TROTAMUNDO Wałesa – uma conversa a três (3)
Nota prévia – Muitos leitores, cumentadores, com o, e até muitos contribuidores se me têm dirigido a rogar, quase genuflectidos (bonito, não acham?), que ponha fim a este tormentoso folhetim ou telenovela, ou o que lhe queiram chamar. E, sobretudo, que o desenlace ocorra antes da minha (nossa, ca Raquel não me deixa ir sozinho) partida para Goa, Damão e Diu.
Ainda que fazendo aguardar um pouco os textículos dos outros membros do Timão, decidi por unanimidade pôr cobro a esta dilemática e inquietante situação. Para alguma coisa o Aéfe é o «dono da bola», ora tomem lá! Nem o Pedroto, malta, nem o Pedroto. Por isso, aqui vai o terceiro capítulo, a que se seguirá o… seguinte. Que espero bem seja o fantástico final, a girândola fogueteira , o vero epicentro deste tsunami de pacotilha.
Mas, estejam sossegados. De 17 próximo (quando avionamos, embarcamos é mais barcos, botes & currelativos, com o, para Frankfurt e a 18 para Dabolim) a 9 de Março (saímos do Paraíso, infelizmente, sem maçã nem serpente nem nada, excluídos as peças de vestuário e calçuário), não me aturam. Descansem, pois. Não sendo, de forma alguma, o fim do Mundo, será para vós - um alívio. No entanto, sabe-se lá se, de lá poderei fazer chegar até cá alguma coisita. Não prometo. Mas…
(Continuação)
Antunes FerreiraComo a porta de entrada do Novotel fechava à uma da manhã «por questões climatéricas», de acordo com informação colocada no balcão da recepção, (leia-se «de segurança») previdentemente fui falar com o porteiro que dizia umas coisas em inglês. Disse-lhe que tinha uma reunião importante nessa noite e que talvez precisasse de chegar mais tarde. Nada feito, ele limitava-se a cumprir ordens superiores. Sem espalhafato, mostrei-lhe umas notas de um dólar. Contei-as,
one, two, three, four, five, stop. Finish.Os olhos brilharam-lhe. Vestiu limediatamente a camisola

do clube dos amadores dos
USA billets, yes, e logo de seguida,
two more for my friend…. Ok. O
friend era o guarda nocturno que me foi apresentado uns minutes depois da recepção – na recepção. Perfeitamente, chegasse à hora que chegasse, a porta reabria às cinco da matina, mas havia uma campainha, que logo me indicou. Agradeci.
Dziękuję, obrigado. E, enchouriçado num casacão acolchoado, um anorak como então se dizia, casaco e gravata - nunca saberei porquê - cachecol e boné à Lenine, que comprara em Wroclaw para a minha colecção de tais adereços, meti-me à chuva molha tolos que caía e só parei debaixo da ponte, que era, de resto, de dimensões menores. Em Lisboa seria como o bairro: pontinha.
Já ali estava há uma boa meia hora, no mostrador do meu relógio vira já os ponteiros a caminho das onze, escuridão total, batendo os pés para tentar minimizar o frio de fim de Outubro, quando uns faróis me bateram nos óculos. Eu, sem eles, não sou nada. Pestanejei, enquanto me faiscava o lobo occipital – são eles, é desta!... E o lobo frontal, desmancha-prazeres - é capaz de ser a polícia. O carrito parou junto ao passeio, o vidro da frente baixou: Ferreira? Era.
Entrei para o banco traseiro, com dois sujeitos a ladearem-me, apertadinhos os três, começava a lembrar-me da estória da lata de sardinhas,

quando, num francês excelente, o cidadão que seguia na frente ao lado do condutor, me disse que tinha de me deixar vendar, naturalmente para que não visse o percurso que íamos seguir. Acedi, que mais podia fazer? Tirar as cangalhas, claro. E deixar que me pusessem um trapo negro como a noite, em cima dos olhos. Estava feito. E só não me borrei porque não usava cuecas castanhas.
Demos uma série de voltas e, finalmente, estacionámos. Saí e destaparam-me (os globos oculares, pois que mais havia de ser?), pus os
ólicos e vi que estávamos nua rua sem vivalma à volta. Enquanto o motorista seguia, fomos os quatro restantes até uma porta na qual o que parecia ser o chefe bateu com os nós dos dedos, telegrafando a senha da nossa chegada. Um sujeito alto abriu-a e entrámos.
Um corredor comprido, uma lanterna de mão e nova porta. Uma sala onde apenas havia algumas cadeiras e uma mesa, atrás da qual se sentava um senhor com cara de pau, magro. E uma lâmpada pendurada do tecto, com o clássico abajur à maneira da PIDE, como eu bem me recordava.

Cenário «acolhedor» e gente «simpática», pensei para com os meus botões e o meu frio, pois o local estava mais gélido do que a rua. Fiquei ali, de pé, enquanto o suposto chefe trocava umas palavras em polaco (podia ter sido em japonês, que para mim seria igual) com o verdadeiro patrão.
Este, sentado, perguntou-me também em francês excelente, se eu era o Henrique Armando Antunes Ferreira, pronunciando o meu nome completo pausadamente. Respondi-lhe que sim. Tem o seu passaporte? Mau, mau, o documento, como acontecia em todos os países da cortina de ferro, era depositado no hotel. Informei-o. Mais uns comentários entre os dois, e tem mais documentos? Disse-lhe do BI, da carta de condução e do cartão do DN. E tornou ele: com fotos e outros elementos de identificação?
Aí, explodi. Disse-lhe – e ao outro, os dois restantes não sabia, sequer, se falavam ou eram mudos – se também queria os meus números de colarinho e de sapatos, que estava farto daquela brincadeira, que era um jornalista português, que não viera de Lisboa ali para jogar à cabra-cega e que, mal chegasse à minha terra, ia ter uma conversa muito séria com o outro Henryk, avisando-o que, face ao que estava a acontecer, não contasse mais comigo em Portugal. E voltei-me, para sair. Palavra que não sei, até hoje, como o consegui fazer, mas, o que é certo é que o fiz. E, volto a sublinhar, não me caguei.
O senhor levantou-se, deu a volta à mesa, pespegou-me dois beijos nas faces e abraçou-me, meu querido amigo, não te exaltes, agora já sei que és tu mesmo, dos nossos, o Henryk disse-me há uma semana, por carta para a Austria, que depois me foi entregue em mão - a organização não era, de todo, má - como tu eras, um gajo porreiro até te chateares, etc. e tal, efusões seguidas pelo subchefe(?) e pelos três restantes. Amigo, bebamos uma Wyborowa. Como por magia, surgiu do nada o motorista (que já voltara) com duas garrafas geladíssimas de vodka e copos. E mais dois beijos.
Saí dali pelas três e tais da matina, bem aquecido e embebido, isto é, bem bebido. Com todas as indicações para Gdansk. Na despedida, até coresponderam ao meu pedido: tiraram-me uma foto com a venda nos olhos.

E só então se apresentaram todos. Os dois bosses eram o Borisłav Geremek, futuro MNE, e o Tadeusz Mazowiecki, este último que, anos depois, viria a reencontrar e a entrevistar como primeiro-ministro da Democracia. Dos restantes, ou foi pela vodka ou pelo frio, não me lembro dos seus nomes. Geremek e Mazowiecki eram obviamente da cúpula do Solidariedade.
Entrei, tranquilamente, no hotel, abençoada por um sorriso do segurança da noite. Facílimo. As notas do tio Sam eram um verdadeiro abre-te Sésamo. Na manhã seguinte, check out, e ala para o aeroporto. Comprei um bilhete - igualzinho ao que então tínhamos nos nossos autocarros -, mas para o avião das linhas internas. Durante o voo, tentei organizar a cabeça (o que nunca consegui na minha vida, ou quase), imaginando como decorreriam as coisas.
À saída da aerogare, vi-me rodeado do habitual enxame de taxistas que entre eles me disputavam. Um que fale inglês, solicitei. Ninguém respondeu à chamada. Nie. Entreolhavam-se, entre o desiludido e o aborrecido, olha este mânfio. Em polaco, obviamente.

Um deles adiantou-se e disse
Spique uardes fiu.
Aber ich spreche Deutsch. Muito bem. Tentaria safar-me. Puxei de todo o meu alemão dos dois últimos anos liceais e disse-lhe que queria dar uma volta por Sopot e Gdinia e, depois, voltar a Gdansk.
Seher gut. Tinha um Mercedes.
Assim fizemos, com ele a explicar-me (?) que fora camionista dos TIR para as duas Alemanhas e por isso falava alemão. Um tanto mascavado, mas melhor do que o meu, garanto-vos. Dois filhos e uma filha e chamava-se Franciszek Marowchinski. Um sujeito excelente, que gostava de futebol e até conhecia o
Iuszibiw, grande futebolista. E eu ralado, sabia lá quem era o dito cujo.
Binfika. Olá, que raio de sorte, era o Eusébio, do Benfica. Não lhe disse que era do Sporting. Não valia a pena estragar uma tão bela confraternização.
De volta a Gdansk, disse-lhe para irmos à Igreja de Santa Brígida. Era onde me encontraria com o padre Henryk Jankowiski, o confessor de Wałesa. Seria ele que me levaria ao sindicalista. Dia de Finados. Templos a abarrotar. Crianças e adultos pejavam os confessionários.

Até polícias sinaleiros abandonavam os respectivos postos para assistir às cerimónias litúrgicas. Eu vi-os, fardados e ajoelhados. O catolicismo na Polónia era, realmente, a sério. E um verdadeiro mistério.
Passava, por entre o enxame de fiéis, um cura já velhote. Tentei em francês:
Mon père... E ele:
Qu’est ce que vous vouleeeeez? Um vozeirão impressionante. E eu, cada vez mais baixinho, que queria falar com o padre Jankowiski.
Quoi? Pourquoi? Il n est pas. Il est parti pour Varsovie. Il a quelques affaires avec le cardinal. Ou bien avec la police. Altissonante o digno sacerdote. Porque surdo que nem um muro de betão.
Já olhavam para mim muitos assistentes. Ou antes, olhavam para nós, por força dos decibéis usados pelo meu interlocutor. O qual, erguendo os braços em sinal de descoberta, trovejou:
Je comprends. Ce que vous voulez c’est parler avec notre Lech. Mais lui, il n’est pas aussi. Il ne viendra que d’ici a deux heures. Pour la messe principale des défunts. Ah, ce que vous voulez c’est Wałesa… Fripooooon!!!!!!
Saí do templo, depois de um
merci esfarrapado, com um sorriso amarelo-parvo, entre o receoso e o envergonhado. E o Franciszek, que devia ter compreendido o que se passava, falou para mim, com um sorriso na face:
So wir mussen gehen Szant Marien ulica. Unser Lech Strasse. Temos de ir até à Rua de Santa Maria. A rua do nosso Lech. O filho da mãe entendera, desde o princípio, o que eu pretendia…
(Conclusão - um dia destes…)