Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA





(Segunda parte)
Antunes Ferreira
N
o dia seguinte partimos para Xangai num avião das linhas internas fabricado na China – mais tarde dir-me-iam que era pirateado de um Boeing 727…   - da Air China que depois viria a ter um acordo com a brasileira Embraer. A Raquel continuava com a sua amigdalite também made in China. Acompanhava-nos o “eterno” Bao Sheng, que, pelos vistos nos adoptara como  filhos portugueses. Foi um excelente companheiro de viagem, nem outra coisa seria de esperar e traduziu-nos o que as hospedeiras diziam. E constantemente perguntava pela saúde à minha mulher.

N
o aeroporto da segunda cidade chinesa aguardava-nos o senhor Wang Chu-ai e a senhora Mei Min, representantes do poder local, isto é da organização regional do PCC.  Acompanharam-nos à residência Rui Jin que pertencia ao Partido e fora uma vivenda majestosa de um cidadão inglês dos tempos de antigamente. Era um luxo. Mas, logo que descemos do quarto, aliás uma suite, Bao Sheng apressou-se a dizer que a minha cara-metade ia ao Hospital para estrangeiros, acompanhada de um jovem intérprete. Voltou com duas receitas: uma de remédios ocidentais, outra de medicina chinesa. Não sei qual deles fez mais efeito, pois de manhã estava fresca como uma alface importada da baixa de Badajoz.
Ruelas de Xangai

M
as foi aqui que ocorreu uma cena que até hoje não consigo explicar. A minha adorada disse-me que gostaria de chupar rebuçados de mentol, coisa que lhe fazia muito bem lá na Goa de onde viera. Ora em Xangai… Mas não desanimei. Saí de fininho pois ia sem acompanhante oficial e dei por mim no meio de ruelas cada vez mais estreitas e sujas. Num tanque, lavadeiras batiam a roupa como se fazia em tempos atrás. Tentei saber delas onde havia uma loja. Obviamente recordei o sermão aos peixes do Padre  António Vieira; nem eu me fazia entender, nem elas me entendiam. Porém uma levou-me junto de um polícia.

E
stava  tramado, o gajo ia-me prender, um estrangeiro por aqui, mais a mais sozinho. Xadrez. Mas, não. Como persistia a situação de desentendimento linguístico, o chui levou-me a uma loja mais idosa do que a citânia de Briteiros. Talvez o velho que estava à porta da baiuca me entendesse,  pensei para com os meus botões. A mímica com os correspondentes gestos quiçá me safassem. Sentada encontrava-se uma senhora com um bebé nos braços. Para amenizar o ambiente fiz o clássico bidubidubidu à criança. Riram-se os dois. Presumi ser mãe e descendente. Voltei a brincar, pus-lhe um dedo no narizito e fingi estar a premir uma campainha trimmmm. Vitória!
O

 velho pegou-me no braço e levou-me para dentro; era uma loja antiquíssima dos tempos do Afonso Henriques; uma mercearia. Com os dedos metidos na boca e chupei-os com ar de satisfação. O senhor começou a destapar uns boiões daquele que havia nas farmácias e deles ia tirando o que estava no interior e mostrava-me. 


Boiões miraculosos...

Frutos secos e eu não com a cabeça; passas de ameixa; não; rebuçados de cor estranha; não. E quando ia na oitava tentativa tirou uns dropes verdes e entregou-me um: eram rebuçados de mentol. Dei cem Rénmínbi  (a moeda do povo, porque havia o yuan para estrangeiros, mas eu tinha levado da embaixada em Lisboa uns quantos para qualquer necessidade) ao velhote que ficou com um sorriso do tamanho de uma melancia aberta, mas a branco muito sujo e saí.
Bebés de olhos em bico

H
avia uma velhinha sentada num banco de pau; levantou-se e levou-me a um edifício que era uma residência para bebés, meio hospital, meia creche, meio berçário. Fez-me então o gesto da campainha no nariz. Tive de o repetir uma porrada de vezes a cada uma das crianças. E a velhota beijou-me as mãos, o que deixou entre o assarapantado e o comovido. Fiz-lhe tão carinhosamente quanto me foi possível, um afago na cara enrugada, enquanto iam chegando as mães dos bebés. Raspei-me com a velocidade adequada mas sempre sorridente. E agora, como chegar à malfadada  residência Rui Jin? Tentei voltar pelo mesmo caminho mas, se há qualidade que nuca tive é o sentido de orientação. Uma noite na tropa, durante um exercício obviamente nocturno, em que eu o comandante da minha secção, de repente estávamos numa pista do aeroporto da Portela… Estava pois num buraco no meio de um bairro manhoso. Nisto chegou um catraio que me perguntou num inglês arrevesado o que eu queria.

S
aquei do meu bloco de apontamentos e escrevi Rui Jin. Ele sorriu, escreveu em chinês e perguntou ao polícia onde ficava aquilo. E levou-me lá. Mais cem  Rénmínbi . Caminhava para a falência. Ali tinha-se armado um borborinho: onde estaria o gordo? E no meio de idas e vindas do pessoal, recordei-me da clássica: Na praia da Nazaré pois então, vai um grande borborinho; as senhoras de roupão; e o Dom Fuas de Roupinho,  Sossegaram e ainda me perguntou a senhora Mei Min por onde andara. Fui dar um passeio, respondi-lhe, mas devia ter levado alguém dos nossos. Muito obrigado. Safara-me. Quando entreguei à Raquel o pacote dos desgraçados dos rebuçados de mentol, ela nem queria acreditar. Contei-lhe a estória. Creio que eles a ajudaram a pôr-se fina, mais do que os remédios de duas qualidades e origens. Á noite fomos visitar o Bund,( 外灘) o local onde os britânicos e outros europeus faziam negócios, na margem do rio Huangpu. Já na altura era um local eminentemente turístico.

Sem legenda...

N
o outro dia da parte da tarde  seguiríamos para  Cantão ou Guangzhou ( 廣州); mas de manhã ainda fomos visitar o Huang Park onde está a placa do tempo dos ingleses No dogs and chinese allowed. Restos duma época em que a China mais ou menos colonial ainda não era a República Popular fundada por Mao Tse Tung.  Cantão era uma cidade trabalhadora onde avultava a siderurgia, no outro lado do rio, que também visitámos. Foi ainda em Cantão que me encontrei com o engenheiro Jin Bai-chung que me pôs ao corrente dos progressos verificados na China a partir da Grande Marcha e sob a égide do PCC.  E mais tarde com Deng Xiaoping autor de um pis, dois sistemas.

A
liás, deu-me um exemplo ao longo de duas horas de conversa: dentro de pouco tempo, mais um ano, menos um, iria abrir a Bolsa de Xangai que era um grande passo em frente na aplicação da teoria. Convidou-me para jantar, e o senhor Bao Sheng, que no dia seguinte nos abandonaria, informou-o de  que a Raquel estava comigo. Então vamos os quatro ao restaurante do Hotel Cisne Branco comer pato à Pequim. E fomos. Do pato só se comia a pele convenientemente estaladiça, a carne vinha à parte em tigelas individuais. Com uma temperatura amena, ar condicionado mas não gelado, fomos comendo uns pratos que mais uma vez não conhecíamos,  e no fim sopa de serpente de que ficámos fãs.

A
proximava-se o fim da visita, Wang Chu-ai levou-nos até à Zona Económica Especial (ZEE) de Shehzen, onde tivemos o almoço de despedida, no qual aconteceu uma verdadeira anedota. Entre os milhentos pratos de um verdadeiro banquete – o que se nos tornara corriqueiro - veio uma panela pyrex onde estavam gambas vivas. 
Gambas saltadoras 
Quando a destaparam para deitar sobre os crustáceos  a aguardente de arroz (Mao Tai, 茅台酒 , como constava do rótulo da garrafa, que já tínhamos bebido quase em todas as refeições como digestivo) os bichos começaram a saltar para fora da panela, tentando salvar-se da bebedeira fatal. Ainda hoje me lembro dos empregados de mesa numa verdadeira caça à gamba no restaurante e os comensais rindo que nem uns perdidos..


E
 atravessámos a fronteira para Hong Kong e daí em jetfoil para Macau. Onde no Hotel Hyatt comeu os pastéis/bolinhos de bacalhau. Que, aliás, não eram grande espingarda. E pão português. Que, idem, idem, aspas, aspas. Algum dia havia de ser…

(Texto mais pequeno para corresponder à solicitação da Zézéamiga)

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA




Um empate:

10-0





Antunes Ferreira
E
ra uma vez uma companhia aérea portuguesa de bandeira  que se chamava Transportes Aéreos Portugueses e agora é Air Portugal, mas que mantém a sigla TAP, e que hoje o (des)Governo quer privatizar agachando-se perante os bancos alemães e o Central Europeu. Essa companhia dava (e felizmente continua a dar, mas com menor impacto) bilhetes mais ou menos grátis aos seus empregados (ora trabalhadores) Sob a condição de haver lugares disponíveis nas aeronaves. Já o escrevi e repeti e tripeti que é por causa deles, bilhetes, que não me posso divorciar,  pois a Raquel , como sabem é a minha esposa sendo reformada da citada TAP ainda mantém essa mordomia para ela e para o marido que, caso curiosos, sou eu.


Desde a TAP em 1945 até à Air Portugal em 2012 


V
ejam-se as coincidências: casámos no mesmo dia, à mesma hora, na mesma igreja, com o mesmo sacerdote a presidir à cerimónia. Mas a coisa não fica por aqui: os mesmos convidados, os mesmos familiares, o mesmo local do mesmo copo-de-água. Singularidades que só as pitonisas (e porque não os pitonisos?) ou o professor Bambo ou até mesmo a Maya podem explicar. Porém não foi isto que me trouxe hoje aqui, se bem que  estes laços familiares ajudem um tanto. Tratou-se de uma viagem à China, i.e. à República Popular da dita. Que se sintetizou num enunciado matemático: 1 + 1 = 2, por enquanto.

A
 RPC tinha aberto a sua embaixada na Rua de São Caetano (à Lapa) perto da minha casa de então, na Travessa do Ferreiro também da Lapa. Porém, os primeiros contactos que tive foram com uma delegação chinesa que viera Portugal para efeitos logísticos, com os elementos da qual falei no Diário de Notícias levados pelo
Jornalistas  (?) xins com Carlos Ricardo
Carlos Ricardo, um político pró China. Foi uma  conversa interessante sobre diversos assuntos incluindo, obviamente a política portuguesa. Os dois chineses eram oficialmente” jornalistas” da agência Nova China, Xinhua e vinham a Lisboa para encontrar um apartamento para o deu correspondente que viria residir na capital. Logo entendi que eram uma “guarda avançada” para escolher as futuras instalações que a embaixada chinesa teria em Portugal. Mas, fiz-me de novas e conversei com os dois “jornalistas” que falavam castelhano. 

A
berta a embaixada, encontrei no supermercado do bairro uns quantos chineses que iam abastecer-se de comida. Os pobres diabos que não deviam ser diplomatas só sabiam pedir ovo, galina e allôs, e nada mais. Pensei para com os meus botões que a dieta alimentar dos amarelos (nunca saberei porque razão lhes chamam assim, pois são tão fulvos como eu) era pouco variada. Porém os pedidos e as buscas nas gôndolas (assim se chamam as prateleiras dos supermercados, aprendam se fazem favor, que eu não sou eterno e quando acabar o meu prazo de validade, só o forno crematório curará todos os meus achaques e maleitas) foram diversificando, graças a um senhor que tinha aprendido o Português, na Universidade do Parido em Pequim, hoje Beijing.

M
as subsistiam algumas dúvidas fruto de uns quantos hiatos na cadeira de Língua e História de Portugal. Um dia quando procurava as couves para a sopa velde, elucidei o cavalheiro, que dava pelo nome de Han Tseng, que se tratava de uma sopa típica portuguesa e se chamava caldo verde. E levei-o ao local das couves e expliquei-lhe como tinham de
Home da cozinho plepalando taltaluga
ser cortadas para se fazer o caldo e os outros condimentos. Ele foi apontando cuidadosamente o que eu dizia, é pala dal o home da cozinho, e aditei que era cozinheiro que se dizia. Ora o sujeito era  ajudante-de-campo do adido militar e ele próprio era tenente. Ficámos assim.

E
ntretanto, os dias foram passando e qual não é o meu espanto quando o correspondente da agência noticiosa Nova China, Xinhua, Jin Bai-xing nos convidou para almoçar em sua casa que era também na Lapa. Por ele veio o convite do general Chan-jiun Deng para jantarmos na embaixada, a Raquel e eu. O militar engraçou connosco, principalmente com a minha mulher quando soube que era goesa. Gostava muito da cozinha indiana, mas pouco picante. E lá foi jantar a nossa casa umas semanas depois. Adorou os manjares e a casa. E entendeu que tínhamos de conhecer o embaixador e a embaixatriz.

A
ssim viria a acontecer. Era um chinês alto – o que não é muito vulgar – professor universitário e diplomata, muito afável e simpático e chamava-se Dao-suang Sam. A embaixatriz cujo nome não apontei era uma senhora encantadora toda ela sorriso. O chefe da embaixada e eu comemos numa mesa e as senhoras noutra. Hábitos… Acompanhámos as iguarias com um vinho chinês que nem lembrar-me dele. No final da refeição chá e uísque chinês. Bebia-se o Professor Sam cantava ópera chinesa e prometeu que quando viesse a Lisboa uma companhia com bons intérpretes nos convidaria; mas ele não cantou. Passados uns meses convidou mesmo.

A
breviando. De contactos em contactos, um dia Dao-suang fez-nos um convite para visitar a China: Mas de acordo com normas de Pequim pagariam o meu bilhete, mas o da minha mulher não, mais uma norma do PCC. Foi aí que entrou a TAP à qual a Raquel , já reformada, pediria bilhete de cão (era assim que se chamava na gíria da companhia) O embaixador exultou. Porém uns dias depois, após ter comunicado a Pequim a solução encontrada pediu-me para ir à embaixada: o Partido decidira, num caso como o meu, que era especial (depois saberia porquê) que tudo decorreria por conta dele e não era necessário fazer o pedido aos Transportes Aéreos Portugueses.
Aeroporto - Pequim

C
hegámos ao aeroporto de Pequim no dia 30 de Dezembro. À nossa espera estava um verdadeiro comité de recepção com oito cidadãos todos de olhos amendoados. Pudera, estávamos na China. Por algumas vezes tínhamos estado em Macau e, passadas as Portas do Cerco tínhamos entrado na RPC sem grandes tardanças. Mas, desta feita, não era uma coisa periférica lá para os lados onde o Huang Ho, o Rio Amarelo desagua. Então, estávamos na capital, cidade com tradições proveniente da junção de pequenas aldeias nos princípios do século X. Também chamada Beijing, é conhecida pela Capital do Norte.

D
ali seguimos para o hotel da Associação Mundial dos Amigos  de Todos os Povos do Mundo que fora quem nos convidara e que não tinha nada com o Partido Comunista, pois era uma ONG. À maneira chinesa, claro. O presidente dela era o vice-ministro das Relações com o Exterior, o nosso ministério dos Negócios Estrangeiros, mas em mandarim; o secretário-geral Bao Sheng que chefiava o comité de recepção era o secretário regional do Partido e subministro do Desenvolvimento do Governo Central.. E por aí fora. Um carro enorme, tipo Cadillac para maior levou-nos à Residência da AMATPM, nome oficial da nossa morada em Pequim.

B
ao Sheng falava um francês impecável., devia andar pelos 60/70 anos (é difícil saber a idade dos orientais), bem disposto, contava estórias muito interessantes e anedotas civilizadas. Tinha participado na Grande Marcha e por isso conhecera o Grande Camarada Mao Tsé Tung, renegando a nova pronúncia de Mao Zedong. Iria acompanhar-nos por quase todo o périplo que nos foi apresentado na sala de visitas da nossa suite. Fazia um frio de rachar pedras, havia um aparelho de televisão, mas quanto a aquecimento, nicles. Eram cinco e meia da tarde e já estava noite escura.

U
m cavalheiro de seu nome Dao Suang (como já compreenderam anotei todos os nomes dos cidadãos que já não se tratavam por camaradas,  Deng Xiao Ping tomara as rédeas do poder e ponto final) que seria o meu intérprete (a Raquel tinha direito a uma senhora de seu nome Mei-hing) leu o programa da visita que incluía Xangai e Guangzhu, ou seja Cantão. Fiquei perplexo quando ouvi que no terceiro dia da estada constava o ponto Ferrira fala. Ferrira era eu, mais ou menos, era um pormenor despiciendo. Agora o fala é que me deixou intrigado. Em Lisboa, onde a volta fora combinada nada constava desse enigmático fala. Mas, calei-me.

B
om, abreviando, passámos uma noite enregelados, apesar de termos metido as cortinas nos interstícios das janelas. E como a alvorada estava marcada para as cinco matinais, levantei-me e fui à casa de banho para as abluções habituais. Se o quarto estava gelado a casa de banho tinha um ambiente polar. E como não havia um iglu para me meter nem tentei tomar banho, ainda que corresse água quente. Mas, quando saísse da banheira (não havia chuveiro) morreria transformado em estátua de gelo, Com a Raquel passou-se o mesmo e quando me queixei ao Dao ele informou-me para deixar correr durante toda a noite á agua quente que assim aqueceria a instalação. Mas gastaria muita água;  argumente, encolheu os ombros, não somos nós que a pagamos, é o Partido, digo, a Associação.


Na Cidade proibida 


C
idade Proibida completamente polarizada, na Ponte de Pedra, andámos a bater com os pés no chão apesar de termos calçado dois pares de meias, Um espanto. É fabulosa a Cidade Proibida, nem vale a pena descrevê-la. aliás seria necessário dispor do espaço de vinte listas telefónicas mais as páginas amarelas. Mas a sua entrada que dava para a Praça Tianamen  (onde, depois, se iriam verificas as manifestações estudantis a repressão com tanques) ostentava uma foto gigantesca e colorida do camarada Mao. Dentro, uma maravilha de pavilhões lindíssimos onde predominavam o vermelho e o dourado e leões de pedra e…) O resto do dia (?) que acabou pelas quatro e meia da tarde, seria ocupado por uma longa conversa com o Senhor Bao Sheng até ser servido o jantar no qual ele participou e que terminou com um café à maneira, habituei-me em Paris, e um Napoleon de cinco estre…, ups, estalos. Muitos temas abordámos e face à franqueza do meu interlocutor perguntei-lhe o que era o Ferrira fala?. Ferreira emendou, estes tipos do protocolo deviam ser mais cuidadosos.

P
ois ia fazer uma palestra sobre Portugal na Universidade do Partido. Fiquei um pouco preocupado, mas depois pensei que não havia de ser nada. Entretanto aproximava-se a meia-noite da passagem do ano e nós naquele quarto ffrígido sem uma garrafa de espumante, sem nada. Olhámos, melancólicos,  pelas janelas do quarto, que de tão grande, mais parecia um quarteirão. Nevava. E logo me veio à memória o Augusto Gil e a sua balada: “Fui ver. A neve caía do azul cinzento do céu, branca e leve, branca e fria… Há quanto tempo a não via! E que saudades Deus meu!” Fomos, cabisbaixos para a cama; na casa de banho de todas as torneiras jorrava água a ferver e da banheira e do lavatório tínhamos tirado os respectivos tampões. De outro modo teria sido como o Noé, mas sem arca.

A
 palestra durou duas horas. Na apresentação o Senhor Bao Sheng disse que eu era um grande jornalista, amigo e confidente de Mário Soares. Estava explicada a deferência que me era dispensada. Não sendo totalmente verdadeiro abstive-me de o desmentir. Falei sobre o processo de democratização em Portugal, na existência de partidos, no tempo tremendo da Outra Senhora. O que era? Perguntou-me um jovem. Elucidei-o que era o nome que dávamos ao regime ditatorial de Oliveira
A  Outra Senhora
 Salazar, oficialmente o Estado Novo,  e aproveitei a deixa para dizer o que tinha sido, com censura, polícia política e outras componentes.,  No enorme  auditório estavam para aí umas quatrocentas pessoas: alunos de Português, antigos diplomatas em Lisboa, professores et aliud. Parecia correr tudo sobre esferas com o Dao a traduzir; porém, o homem não era muito forte nos números e quando eu falei em três mil de qualquer coisa, vai ele e disse trezentos mil. Claro que não dei pelo lapsus linguae sino. Mas, de entre a assistência levantou-se um senhor que tinha feito farte do pessoal da embaixada chinesa, e emendou-o de imediato. E tudo seguiu assim: eu falava, o Dao “traduzia” e o segundo secretário Tai Chek corrigia.
O

 pior, porém, ainda estava para vir: seguiam-se as perguntas dos assistentes. E quando uma jovem estudante  me perguntou a minha opinião sobre a VII assembleia da reforma agrária, fiz o meu sorriso mais franco e desbobinei tudo o que sabia sobre essa reforma, os problemas que tinha originado e sobre mais umas quantas coisas. No final romperam  aplausos. Agradeci, mas não me pus em bicos dos pés, o que seria difícil, gostei. Dali fui buscar a Raquel para irmos a Badaling ver a Muralha da China. Se não o fizéssemos seria como ir a Roma e não ver o Papa. Mas como nevara toda a manhã enquanto eu perorava, a Grande Muralha estava perigosa, podíamos escorregar. Mas sempre lá fomos. Antes porém uma brigada limpou o pedaço que pudemos percorrer. Chinesices. .. À noite, jantar no restaurante Qianmen Quanjude,o melhor pato à Pequim. Que estava quase vazio e, adivinhem, frio que nem 25 quilos de pedras de gelo. A Raquel constipou-se.   

N
o último dia dia Capital do Norte tive umai uma desilusão, mas saiu-me o prémio de consolação. Passo a explicar. Na embaixada em Lisboa pedira para ter uns minutos de conversa como o autor da teoria Um País – dois sistemas, o senhor Deng Xiaoping. O embaixador tinha-me dito que Deng era um homem muito ocupado com a implementação da nova ideia. Mas, que ia ver o que podia fazer. Nada. Xiaoping, disse-me Bao Sheng, não tinha tempo nem para se coçar, trabalhava que nem um forçado, sempre de cigarro nos lábios. Portanto, terminara ali a pretensão. Mas o senhor Hu Yaobang receber-me-ia para trocar umas palavras e ia jantar com o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Huang Hua, que era um dos milhentos vice-presidentes da Assembleia  Nacional Popular, também chamada Congresso Nacional do Povo.
Hu Yaobang

C
onversei com Hu Yaobang que era então o secretário-geral do PCC, um dos lugares mais importantes da China e uma “criação” do próprio Deng e que viria a ser primeiro-ministro. Yaobang era um homem afável, cuja bonomia cativava e trocámos impressões sobre Portugal; estava muito interessado, disse-me, no processo de democratização português e porque era um adepto da cidadania queria saber o que se passava nesse particular em Lisboa. Enfim, foi mais de meia hora de uma conversa muito interessante  que me permitiu apreciar as suas qualidades pouco vulgares num alto dirigente da China – e do Mundo.

V
iria a ser sacrificado em 1986, aquando do movimento estudantil, pois os velhos camaradas acusaram-no de “excessiva liberalização burguesa”, com autocrítica e tudo. Quando mais tarde em 1989 tomei conhecimento de que falecera fiquei sinceramente pesaroso. Aliás aproveito para referir o que então se dizia nos corredores da Redacção do Diário de Notícias: fulano nuca me daria uma entrevista, pois eu dava pouca sorte aos entrevistados. Ou morriam assassinados como foi o caso de Olof Palme, o dos Ceausescus, ou o dos Gandhis, ou eram destituídos à força, e o exemplo era Yaobang. Enfim, dar-me uma entrevista era muito perigoso. Eu era o gato-pingado dos políticos…

Entreguei-lhe a "Primeira Página"

C
omo a minha cara-metade baixara à cama com uma amigdalite casada com a constipação, o quarto estava aquecido, ma non troppo. Portanto fui até à gigantesca Assembleia onde jantei com Huang Hua. Já nos conhecíamos de nos termos cruzado, portanto bastante mal, nas Nações Unidas quando ele era o chefe da diplomacia chinesa. Recebeu-me galhardamente e embora estivessem presentes o meu intérprete e a dele, falámos sempre em francês. Entreguei-lhe o livro editado pelo DN intitulado "Primeira Página" que, naturalmente me agradeceu. À baila veio, naturalmente, a questão estudantil que começava a crescer. Entre uma sopa de tartaruga e um guisado de carne (de cão de língua preta?). atirei-lhe com a pergunta: que faria o regime para enfrentar a crise dos estudantes?. E com um sorriso irónico respondeu-me que eles sabiam o que o poder também sabia para os reprimir. Dava então um empate? Perguntei. E ele::um empate por 10-0…

(Fim da primeira parte)


mmmmmmmmmmmmmmmmm
mmmmmmmmmmmmmmmmm

 Fazermos o que queremos
Mas, na tarde desse dia, por entre os quefazeres  diversos tive uma oportunidade que considerei excelente. Na embaixada da Índia estava como primeiro-secretário o Vijaya Machandra com quem fizera uma boa Amizade pois o seu anterior posto tinha sido em Lisboa. Telefonei-lhe para dizer que estava em Pequim e ele disse-me que me queria encontrar. Passada meia hora assim aconteceu. Foi um abraço apertado e começámos a contar coisas, eu de Portugal, ele da China.

A deusa da liberdade e Mao

A dada altura perguntou-me se eu precisava de alguma coisa e respondi-lhe que gostava de ir à cidade universitária. Franziu a testa, isso é complicado, mas tenho aqui o carro da embaixada e vamos tentar passar. Os estudante já estavam em ebulição e a polícia… Mas lá passámos e com a ajuda do Machandra consegui falar com o Wang–dao, finalista de Medicina que falava um pouco de inglês. Foi uma conversa curta, o olhar dele percorria o terreno, como no tempo da PIDE nós fazíamos. Mas retive uma resposta quando lhe perguntei o que queria. Liberdade e Democracia, para fazermos o que queremos… Comentámos a resposta, o Vijaya e eu e chegámos à conclusão que o fazermos o que queremos era bonito, mas queria dizer que dos dois assuntos ele sabia pouco…

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mmmmmmmmmmmmmmmmm

quinta-feira, 17 de Julho de 2014


NA PRIMEIRA PESSOA



Se conheces o inimigo e conheces a ti mesmo,
não precisas temer o resultado de cem batalhas.
Se o conheces mas não te conhece o inimigo,
para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota.
Se não conheces nem o inimigo nem a ti mesmo,
perderás todas as batalhas.
Sun-Tzu autor de “Aarte da guerra”


Areia na guerra

Antunes Ferreira
Cinco e meia de uma manhã ensolarada, 32º,  a anunciar novo dia de calor, já o motorista pusera a trabalhar o motor do autocarro que levaria os representantes dos órgãos da comunicação social que, de acordo com o programa anunciado seguiriam até Bassorá, para ver como ia a guerra. O que significou que a alvorada fora às quatro, ia desaparecendo a noite vencida pelo sol, originando um lusco-fusco premonitório de termómetros a dar o berro. Pequeno-almoço forte, com ovos mexidos, estrelados ou omeleta, simples, de cogumelos e de queijo. Salchichas de carne de galinha, sandes diversas, compotas, cereais diversos, frutas secas e naturalmente torradas, leite, café, chocolate e iogurte.

O guia apresentou-se, Omar Rafik e informou que o condutor se chamava Mohammad Al Samir, que tinha como “ajudante” um tal Wahid que todos os presentes consideraram um agente da polícia política para “apanhar” o que a malta dissesse. E Rafik ainda informou que levávamos no machimbombo com ar condicionado um farnel para a viagem, tipo ração de combate. 
Antes da partida

 Desse modo, iríamos  habituando-nos ao que nos esperava na frente de combate. Era um grupo heterogéneo: além de nós dois. portugueses, havia quatro koweitianos da televisão do seu país, três venezuelanos entre os quais uma mulher, quatro espanhóis ,com mais uma mulher fotógrafa, dois italianos, cinco sauditas, dois brasileiros, quatro britânicos, três gregos, um argentino, um queniano, um argelino, dois australianos  e uma mexicana que por mal dos meus pecados se chamava Edite Ferreira. Incluindo os três iraquianos éramos 42; o autocarro tinha 50 lugares: tudo nos conformes.

A estrada avançava em linha ziguezagueante pelo deserto. Larga e asfaltada, tinha sido construída expressamente para ligar as duas maiores cidades do Iraque, por mor da guerra. De um lado e do outro havia centenas de viaturas abandonadas, muitas das quais topos de gama: Mercedes, BMW, Audis, Toyotas cujos modelos enormes eu nunca vira, Bentleys e diversos Cadillacs e até contei um Rolls Royce. Naturalmente também muitas carrinhas e camiões. Uns usados; outros novinhos em folha. Os donos deviam estar fartos deles e como não faltava dinheiro petro, jaziam as viaturas como num cemitério duplo. O guia (que falava uma excelente mistura de castelhano, português, francês  e  italiano) e o tal “ajudante” mais dado ao inglês e ao alemão não se descoseram e, disfarçando, passaram para outro tema, Não tinham entendido, melhor não se deram ao trabalho de o fazer. O clima também não ajudava a produtividade informativa. Ao longe via-se uma pequena caravana de camelos com o seu passo lento e oscilante.

Salvou a situação o motorista que decidiu fazer uma demonstração do 
calor que fazia fora do autocarro; aliás, dentro, a situação piorara pois o aparelhómetro 
do ar condicionado devia ter tirado uma pequena folga, trabalhando ao ritmo iraquiano.  Samir partiu um ovo sobre o asfalto e os mais afoitos que tinham saído também, não 
viram um ovo estrelado, mas sim um muito esturrado como o carvão. O homem repetiu a graça e eu só então pude ouvir  chiar o produto da galinha (que o Colombo imortalizara), até se carbonizar.  Faziam  uns bons 52º centígrados. A partir de aí com umas 
bebidas frescas (?) o bólide colectivo parecia um paraíso. As rações de combate eram 
uma merda, mas como a fome estava em vias de entrar, lá engoli umas bolachas duras como sola. Ao pé delas as “capitão” da tropa colonial era um manjar celestial. E logo 
me veio à ideia a Nau Catrineta: “Deitaram sola de molho, para o outro dia jantar. Mas a sola era tão rija, que a não puderam tragar." Finalmente chegámos a Bassorá, onde os 
estragos da guerra existiam por boa parte da cidade.
  
O Hotel Sheraton assustaria um cabo de forcados, pois estava  coberto de 
sacos de areia do chão até ao cocuruto. Uma imagem realmente pouco entusiasmante, mas era nele que iríamos ficar durante quatro dias. Quando apresentei o meu passaporte e a licença governamental para estar no teatro da guerra o senhor indiano que dirigia a 
operação disse-me para esperar uns momentos pois queri falar comigo em particular. 
Interroguei-me em pensamento: mas que mal fiz eu desta vez? No entanto, aguardei. 
Despachados os outros jornalistas o chefe do balcão de entrada disse-me que falava um pouco de Português, pois era natural de Goa. Respondi-lhe, tem piada a minha mulher 
também é… De olhos arregalados o homem identificou-se: Francisco Xavier (sem são) Mascarenhas Menezes. Era de Salcete, mais precisamente de Raia.
 
Umas bailarinas polacas
Foi o bom e o bonito quando lhe retorqui que a Raquel também era de 
Raia, do bairro Oda. Menezes saiu do balcão e veio dar-me um abraço quilométrico. E 
começaram as confidências, tinha um primo o Raul Menezes que morava na rua Reis,
eu devia conhecê-lo era ajudante de farmácia. Respondi-lhe, que sim, perfeitamente, sei muito bem quem é e a rua por acaso é uma avenida e chama-se Almirante Reis. O 
homem nem queria acreditar e com razão; quanto à avenida tudo bem, no que concerne o primo, uma mentira descarada. Regozijou-se e pediu-me para no fim da estadia levar 
uma encomenda para dito o primo: tâmaras, ele gosta muito. Claro que sim, meu amigo. Antes de me dar a chave duma suite (o resto do grupo apanhara quartos…) enfiou num saco do hotel duas garrafas de Vat 69 velhíssimo e de formato pouco habitual. Eu nem 
sabia que existia. E quase ao mesmo tempo sugeriu-me que no último andar do hotel 
havia uma boate com bailarinas polacas e se eu quisesse uma para me aquecer os pés na cama era só escolhê-la. Ele tratava do resto… Agradeci-lhe mas disse-lhe que apesar do ar condicionado já tinha as patas quentes da sacana da areia. Não sei se me 
considerou panilas, mas isso era lá com ele. Eu não era, não sou e nunca serei, juro. 
Para que não haja dúvidas aqui o registo.
 
 
Na madrugada do dia seguinte – que raio de ideias de horário tinham estes gajos – seguimos em carrinhas militares ao longo do Chatt al-Arab ou rio Arvand é um no Médio Oriente, formado pela confluência do Tigre e do Eufrates e que desagua no Golfo Pérsico. Os dois rios da velha Mesopotâmia juntam-se na cidade iraquiana de Al-Qumah e até ao golfo, o Chatt al-Arab é a fronteira entre o Iraque e o Irão. Local eminentemente estratégico foi nele que começou o confronto entre os dois países que rapidamente degenerou em guerra. A seguir deixámos o rio e internámos-nos no deserto. A partir de aí as instalações militares espalhavam-se por toda a parte com predomínio dos tanques e das baterias antiaéreas.  Um coronel comandava a escolta que nos rodeava e, pelo sim, pelo não, foram-nos distribuídos capacetes militares pintados de branco com PRESS em letras azuis e bem visíveis.

Não acreditei que os iranianos, do outro lado, aceitassem a cor dos “elmos”, mas se fossemos daquela para melhor(pior (pior) sempre iríamos mais compostinhos. Mas, o certo é que as piadas desapareceram. O Jorge e eu tínhamos andado na guerra colonial. Mas aqui era outra loiça. Chegámos com  o credo na boca a uma barreira de sacos de areia que protegia uma trincheira. Tinham pregado, na parece feita pelos esses sacos, uma foto do Salvador da Pátria iraquiana de espingarda em punho, olhando para a objectiva.

O Salvador da Pátria iraquiana...
Propaganda?  No deserto, o que não faltava era a areia mesmo ensacada. Havia soldados e oficiais e sargentos e mais que não sabia; usavam espingardas automáticas, metralhadoras, pistolas, bazucas e, quiçá fisgas e corta-unhas. Agora gozo, mas na altura tinha o buraco ao fundo das costas tão apertado que nele nem caberia um simples alfinete. Tive direito a binóculos, aliás como outros aventureiros/jornalistas. O espanto era ver os árabes nos seus balandraus imaculadamente brancos a tirar fotografias e a filmar para as TVs respectivas.

Estávamos num alto formado pelas dunas e lá em baixo num vale meio alagado – ambos os contendores tinham explodido os diques que tinha havido por ali – decorria, a sério, uma batalha de blindados. Não os contei, pois havia alguns destruídos largando fumarada negra e densa que subia até onde nos encontrávamos, mas, por certo, eram mais de cinquenta de cada lado. Os canhões trovavam, as metralhadores silvavam balas de todo o tamanho e feitio; não era que eu as visse, mas um major que estava ao meu lado encostado como eu à muralha de sacos de areia, ia-me descrevendo o material bélico que estava a ser usado. Tinha visto no cinema e na televisão batalhas similares. Mas essas eram só cartão e cenários e tanques em contraplacado e figurantes diversos, convenientemente maquilhados, com litros de ketchup e tiros de pólvora seca. Nelas, o herói sempre se safava, e normalmente era o vencedor, com medalhas e garota e tudo.

Era uma guerra virtual à ordem do realizador, com assistentes em barda à volta, cameramen às toneladas, maquilhadores e maquilhadoras, aderecistas, holofotes q.b. enfim toda a panóplia do falso a fingir de verdadeiro. Filmes desses custavam muitos milhões e se as cenas eram pouco convincentes, voltava tudo à primeira forma, os mortos regressavam à vida, os estropiados punham de parte as muletas e canadianas de bambu e saltavam à corda, reconstruíam-se os carros de combate, reinava a patex, a fita adesiva e o agrafador.
... e civis estoirados no chão
Mas esta era real, não era de fingimento, pela primeira vez vi homens fardados envolvidos em chamas  a saltar de tanques esventrados e não era no celulóide muito menos em bobines cinematográficas, vídeo ainda não havia. Um horror em directo, com os urros dos 
estropiados a chegarem ao paredão onde nos alapávamos, e um cheiro fétido de pólvora e de entranhas pelo chão. Aliás, antes de ali chegarmos vira corpos de soldados e de civis estoirados na areia empapando-a de sangue, uns mais completos  outros em pedaços.

Estava no sector Qamad e o Jorge tinha o seu poiso no Azaf, não era o tempo dos telemóveis, os telefones militares serviam para dar ordens e contra-ordens, para enviar planos, tudo com palavras passe, podia o inimigo ouvir e aí estava tudo fodido. Um sargento chamou-me; pedira-lhe, se fosse possível, para falar com prisioneiros iranianos que era o que mais havia do lado de cá, do outro os prisioneiros eram iraquianos, como diria o amigo Banana.

Prisioneiro e médico


Meteu-me num jipe e fomos até uns edifícios bastante retirados do teatro de operações e vieram os ditos, limpos e nutridos, e eles aqui tratam-nos bem, fomos enganados pela Guarda Revolucionária. Eram jovens e miúdos, uns poucos já  homens feitos, mas todos louvavam os captores .Iriam voltar a casa, ás suas famílias quando o pesadelo acabasse. Tinha com intérprete um médico militar e por isso só entendia o que ele me dizia num inglês arranhado tão mau como o meu. O que afirmavam eles, isso era outra estória. Despedimos-nos com sorrisos (falsos) e apertos de mão. Um puto deu-me um abraço e segredou-me algo que não percebi.

Samir, eu e Jorge
Voltámos aos locais dos combates, os jactos iraquianos passavam no céu azul manchado de negro dos rebentamentos. Faziam um barulho danado, despejavam montanhas de bombas nas fileiras inimigas; vi um Mig (avião russo) iraquiano ser abatido pela antiaérea  iraniana, nem sombra de pára-quedas, mais um para a estatística castrense, ou seja, menos um. No vale os blindados encarniçavam-se uns contra os outros, mas como restavam poucos foram abrandando os ímpetos iniciais até retirarem deixando o solo queimado juncado de mortos e feridos sem grande esperança, no meio das carcaças esturradas de tanques sem torretas. Mais tarde tiraríamos, o Jorge eu, uma fotografia junto de um quase desmantelado. Connosco o motorista Samir. Veio então uma ordem, o general comandante da região ia dar um brífingue para a malta da informação, no  bunker de onde dirigia as operações.

Palavra que foi um dos momentos em que senti um medo espalhado pelo meu corpo, agarrado a cada uma das minhas células, circulando aos soluços no aparelho circulatório, veias e artérias emaranhadas, intestinos escalavrados, enfim um grande cagaço. E porquê esses arrepios, esses suores frios, esse derrame da pouca ou nenhuma valentia que ainda pudesse ter. Já o escrevi várias vezes: não nasci para herói. Para cobarde? Sei lá, mas não me falassem mais em tiros e em bombas e em granadas. O bunker estava enterrado na areia do deserto, e de acordo com o coronel , não havia bombardeamento que desse cabo dele, seguro que nem uma rocha de granito. O que me fez recordar o cemitério dos Prazeres (que filho da puta de nome para um lugar carregado de defuntos, definitivamente falecidos, como dizia na brincadeira meu tio Armando e meu padrinho).
...paredes de sacos de areia

Descia-se por degraus de madeira num corredor que era um túnel feito com… sacos de areia, pois que mais havia de ser? Pelos interstícios da sacaria escorria uma areia menos conformada ou mais renitente. À medida que nos afundávamos nesse antro bélico, o ar rareava. Mas umas grandes ventoinhas aliviavam o calor e a consciência dos espeleólogos à força, com PRESS a azul nos capacetes brancos. Cerca de dez metros de areia tínhamos por cima de nós. Sentia-me enterrado em vida, ainda que nunca tivesse experimentado tal posição, que devia ser incómoda. Enfim chegámos a uma sala e os sacos continuavam a deixar correr estalactites móveis de areia. Junto à parede do fundo havia uma secretária ao lado da qual num tripé encontrava-se um mapa das operações militares com setas a verde para os “nossos” e a vermelho para “eles”. O general Al Nabih começou por elucidar que debaixo daquele bunker estavam enterrados cinquenta mil soldados iranianos; e puxou uma fumaça do charuto que ostentava.

Foi nesse preciso momento que a jornalista mexicana não se conseguiu conter e encostada à parede dos pulhas dos sacos de areia começou a vomitar. A revelação do comandante militar dera-lhe a volta às tripas. Ficou toda a gente espantada, nunca se vira naquele recinto mais do que seguro, um tal aviltamento de uma visitante. Mas ninguém se mexeu para amparar a profissional que nos arrancos de nojo se ajoelhou.
... começou a vomitar
Foi nesse momento que o intérprete que connosco descera se voltou para mim e disse ajude a sua mulher. Éramos ambos Ferreiras e o bandido levara o apelido ao extremo. Respondi-lhe no mais puro português, ajude-a você, seu paneleiro de merda! Ninguém entendeu a resposta? Não! O Jorge Dias e os brasileiros pelo menos devem ter entendido.

Assim, estava encaixotado num bunker de sacos de areia a dez metros de profundidade no meio do deserto da maldita areia quando tentaram impingir-me uma "esposa bem-amada", a jornalista mexicana Edite Ferreira, que inda por cima era mais feia do que uma bruxa aposentada. Se a Raquel estivesse presente a guerra seria outra, podem crer.


(As fotos do artigo são do Google Imagens, pois eu nunca levava máquina fotográfica; mas as em que apareço são da autoria da malograda repórter espanhola Maricarmen Ramirez, infelizmente já falecida com um cancro)

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A bomba das sextas-feiras

Na tarde do último dia, saíamos às oito da noite para fugir ao calor, estava em boxes no meu quarto do Sheraton, vendo na televisão o Wrestling uníca coisa possível pois todos os outros canais passavam mullahs a convidar à oração (presumi), mesquitas e minaretes, Allá é o único Deus e Maomé o seu profeta, bebendo o meu Vat 69 modelo top, quando um estrondo enorme abanou o edifício e partiu todos os vidros de todas as janelas. Pareceu-me que caíra uma bomba na casa de banho.


Uma uma vez um quarteirão

Ainda hoje não sei porquê - seria por pudor, o que não me é normal, vesti as calças e ala que se faz tarde. Desci a correr as escadas, pois não devia usar o elevador e quando cheguei à Recepção, o Francisco (sem São) Xavier ouvia tranquilamente um fado à maneira, com a Amália a cantar. 

Na rua passava um casal com um carrinho de bebé, por entre o pessoal que por ali passeava sem quaisquer problemas. Perguntei ao Xavier o que tinha sido aquilo e ele paulatinamente disse-me que era a bomba das sextas-feiras, e que nunca era contra o hotel. A pedido dele, ia mostrar-me o resultado. E mostrou. O terceiro quarteirão estava feito num oito. E o meu interlocutor, eles bombardeiam à sexta e nós ao domingo. Querido Raul Solnado.

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Blogger = pulha
Este blogger está cada vez mais pulha! O safado lembrou-se de entrelinhar uns parágrafos do texto. Palavra de honra que, desta feita, não me pode ser assacada qualquer culpabilidade. Grande chulo!!!! Desculpem-me os que costumam ler o que escrevo.