do sul. Qual foi o espanto do grupo perante um novo amplexo. Miguel N’zau Puna tinha sido alfandegário e trabalhar sob o director Carlos Alcântara de Melo, meu sogro. Como eu ia por vezes ao edifício onde funcionava a sede dos serviços, ali nos conhecemos. Umas garoupinhas grelhadas com muito gindungo (piripiri), acompanhadas de uns finos da Nocal (uma das cervejas locais) levou-vos à amizade. Vinha reencontra-lo ali na Jamba.Que ficava nas Terras do Fim do Mundo

Sem legenda...


O
 grupo entrou em quatro jipes que o levou à “cidade capital” à entrada da qual havia um letreiro em cimento pintado de branco SEJAM BEM VINDO À  JAMBA e por baixo WELL COME TO JAMBA. Quando as viaturas pararam em frente de uma cubata grande que, depois vim a saber que era a sede do Governo, recebeu-nos o vice-presidente do Governo, engenheiro Jeremias Chitunda, um preto de cara redonda e barba, sempre sorridente, que eu conhecera em Coimbra, aquando do Luto Académico, pois ali me deslocara acompanhando o Jorge Sampaio, presidente da RIA (Reunião Intra Associações). Outro abraço para a colecção.

J
eremias Chitunda ofereceu-me um boné verde com um emblema da UNITA. O Norberto não se conteve e apesar das senhoras a quem depois pediu desculpa, soltou uma exclamação na sua voz de locutor:
Um boné verde
“Foda-se tu vieste de Luanda e já conheces toda a gente do movimento!” Respondi-lhe; menos o Jonas Savimbi. Chitunda, agarrou-me num braço e comentou que chegaria o tempo para tal acontecer.

F
icámos alojados numas cubatas simpáticas e acolhedoras com mobiliário militar, sanitários e com água canalizada (torneiras e duche). Na Jamba, de noite, fazia muito frio, mas não havia esquentadores, por isso pela manhã lavava a cara e escovava os dentes para depois pela uma da tarde, aliás como toda a gente do grupo, depois do sol aquecer os depósitos que havia nos tectos, tomava o meu duche com o OH2 mais morno.

C
om apenas uma excepção: o Mário Crespo duchava-se logo de manhã cedo. Os eus gritos à Tarzan ficaram conhecidos em toda a “cidade”. Cada maluco com a sua mania, e o tipo nunca fora muito agarrado à cachimónia. Após um mata-bicho com pão, manteiga, leite em pó, café solúvel e marmelada (tudo sul-africano) começámos a visita. Fomos logo ao “teatro” ouvir a orquestra local que em honra dos convidados tocou o hino português, um tanto desafinado, mas bem-intencionado…

R
epetiu-se a cena calina: o maestro era o André Gira Carruagem (não se admirem
Sem legenda
era mesmo assim…), corneteiro na CCS/QJ – RMA (Companhia de Comando e Serviços do Quartel-general da Região Militar de Angola) onde eu era o oficial agente da Polícia Judiciária Militar, intervalado por colunas à mata. O chefe da banda, depois de me fazer a continência (?...) avançou para mim, bateu os calcanhares e pôs-se em sentido. Respondi-lhe “à vontade” e dei-lhe um bacalhau, ao qual ele correspondeu com um sorriso de orelha a orelha.

O
 grupo que já me olhava de soslaio, acertou na conclusão: eu era militante da UNITA!... Mas a Margarida Patrício Gouveia que me conhecia bem, alertou a malta: ele não é nada disso, até é da Oposição ao Marcelo Caetano, garanto-vos. Os cenhos carregados distenderam-se: afinal eu era o gajo porreiro que parecia, sempre a contar anedotas e a originar gargalhadas. Porém o Crespo parecia estar duvidoso, por isso o mandei à merda. Tudo ficou resolvido.

N
essa noite, munido de uma conveniente manta, fui até à beira do rio Jamba que ali passava. Sentei-me junto de uma sentinela que não parecia muito interessada na vigilância. Aliás para se chegar à “cidade” de cubatas era tão difícil que dispensava o “quem vem lá?” Ofereci-lhe um cigarro (na altura eu fumava como uma chaminé) e os olhos luziram-lhe enquanto o aceitava. Dei-lhe lume com o meu isqueiro Dupond, que o meu pai me oferecera em Sevilha no dia em que dera autorização para eu fumar na sua presença. 

A
 noite estava muito calma e não fora o frio até ali passaria uns momentos de descontracção. O tropa chamava-se Kwango Manuel era ovimbundo e começámos a conversar. O patrão pareces bom pessoa li vou contar coisa que não pode dizer noutros homem. E começou a relatar os assassinatos dos oficiais que não concordavam com Savimbi, de mulheres (que foram quatro) e mesmo de algumas das várias que tivera de amantes. Os resultados de tanta actividade sexual eram os seus 26 filhos. E de repente levantou-se, pois vinha um sargento passar a ronda. Depois eu fala. Dei-lhe o maço de Gitanes, sem filtro, e fui-me deitar.

(Tem segunda parte um destes dias)






sábado, 11 de Outubro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA

Apenas um até depois

Penso que quem ainda lê e comenta esta rubrica já deve estar farto dela – a avaliar pela diminuição dos que escrevem os seus comentários. Por mim, concordo, ainda que tenha em carteira muitos apontamentos das viagens que fiz, dos acontecimentos que presenciei, das entrevistas que ouvi e depois escrevi. Porém, vou guardar tudo isso numa pasta pessoal, para que, quando sentir que posso voltar ao NA PRIMEIRA PESSOA o faça sem originar muitos bocejos a ninguém.


Isto quer dizer que apenas uma matéria jornalística ainda publicarei sob esse cabeçalho: NA JAMBA COM SAVIMBI. E a partir de então outros temas, alguns novos, outros retomados, por certo menos longos do que esses que vinha publicando. Aos que persistirem em visitar esta nossa Travessa, peço um favor, que creio muito simples e de fácil execução: enviem-me a vossa opinião sobre este assunto. Não nos podemos esquecer que este blogue é de todos e para todos. Obrigado.


segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA




Antunes Ferreira
D
epois de um jantar de cerimónia oferecido por Blerin Cela no hotel Dajti, com pratos típicos albaneses, vinho também albanês e no fim um raki (aguardente tipo bagaço, forte) fomo-nos deitar porque manhã cedo do dia seguinte íamos até Krujë e Durrës e Berat. Mas antes do jantar dei mais uma volta por Tirana para apreciar in loco a quantidade espantosa de bunkers que nela havia. Acompanhado do “guia/polícia” (o comunismo ainda estava muito presente no processo de “democratização) um tipo chamado Adil Rxhepeti, de coldre sob o sovaco e sorriso sob o bigode mal aparado, fomos descobri-los.
N

aturalmente começámos na praça… Scanderbeg onde não os havia – uma regra tem sempre excepções – local onde se encontrava o único “arranha-céus” da capital. Chamava-se precisamente Hotel Tirana, fora construído durante o longo período comunista, mas, em 1993, apesar de ser o local para convenções diversas e ter um serviço razoável, possuía instalações pouco menos que péssimas. Um dia Sousa Franco sentiu necessidade de ir aos sanitários e foi lá. Voltou espavorido. Em vez de no WC haver uma sanita, tinha um buraco no chão, com dois apoios para os pés, á maneira antiga. Claro que foi a correr para a “nossa” casa.
Bunkers no meio da cidade 

E
ncontrámos facilmente os primeiros bunkers. Havia-os de todas as qualidades mas feitios iguais e pareciam cascas de tartaruga ou uma meia esfera plantada no chão e feitas de pedra e cimento. A grande maioria tinha sido mandada construir por Enver Hoxha para defender o país de uma invasão não se sabia muito bem donde nem quem seriam os invasores. Era uma altura em que a Albânia estava sozinha contra o Mundo, pois após ter abandonado a esfera soviética tinha-se virado para a China que pouco tempo depois se deixou de albanesices. Portanto os albaneses não tinham aliados, tinham apenas inimigos.

A
rmados de armas obsoletas eram o símbolo da resistência albanesa contra tudo e contra todos. Alguns estavam mesmo implantados no meio das rruga (ruas) e para mal dos meus pecados até vi um num cemitério, no meio das campas. Havia-os isolados, havia-os em fila e depois pela estrada uns estavam nas bermas outros nas elevações e até vi uns na praia junto à beira-mar. Os invasores podiam atacar por terra, pelo ar e pelo ar; por isso eles lá continuavam mas já então desarmados.

O
 Adil explicou-me que tinham um plano para os eliminar…,mas faltava verba e portanto continuavam lá. Agora serviam sobretudo para aumentar a população. Essa agora?!, por que raio de motivo? E o guia/polícia sorriu por baixo do bigode: são usados pelos parzinhos para jogar às escondidas…mas deitados um em cima de outra. Soltou uma gargalhada; e eu também. Foi preciso chegar ao país das águias pra entender o dito calino: pobretes mas alegretes. A não ser assim, o número de suicídios seria enorme, pois nessa altura os desempregados roçavam os 35/40 por cento.

E
ra vê-los na praça principal formando bandos de mãos nos bolsos à espera do nada. Desde que nós chegáramos estavam lá todos os dias. As ineficientes estruturas de produção estavam, numa grande maioria, fechadas e subsídio de desemprego nunca tinham ouvido falar dele. Meti as mãos nos bolsos e seguido do Rxhepti fui mudar de fato e dirigi-me ao tal hotel Dajti. Mas quando e fui deitar ainda fiquei a ler (hábito que nunca perdi a não ser na mata em Angola, mas mesmo ali ainda manjei umas linhas de letras) Escolhi uma História da Albânia que arranjara por xerocópia na biblioteca do Tribunal de Contas.
Nexhamije Hoxha

“(…)
Em Novembro Ramiz Alia substituiu Haxhi Lleshi na liderança do Presidium da Assembleia do Povo. No ano seguinte diversos ex-ministros foram executados. Enver Hoxha morrera em Abril de 1985 e Alia sucedeu-lhe como primeiro-secretário do Partido Albanês do Trabalho (PAT). m Março de 1986 Nexhamije Hoxha, viúva de Hoxha, foi eleita líder do Conselho Geral da Frente Democrática da Albânia. Alia foi reeleito primeiro-secretário do PAT em Novembro de 1986 e presidente do Presidium da Assembleia do Povo em Fevereiro de 1987. Nessa mesma data Carcani foi renomeado chefe do Conselho de Ministros (…)” 

E
 mais à frente “Em 1989 a onda de mudanças que varria a União Soviética e a Europa oriental chegou à Albânia, com as primeiras manifestações antigovernamentais e tentativas de fuga em massa do país. A insatisfação política era alimentada pelo agravamento da crise económica, na qual os velhos problemas da baixa produtividade, da ineficiência e da obsolescência tecnológica viram-se agravados nessa época por uma prolongada seca que, além de fazer cair o produto agrícola, reduziu drasticamente a geração de energia eléctrica.” Ainda consegui ler mais umas folhas:  “A democratização da Albânia começou em 1990 e avançou em ritmo célere ao longo de 1991. O colapso do comunismo - que ameaçava provocar a desintegração política, social e económica do país - reflectiu -se num episódio de Fevereiro de 1991, quando uma multidão derrubou, na praça principal de Tirana, a estátua de Enver Hoxha,” (na peanha da qual tinham feito um grafiti: Rolling Stones. Eu vi.)

A
inda li o parágrafo seguinte “ A partir de 1990 o governo começou a reorientar país rumo à economia de mercado e a reintegrá-lo à economia mundial. Após conceder maior autonomia financeira às empresas, com salários baseados na produtividade, e anunciar a intenção de acabar com os subsídios estatais aos alimentos, o governo divulgou a realização de negociações com vistas à entrada do país no FMI e no Banco Mundial. Também foi aprovada uma lei de protecção aos investimentos estrangeiros e anunciada a criação do Banco Ilíria, uma joint-venture com capitais suíços. Em 1991 foi estabelecido o Comité para a Reorganização da Economia destinado a promover a privatização das empresas estatais.”

H
avia muitas mais páginas, mas fiquei-me por aquelas. Não sabiam os albaneses em que colete- de-varas se haviam metido. Mas isso eram outros quinhentos mal réis. Arrumei as cópias na banquinha de cabeceira e achei que tinha adormecido de imediato. Encerradas estas páginas da História da República da Albânia, dei por mim a entrar no primeiro carro de dois em que iriramos para Krujë (em albanês Kruja); no segundo iam uns senhores tirados a papel químico do Adil. Eram os nossos “acompanhantes”, Moscovo ainda estava tão próximo…, e no nosso ia também um intérprete de cujo nome não me recordo.
Um camião tivera um acidente

A
 dada altura (entre as duas cidades são cerca de vinte quilómetros) deparou-se-nos o início de uma enorme fila de camiões, automóveis e carrinhas de mais camiões, sobretudo camiões. Parámos e os nossos “anjos da guarda foram ver o que se passava, Tinha sido um camião que num acidente se voltara e a estrada era tão estreita que não se podia passar. Estavam naqueles preparos,cigarradas e cartas, enquanto esperavam por um camião-grua, pois o único que havia na Albânia estava em Manutenção em Tirana. Contava-se que chegaria dentro de um dia…

D
epois de um concílio (em menor escala do que os do Vaticano)  entre condutores e “assistentes” foi decidido que iríamos a corta-mato. Era o melhor que se podia arranjar naquele momento e subimos a berma que não era muito inclinada e avante, camar…, cavalheiros! Entre trancos e barrancos chegámos a Klujë onde tínhamos à nossa espera um comité de recepção. A cidade situada  no centro-norte da Albânia, tinha na altura  uma população de cerca de 12.600 almas. Localizado entre o Monte Krujë eo Rio Ishëm , ficava apenas a vinte quilómetros da capital, como aliás já mencionara atrás. O seu principal atractivo era o castelo de… (adivinhe-se quem) Scanderbeg, onde este falecera depois de ter aguentado vários cercos otomanos. Fomos almoçar com pratos típicos da terra e depois demos uma volta pela cidade, posto o que subimos à fortaleza.
Krujë - o castelo de Scanderbeg

O
bviamente fora edificada num monte que dominava a povoação, todos ou quase todos os castelos são construídos em tal poiso, estava em obras de reconstrução das muralhas, mas, dentro era agradável, já tinham completado as obras. Por isso fomos ver o museu que, caso quase inédito no país das águias, era dedicado ao “insigne defensor do castelo” (terminologia da responsabilidade do intérprete e dum senhor que se nos apresentara como presidente do distrito. Entre o museu e o de Tirana as coisas eram praticamente iguais; herói aqui, herói ali, o Homem era o melhor do Mundo. Ou talvez da Europa. Ou mais precisamente da Albânia.

M
as foi ali que tivemos a oportunidade de ver a melhor e maior colecção de ícones albaneses, a maior parte dos quais sobre temas religiosos e feitos no estilo da Igreja Ortodoxa. Uma visita demorada, maior do que a do museu, os pormenores dos retábulos eram maravilhosos, as cores uma verdadeira policromia, um arco-íris delicioso. Perguntei se havia a possibilidade de adquirir cópias. Arregalei os olhos quando me disseram que sim e pintadas à mão como os originais, nada de feitos em máquinas impressoras.
Belíssimos ícones 

O
s preços eram em Lekes (a moeda albanesa) e muito acessíveis, para não dizer baratos, e toda a delegação se atirou a eles. Eu comprei cinco, dois para mim  e três para cada um dos meus, nossos, filhos e respectivas famílias; finalmente conseguira obter uma lembrança, aliás excelente, da Albânia. A bandeirinha adquirida em Tirana era uma insignificância perante aquelas maravilhas, mas, de qualquer jeito iria comigo para Lisboa.

U
m pormenor, mais que uma minudência, era o facto de nós, a Raquel e eu, fazíamos colecção de ícones de todas as origens, qualidades e cores. A maior parte, senão a totalidade tinha-as trazido da URSS, da Polónia, da Grécia, de Chipre, da Roménia, da Bulgária, da Turquia e outros locais de que não me lembro. Só para idealizarem quantas eram, decoravam quatro paredes do nosso andar alugado na Lapa, cuja superfície era… 320 metros quadrados. Recordei-me do nosso trajecto quando voltámos a Portugal vindos de Angola que era mais uma miniatura do que uma deslocação que se visse. Chegáramos e conseguimos alugar um apartamento na Nova Carnaxide, onde na altura (1974) não havia iluminação pública, existiam escassos telefones e uma mercearia que pomposamente se intitulava supermercado e dois cafés. Era tudo. Para outras compras tinha de se ir à Velha Carnaxide.

Q
uando nos mudámos (com a preciosa colaboração do Qué e da Babita, as primas Cordeiros e o automóvel delas) para a Travessa do Ferreiro na Lapa,  - que devia ser Travessa do Ferreira, mas a CML nunca quis mudar o nome… - os poucos móveis e aparelhagem doméstica eram tão escassos que metia dó vê-los naquele espaço. Os nossos três filhos, ainda putos, quando lá nos instalámos disseram-me que devíamos pôr um polícia sinaleiro para não haver choques; o Paulo, que já vos disse que considerava que estava sempre certo, opinou que talvez fosse melhor e mais moderno uma daquelas coisas com três cores e rapidamente acrescentou semáforo. Nem um nem outro, mas que havia muito espaço, lá isso havia. Entretanto, volte-se à Albânia.
A praia de Durrës
N
o outro dia apontámos a Durrës e Berat. Que diferença! A primeira é mar; a segunda é campo e Historia. Começámos pela primeira. É a mais antiga e uma das mais importantes cidades da Albânia. Localizada na costa do mar Adriático e fica a 33 quilómetros de Tirana; mas por outro lado fica a 300 quilómetros, em linha recta do porto de Bari e a 200 de Brindisi, ambas italianas. Era uma tentação para os albaneses fugirem para a Itália e estes portos não eram para eles assim tão longe. Claro que não se acentuou a emigração ilegal, embora se tivesse abordado o tema. E informaram-nos que era a segunda maior cidade do país.
... de longe parecia um presépio

Q
uanto a Berat era outra estória. De longe parecia um presépio de casas encavalitadas umas nas outras a trepar um monte baixo. Das cidades do pais das águias é uma das poucas que possui vestígios arqueológicos da época grega. Tinha uma importância muito grande pois estava a preparar-se para ser considerada património mundial, o que, depois, veio a acontecer. As visitas deram-nos uma ideia do que ela era e levaram-nos ao castelo de Berat e depois jantámos na vila do rei Zog o último monarca albanês.

E
ra o fim da visita e o Tribunal de Contas de Sousa Franco que na altura era considerado pelo então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva como uma força de bloqueio, saíra-se muito bem do fim que levara a sua delegação a visitar a Albânia: lançar os alicerces do que viria a ser no futuro o TdeC de lá. Diz o ditado que quem semeia, colhe. Infelizmente nem sempre é assim. Se um dia voltar a um dos países considerados mais atrasados da Europa, espero que os resultados tivessem sido, no mínimo, bons.
Televisão pré-histórica...

P
orém não posso acabar esta crónica sobre a  Republika se Shqipërisë, sem contar as visitas que fiz aos jornais, à rádio e dita “televisão” em Tirana. Imaginei encontrar-me, já não digo no tempo do Gutemberg, mas, de algum modo, próximo dele. Os meios e as máquinas eram uma desgraça e não consegui saber (ainda que mo tentassem explicar) como era possível fazer informação. Já os jornalistas, operadores de “câmara” e radialistas mereciam ser condecorados tal o trabalho que conseguiam fazer com tantas carências. Pensando bem, na altura congeminei que o grande colar da Ordem de…Scanderbeg seria mais do que justo, seria justíssimo.