Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

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Já 
cá 
canta!

A proposta da capa do Crónicas das minhas teclas já cá canta. E foi aprovada. Ora digam lá se não é bonita?!?!?!

Claro que pode já ser utilizada para a divulgação do livro (nos blogues e/ou por imeile) que também já está paginado. Um destes dias vai para a impressão e acabamentos. Por isso, penso que o lançamento está a aproximar-se. Palavra de honra que continuo muito feliz.

A utilização da imagem não está sujeita a © copyright. É absolutamente livre; e a melhor PUBLICIDADE é feita pelas Amigas e pelos Amigos. Obrigado!

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Isto não quer dizer que não haja mais comentários sobre A lagartixa com rabo brasileiro; bem pelo contrário e como sempre acontece - que venham muitos e bons

Obrigado




UM BAHIANO EM BRASÍLIA





José Fonseca Filho
Lusólia, a lagartixa encantada, perambulava pelo prédio onde reside o jornalista e escritor Ferreira. Atrevida, ela conseguira chegar ao décimo andar e entrar em seu apartamento. Fuçava tudo que lá havia. Encontrou  em um jornal amarelado e envelhecido uma antiga entrevista exclusiva do Ferreira com o Vasco da Gama, em que ele afirmava, pela primeira vez, o propósito de navegar até as Índias.


A lagartixa, em poucos dias, conhecia tudo do apartamento. Só para irritar os donos da casa, costumava se bronzear no abatjour da sala, justamente enquanto Ferreira escrevia suas crônicas. Atrapalhava a iluminação. Mas Lusólia gostava mesmo era da cozinha, não tinha tiques intelectuais. Roía queijos, presuntos, pães, e certa vez estragou meio quilo de bacalhau com suas minúsculas mas afiadas mandíbulas.


Quando o prédio entrou em obras Lusólia ficou desesperada. Um dos elevadores foi destinado só para transporte de materiais de construção. No  de passageiros ela era caçada pelos moradores.
Era caçada pelos moradores
Estivesse pendurada no teto ou deslizando pelas paredes. Uma senhora gorda do sétimo andar só entrava no elevador com um chinelo de couro na mão, decidida a acabar com a lagartixa.




Lusólia, sem o elevador, tinha de ir ao décimo andar grudada nas paredes,  uma verdadeira maratona. Ela ia de três em três andares,descansava meia hora e depois recomeçava. Nesses intervalos, xingava os operários da obra, a mãe do engenheiro e o pedreiro angolano que se divertia em jogar água com cimento para tentar prendê-la de vez numa parede.



O animal gostava da casa do Ferreira. Lá podia continuar futucando os  livros, entrevistas em jornais antigos, queijos, biscoitos e as deliciosas muriçocas, mosquitos e outros insetos que engolia com rapidez. 
Os Lusíada...
Além dos cupins da primeira edição dos Lusíadas, que Raquel já recomendara enrolar em plástico. O livro ficou sendo Os Lusíada porque Lusólia comeu, pouco a pouco, o último S.




A sáuria sofria mais do que os moradores, durante as obras. Várias vezes os operários lhe jogavam areia nos olhos. Então ela ia para a parede externa aproveitar o vento fresco que vinha do Tejo. Uma vez escorregou e só conseguiu se agarrar na marquise do primeiro andar. Por pouco não se estabocou  no chão.



A seguir, um pedaço de tijolo, logo com o lado pontudo, caiu em cima de seu maior orgulho: o rabo, que considerava um dos mais lindos e bem nutridos de Lisboa. E porque não dizer, gostosos. Para ela, nenhum lagartixo haveria de resistir ao seu rabo. Mas agora, triste realidade,  estava sem o rabo.  Que futuro pode ter uma lagartixa sem rabo, lamentava Lusólia. Para crescer um novo, calculava semanas.



A providência foi sua salvação. Na coleta de resíduos da obra, se posicionou em cima da areia que seria apanhada por uma das pás dos operários.  Assim foi jogada num caminhão, que tomou o rumo do aeroporto de Sacavem, e lá foi descarregada num depósito de restos de construção. Mesmo mutilada Lusólia não se deixou abater.



O fato é que ela fugiu a
As engrenagens do freio
toda velocidade para o pátio de manobras e subiu, ágil, pela roda de um avião da TAP. De um salto pulou para as engrenagens do freio hidráulico, que já estava sendo acionado. Logo o avião começou a  rolar pela pista. Lusólia estava morrendo de frio, e o vento quase lhe arrancava as orelhas.
(*)
Tenho certeza de que este avião estava vindo para Brasília. Atualmente é por ele que mais portugueses entram no Brasil, para verificar o que foi feito  da terra que aqui descobriram com tanto sacrifício. Geralmente não acreditam que deu no que deu. É provável que a Lusólia volte para Portugal pelo mesmo meio de transporte: a classe ultraeconômica da TAP, situada nos freios.



Quem sabe até, já de rabo novo, crescidinho, e até de consistência mais jovem.  Até porque os congêneres locais, nesse particular, não a trataram muito bem. Lagartixa sem rabo nem pensar, frisaram os lagartixos brasileiros. Não passou muito tempo, garbosa, Lusólia já estava pronta para regressar a seu país, após um curto período de crescimento, de rabo novo.



As obras no edifício
... Um sexy e charmoso
do jornalista Ferreira já estavam concluídas. Tem  elevador novo com parede fosca, melhor para agarrar as patas. Os moradores ainda têm uma situação delicada a lidar. Em baixo do prédio há uma verdadeira multidão de lagartixos interessados em conhecer a esfuziante Lusólia, ostentando um sexy e charmoso rabo brasileiro.




(*) - Lagartixa tem orelha?


terça-feira, 21 de Outubro de 2014

DIAS & DIAS

Uma 
lagartixa
trabalhadora

Antunes Ferreira
De
 manhã vi uma lagartixa sem rabo. Movia-se com a rapidez com que se movem as lagartixas com rabo. No meu prédio estão a fazer obras, mais precisamente no décimo andar que é o topo do edifício. O elevador número 2 não pode ser usado, de acordo com o aviso que, atempadamente, o Carlos afixou nas paredes dos dois que servem os moradores. Este Carlos é o porteiro substituto do senhor Sequeira, pai dele, que se encontra na situação de duplo reformado: da GNR e há cerca de dois anos da portaria

AVISO
AVISAM-SE OS SENHORES CONDÓMINOS QUE POR MOTIVO DE OBRAS NO DÉCIMO ANDAR OPORTUNAMENTE AUTORIZADAS PELOS SENHORES ADMINISTRADORES, O ELEVADOR N.º 2 SERÁ SÓ USADO PELOS TRABALHADORES. DO FACTO PEDEM-SE DESCULPAS PELAS INCOMODIDADES. OS TRABALHOS COMEÇARÃO NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA, 20 DO CORRENTE MÊS DE OUTUBRO E ESPERA-SE QUE ESTEJAM CONCLUÍDAS NO DIA 12 DE NOVEMBRO. PEDE-SE A COMPREENSÃO DOS SENHORES CONDÓMINOS PARA OS RUIDOS QUE COMEÇARÃO ÀS NOVE HORAS DIÁRIAS E EM QUE SERÃO UTILIZADOS MARTELOS PNEUMÁTICOS. MUITO OBRIGADO
 
Dos dois elevadores um só serve para as obras
Vo
lto, entretanto, à lagartixa sem rabo. Que se escondeu enfiando-se num interstício do chão do ascensor número 2 que está coberto por folhas de cartão dum frigorífico made in Korea, assim rezam as ditas. No elevador entram dois trabalhadores pretos com os respectivos capacetes de segurança mas desapertados. Portanto penso que a lagartixa também deve ser operária porque usa o sobe e desce só para uso das obras. Estas congeminações costumo tê-las pela parte da tarde e como já são 20:17 (terminologia politicamente correcta) estão perfeitamente justificadas.


 uns minutos desci ao rés-do-chão e a porta do elevador n.º 2 continuava aberta trancada por três baldes de detritos das obras que penso que amanhã serão deitados no contentor que plantaram na zona de estacionamento em espinha mesmo em frente do portão do prédio. O mastodonte metálico está aliás ladeado por quatro baldes pintado às riscas horizontais vermelhas e brancas. Um tanto desalinhadas impedem que mais dois automóveis ali estacionem. Porém a lagartixa sem rabo deve ter largado o trabalho pois não a vi em qualquer lado.
 
Os martelos pneumáticos (?)
Ob
ras neste prédio (ou em qualquer outro edifício) são realmente uma chatice para quem mora cá. Os martelos pneumáticos  sempre pensei que pela denominação rolassem silenciosamente como os das viaturas auto. Mas estes não sabem disso, fazem um barulhão e para quem está reformado – como é o meu caso – acordam os condóminos menos madrugadores. Mesmo tendo sido motivo de aviso feito pelo Carlos e por ele também afixados nas paredes dos elevadores, quando tínhamos dois à disposição.

Um
 casal amigo que veio passar a tarde connosco disse-me, mais precisamente nos, à Raquel e eu, que também tinham tido obras no prédio deles e que no que lhe fica ao lado direito também tal aconteceu e foram quase quatro meses a ser martelados, ainda que  pneumaticamente. E por acaso, a filha que é engenheira electrotécnica, também padeceu do mesmo mal, sofrimento que ainda caiu em sorte a mais casais com quem eles se dão.
Nas minhas obras há

Ho
uve chá e bolo de amêndoa e uísque Black Bushmills da Irlanda ocupada e eu fiquei-me por um trivial sumo de tomate mexicano, o que significa picante comprado no Lidl, o que me deixou de cara à banda. Mas, reagi e perguntei se nalguma das obras que tinham sido mencionadas trabalhava uma lagartixa sem rabo. Olharam-me com alguma atenção para ver se descortinavam indícios de qualquer coisa psicossomática, o que aliás não sei o que é, mas fica sempre bem, dando um ar de cultura à escrita. E eu, com um sorriso alvo: nas minhas obras há.  


quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA (2.ª parte)




Antunes Ferreira
M
as, não me fui deitar, não senhor, pois o Almerindo Jaka Jamba agarrou-me por um braço e inquiriu-me: já conheces o jango? Ao que respondi que não senhor, não conhecia. Mas que porra é essa? Já vais ver. E dirigimo-nos para uma cubata grande e circular onde entrámos. No centro dela ardia uma fogueira cujo fumo saía por uma “chaminé” aberta logo por cima no telhado de colmo. Acompanhando as paredes havia um banco corrido que circundava todo o recinto.

A
lmerindo foi sentar-se e eu tomei lugar ao lado dele. No banco havia mais militares que conversavam em voz baixa. Esta é a nossa sala de retiro, meditação e troca de opiniões; como vês é comunitária e muitas decisões sobre temas da guerra são aqui discutidas, analisadas, ponderadas, para depois ser tomadas. A ideia parece-me boa, anui. E é, podes crer. A nossa conversa versou porém sobre o futebol. Ele era benfiquista e eu sporingé (como em Angola se dizia…). O assunto prolongou-se e no fim fui-me deitar eram quase três horas da matina.


N
a manhã, ou seja, horas depois, meio acordado, maio adormecido, tentando esconder os bocejos, tomei o pequeno-almoço com o engenheiro Elias Salupeto
Savimbi morto (2002)

Pena e um coronel Eduardo Sapalo Kalundula. Conversámos bastante sobre o futuro de Angola que no entender deles teria de passar forçosamente por Savimbi a quem tratavam por Presidente. Mal sabia eu – e eles – que, tempos depois, ambos estariam mortos no grande massacre de Outubro de 1992 que, para a UNITA, resultaria em mais de cinquenta mil mortos. E Savimbi também seria abatido, já em 2002 em circunstâncias enigmáticas. Teria havido uma traição? O certo é que a UNITA estava muito debilitada. Em 1998 a UNITA cometeria um erro gravíssimo, quando o general Altino Sapalalo Bock atacara o Kuito, e sofreria uma enorme derrota. A partir daí a guerra era difícil por falta de homens, de armas e de munições. Mas, volto à permanência na Jamba.

A
 propósito, transcrevo um texto do jornalista e analista político de temas angolanos Orlando Castro: “(…)nessa altura, o MPLA tentou neutralizar todos os que pensavam de maneira diferente do regime”. E, mais à frente, escreveu ainda Orlando de Castro: “Foi uma tentativa de decapitar a UNITA. Tanto que fala-se em milhares de mortos, eventualmente até em cerca de 50 mil. É certo que também o próprio vice-presidente da UNITA, Jeremias Chitunda, tal como Mango Alicerces [secretário-geral da UNITA] e Elias Salupeto Pena [sobrinho do líder do partido, Jonas Savimbi] foram mortos nesse massacre", conta Orlando Castro. "Na história do MPLA, os massacres, ou as purgas, ou o que se lhe quiser chamar, são uma regra estratégica do regime, mesmo até para os próprios simpatizantes do MPLA.”

N
ão me quero pronunciar sobre o que terá acontecido, pois durante a visita à Jamba nada fazia pressupor a ocorrência de tal mortandade.  Mas a ter sido assim deveria ser apelidado de genocídio. No entretanto, retomo o que passou na visita a que já me referi e da qual contei antes algumas minudências. Carlos Fontoura que se tornou um bom amigo, dirigia o grupo, mas eu que me atrasara com a conversa durante o mata-bicho, fui acompanhado por Salupeto Pena.
 
Costurar vestuário civil
C
omeçámos pela “oficina de fardamento”, onde um numeroso feminino trabalhava em máquinas de costura – algumas, poucas, eléctricas -  na produção de fardamentos para a tropa. Era um enorme barracão, ou melhor uma enorme cubata e no entender de Salupeto, os resultados eram muito bons. Perguntei-lhe se os militares pagavam por cada um e fiquei a saber que na Jamba não corria qualquer moeda. Era uma economia de troca.


U
topia pensei, mas não comentei. Cada um procedia como lhe mandavam e só tinha que cumprir bem a sua missão. Uma equipa à parte costurava vestuário civil para os habitantes. Thomas Morus ficaria, por certo extasiado perante um tal espectáculo. A escola também foi objecto do nosso périplo e aí reencontrámos o nosso grupo para visitarmos o hospital.

E
ste funcionava em três cubatas, dotadas da maior higiene e até tinha sala de operações e radiologia. Carlos Morgado, como seu sotaque angolano carregado explicou-nos como o serviço de saúde funcionava; contava com mais cinco médicos formados na África do Sul, na Argélia e em
Carlos Morgado
Portugal que se revezavam nos serviços sem grande apego às espacialidades, como víamos eram poucos; de igual modo poucos também eram as enfermeiras e enfermeiros.  Mas faziam o que melhor podiam fazer.

H
avia uma proposta para irmos à serração, bastante afastada da “capital”  por picadas um tanto incómodas. Mas quando Norberto me elucidou que era lá que se preparava todo o madeirame de que a Jamba necessitava para a construção de novos edifícios ou ampliação de outros já existentes e reparação de mais alguns  – e como já me tinha habituado a tais pavimentos na minha época fardada… decidi ir. Não sei se o Crespo nos acompanhou porque fomos em dois jipes, mas seguimos.

E
ra uma antiga serração de madeiras que vinha da época colonial e lá trabalhavam diversos homens com protecção militar. Foi ali que inquiri o Norberto o porquê dos tectos de colmo quando, por exemplo, a minha cubata tinha-os reforçado por dentro por tijoleira de cimento. Seria pela chuva? E o mulato respondeu que também, mas que os telhados de colmo eram uma boa camuflagem, pois num ataque da aviação inimiga era difícil distingui-los da mata em redor. Nas cercanias não se ouvia um tiro que fosse. E regressámos à “capital” depois de ter distribuído mais uns maços de Gitanes sem filtro. Fiz as minhas contas de cabeça: estavam a acabar. Talvez uns Hermínios viessem a resolver  a carência que se aproximava… Também era tabaco preto e de origem angolana.

V
oltámos. Por via do tempo manhoso a picada, revolvida entretanto pelos camiões carregados de troncos na ida e de madeira já aparelhada na volta, estava transformada num depósito de areia que originava um nevoeiro de nem queiram saber. Passámos ainda por uma capela católica pois ainda que Savimbi dissesse que era anglicano não se esquecera dos padres missionários que tinham sido os seus primeiros professores. A versão era do Norberto que se dizia católico não praticante. Opção dele.


O banho dos elefantes

E
, de repente, parámos. Não muito longe estava “estacionada” uma manada de elefantes que se banhavam ruidosamente num enorme charco barrento. Aí, o condutor que entrara mudo e saíra calado, tomou a palavra, elis tão no banho pra mulhari a peli po causa da sol. Se não se mete na áuga, os bicho podi morer porque não pdi respirar. Elis respira pelo pele pelo boca e pela nariz comprida, tromba. E o Norberto, completou, pressuroso, como vês estão absolutamente livres e sãos.
, .

D
izem que por estes lados, continuou o mulato, nós caçamos elefantes para lhes tirar os dentes e depois vender o marfim por bom preço. E também consta que juntamente com os diamantes são a forma de pagarmos o auxílio exterior. Mas podes vê-los à solta, tomando o seu banho de beleza para ficar mais giros e engatar mais fêmeas. No bando podia ver-se elefantinhos, crias agarrados às respectivas mães, com a tromba enrolada no cauda da progenitora.
 
O boato é crime...
A
gora, se o quiseres fazer, já podes dizer que viste elefantes vivos e combater essa ideia peregrina de que aqui se caçam elefantes e os que há continuam com as presas de boa saúde. Respondi-lhe porém, que me tinham garantido que os caçavam permanentemente e que aqueles que eram visíveis estavam num cercado e apenas era soltos para visitante ver; Norberto fez um leve sorriso, coscuvilhices há em toda a parte e boataria também. Não te esqueças dos cartazes que durante a guerra colonial  foram colados nas paredes de Lisboa, de Luanda e por Angola fora: Boato é crime e fere como uma lâmina

A
o chegarmos já passava da hora de almoço, ou mais precisamente a “minha” gente já tinha comido. O Norberto pôs um ar sério e antes de eu ir tomar um grande duche pois estava cagado da poeira, disse que pelas quatro/cinco horas da tarde, Jonas Malheiro Savimbi iria receber-me e dar-me a prometida entrevista. Era o dia de aniversário dele e para a noite estava programada uma farra que poria toda a gente a dançar.

E
nfim, às quatro e meia, Norberto de Castro levou-me ao bunker do “presidente”. À entrada havia duas autometralhadoras sul-africanas montando guarda. Pude reconhecer, dentro dos veículos militares, gente branca quiçá da mesma origem. O “buraco” ficava a cerca de três metros de profundidade. À nossa espera estava o Almerindo Jaka Jamba que me cumprimentou com um ar grave de quem nunca se conheceu e vai apresentar uma personalidade. E segredou-me à orelha, não faças muito barulho pois “ele” acordou mal disposto.
 
No bunker de Savimbi
E
ntrámos na sala de visitas e Jonas Savimbi veio ao meu encontro, sorridente, e apertou-me a mão, um aperto forte de um homem grande. Sentámo-nos, o Norberto também, em maples amplos e macios. E começámos a conversar, apenas os dois, o o mestiço apenas fazia presença. Perguntei-lhe se podia gravar ao que acedeu, pode, claro que pode, aqui não vai haver segredos. E se eu não quiser responder a alguma das suas perguntas, peço-lhe para parar um minuto a gravação. Concordei.

D
urante mais de uma hora focámos os assuntos mais diversos como a sua decisão, renegando os acordos de Bicesse onde assinara o compromisso da paz, de continuar a guerra; não fui eu quem a recomeçou, foi o Neto, eu tinha de responder olho por olho, dente por dente… E a propósito, falava-se muito dos elefantes “falsos”... Sabia, sabia das mentiras que eram propaladas e repetidas tantas vezes que às vezes se transformavam em verdades ficcionadas.

F
alei-lhe sobre a eliminação física de colaboradores dele, alguns mesmo os mais chegados. Espere, deslig…, não desligue nada, às vezes havia situações em que era preciso ter mão de ferro… E as pessoas sabiam o que lhe podia acontecer. Então, não há oposição interna? Claro que há, discute-se, mas no fim tem de prevalecer o interesse do movimento. E eu, antes de me despedir: diz que é um democrata, mas o maoismo ainda conta para si? Sou anticomunista e basta.E digo-lhe: ou venço ou morro de arma nas mãos!.. Premonitório... À noite vamos encontrar-nos na farra. Vai ter lugar no palco, ao pé de mim,,,

Carlos Fontoura, Savimbi,
Norberto de Castro e o autor


E
 foi realmente assim, uma enorme farra com gente da Jamba, dançando e pulando freneticamente, depois de ter ouvido o “presidente” que falou em umbundu, que o Carlos Fontoura, também no estrado, ia traduzindo para mim e disse, em resumo, que era preciso defender a nossa terra Angola dos bandidos comunistas do MPLA. Aplaudidíssimo, acabou por dizer que essa noite era de aniversário e não de política. Mal ele sabia que uns bons treze depois cumpria-se o seu vaticínio…

Q
uando a Nelly entrou pelas coladeiras foi o fim da picada. Pelas cinco horas da matina já rompera o sol fui dormir umas coisas. Fui acordado pelo Kwando Manuel que entrara sorrateiramente para me pedir patrão esqueces se faz favor o que eu li contou antes. Esquece, podi acontecer mal no meu famíla e até em eu. Que ficasse sossegado. E dei-lhe os cigarros franceses que me restavam. E dois maços de Hermínios que ainda tinha por encetar. E uma esferográfica daquelas de quatro cores. E um isqueiro bic. E uns óculos escuros Ray Ban. Ficou sossegado e saiu de mansinho, tal como entrara.

o Dakota vinha cheio


N
a viagem de volta o Dakota vinha cheio que nem uma lata de sardinhas sem pele e sem espinhas. Além dos passageiros que éramos nós – alguns pegaram no sono mesmo com o barulho dos dois motores Pratt & Whitney… - havia carga um tanto estranha: eram sacos e sacos de serapilheira cheiíssimos. Curioso, de alguns saíam pequenas pontas cor de marfim; mas na Jamba não se caçavam elefantes.






domingo, 12 de Outubro de 2014

NA PRIMEIRA PESSOA



Jamba:
"capital"
do Galo

Negro

Antunes Ferreira
F
oi o Norberto de Castro, um mulato castiço, que era jornalista e radialista (mas que infelizmente já faleceu em 2004, de acordo com a informação do Orlando Castro, a quem agradeço) em Luanda e que trabalhou na “PALAVRA” jornal semanário de que fui director-adjunto, que me convidou em Lisboa para ir à Jamba falar com o Savimbi. Respondera-lhe que sim mas que da conversa resultaria uma entrevista. Ele concordou e disse-me que ia tratar do assunto – viagens, instalação, refeições, etc. e que faria parte de um grupo de convidados.

D
ele faziam parte a Isabel Soares, o Torres Couto e esposa, a Margarida Patrício Gouveia (viúva do meu Amigo António Patrício Gouveia que morreu no desastre de Camarate), o jornalista Mário Crespo (então na RTP), uma jovem cantora cabo-verdiana no início da carreira Nely Andrade (avó da actual Mayra Andrade), Norberto de Castro e eu, grupo heterogéneo mas bem-disposto e com vontade de aprender coisas sobre o quartel-general e “capital” da UNITA.

O Estado-Maior da UNITA

A
 UNIÃO NACIONAL para a INDEPENDÊNCIA TOTAL de ANGOLA era um movimento político (que depois viria a ser partido) anti comunista – dizia Savimbi – que por isso combatia o MPLA, movimento que era considerado leninista-marxista. Mas Savimbi também o fora e até chegara a ser maoísta. Apesar de se terem encontrado por várias vezes, Jonas Malheiro Savimbi e Agostinho Neto e depois da morte deste, José Eduardo dos Santos eram inimigos na ideologia e pessoais.

N
o aeroporto de Lisboa apanhámos um Jumbo da South African Airlines que nos levou a Joanesburgo, onde ficámos instalados num bom hotel e ali também se verificou a primeira estranheza da viagem. O jantar era bifes de crocodilo, ao tempo manjar desconhecido para nós; a malta recusou-o, mas eu avancei nos steaks do sáurio. Que eram realmente bons. Explicou-me o criado (era assim que se dizia) de mesa que eram da cauda do animal, zona mais tenra e saborosa. Obviamente não traziam a pele dura e rugosa herdeira dos dinossauros.

M
anhã do dia seguinte: ir, cuidadosamente, a fim de não dar nas vistas, para um aeroporto militar (pelo menos pareceu-me) onde embarcámos num DC 3, o velho Dakota da II Guerra Mundial, onde além de nós seguia um senhor branco com barba, que se apresentou: Carlos Fontoura, militante da UNITA. Mais tarde dir-me-iam que era dos poucos brancos do Movimento. Além dele havia o Rui Oliveira, a Fátima Roque, o Joffre Justino e Carlos Morgado, o médico pessoal de Savimbi. Além disso a aeronave transportava caixotes com armas e munições, comida enlatada e outras vitualhas tudo de origem sul-africana, de acordo com os rótulos.
"Aeroporto" da Jamba

A
terrámos na pista de macadame do Aeroporto Internacional da Jamba Cmdt Kazumbela, denominação que estava afixada na cubata que servia de terminal. O que me despertou a atenção e por isso indiquei aos companheiros que estava escrito em três línguas: Português, Inglês e Africânder. Já tinham reparado mas não tinham feito comentários. E esperava-me uma surpresa.

F
ardado de camuflado e com uma boina vermelha estava à nossa espera o comandante Jaka Jamba; caímos nos braços um do outro, era o Almerindo, oito anos mais novo do que eu, mas que fora meu bom amigo em Lisboa. Licenciado em Histórico-Filosóficas antevia-se-lhe uma promissora carreira universitária, mas decidira dar aulas de Filosofia no novo Liceu de Oeiras, onde era muito considerado por alunos e professores.

U
m dia faltou às aulas, o que acontecia pela primeira vez; estranho, não tinha avisado, talvez estivesse doente: Mas, não estava. Estava a aproximar-se o tempo do serviço militar e  quiçá seria mobilizado; resolvera antecipar-se. Largou tudo o que possuía, pegou numa maleta de viagem e depois de chegar a Luanda ainda participou numas manifestações encapotadas e seguiu para a Jamba. Como? Nunca mo explicaria.

A
presentou-nos o brigadeiro N’zau Puna, de Cabinda, exemplo de que a UNITA não tinha só gente do sul. Qual foi o espanto do grupo perante um novo amplexo. Miguel N’zau Puna tinha sido alfandegário e trabalhar sob o director Carlos Alcântara de Melo, meu sogro. Como eu ia por vezes ao edifício onde funcionava a sede dos serviços, ali nos conhecemos. Umas garoupinhas grelhadas com muito gindungo (piripiri), acompanhadas de uns finos da Nocal (uma das cervejas locais) levou-vos à amizade. Vinha reencontra-lo ali na Jamba.Que ficava nas Terras do Fim do Mundo

Sem legenda...


O
 grupo entrou em quatro jipes que o levou à “cidade capital” à entrada da qual havia um letreiro em cimento pintado de branco SEJAM BEM VINDO À  JAMBA e por baixo WELL COME TO JAMBA. Quando as viaturas pararam em frente de uma cubata grande que, depois vim a saber que era a sede do Governo, recebeu-nos o vice-presidente do Governo, engenheiro Jeremias Chitunda, um preto de cara redonda e barba, sempre sorridente, que eu conhecera em Coimbra, aquando do Luto Académico, pois ali me deslocara acompanhando o Jorge Sampaio, presidente da RIA (Reunião Intra Associações). Outro abraço para a colecção.

J
eremias Chitunda ofereceu-me um boné verde com um emblema da UNITA. O Norberto não se conteve e apesar das senhoras a quem depois pediu desculpa, soltou uma exclamação na sua voz de locutor:
Um boné verde
“Foda-se tu vieste de Luanda e já conheces toda a gente do movimento!” Respondi-lhe; menos o Jonas Savimbi. Chitunda, agarrou-me num braço e comentou que chegaria o tempo para tal acontecer.

F
icámos alojados numas cubatas simpáticas e acolhedoras com mobiliário militar, sanitários e com água canalizada (torneiras e duche). Na Jamba, de noite, fazia muito frio, mas não havia esquentadores, por isso pela manhã lavava a cara e escovava os dentes para depois pela uma da tarde, aliás como toda a gente do grupo, depois do sol aquecer os depósitos que havia nos tectos, tomava o meu duche com o OH2 mais morno.

C
om apenas uma excepção: o Mário Crespo duchava-se logo de manhã cedo. Os eus gritos à Tarzan ficaram conhecidos em toda a “cidade”. Cada maluco com a sua mania, e o tipo nunca fora muito agarrado à cachimónia. Após um mata-bicho com pão, manteiga, leite em pó, café solúvel e marmelada (tudo sul-africano) começámos a visita. Fomos logo ao “teatro” ouvir a orquestra local que em honra dos convidados tocou o hino português, um tanto desafinado, mas bem-intencionado…

R
epetiu-se a cena calina: o maestro era o André Gira Carruagem (não se admirem
Sem legenda
era mesmo assim…), corneteiro na CCS/QJ – RMA (Companhia de Comando e Serviços do Quartel-general da Região Militar de Angola) onde eu era o oficial agente da Polícia Judiciária Militar, intervalado por colunas à mata. O chefe da banda, depois de me fazer a continência (?...) avançou para mim, bateu os calcanhares e pôs-se em sentido. Respondi-lhe “à vontade” e dei-lhe um bacalhau, ao qual ele correspondeu com um sorriso de orelha a orelha.

O
 grupo que já me olhava de soslaio, acertou na conclusão: eu era militante da UNITA!... Mas a Margarida Patrício Gouveia que me conhecia bem, alertou a malta: ele não é nada disso, até é da Oposição ao Marcelo Caetano, garanto-vos. Os cenhos carregados distenderam-se: afinal eu era o gajo porreiro que parecia, sempre a contar anedotas e a originar gargalhadas. Porém o Crespo parecia estar duvidoso, por isso o mandei à merda. Tudo ficou resolvido.

N
essa noite, munido de uma conveniente manta, fui até à beira do rio Jamba que ali passava. Sentei-me junto de uma sentinela que não parecia muito interessada na vigilância. Aliás para se chegar à “cidade” de cubatas era tão difícil que dispensava o “quem vem lá?” Ofereci-lhe um cigarro (na altura eu fumava como uma chaminé) e os olhos luziram-lhe enquanto o aceitava. Dei-lhe lume com o meu isqueiro Dupond, que o meu pai me oferecera em Sevilha no dia em que dera autorização para eu fumar na sua presença. 

A
 noite estava muito calma e não fora o frio até ali passaria uns momentos de descontracção. O tropa chamava-se Kwango Manuel era ovimbundo e começámos a conversar. O patrão pareces bom pessoa li vou contar coisa que não pode dizer noutros homem. E começou a relatar os assassinatos dos oficiais que não concordavam com Savimbi, de mulheres (que foram quatro) e mesmo de algumas das várias que tivera de amantes. Os resultados de tanta actividade sexual eram os seus 26 filhos. E de repente levantou-se, pois vinha um sargento passar a ronda. Depois eu fala. Dei-lhe o maço de Gitanes, sem filtro, e fui-me deitar.

(Tem segunda parte um destes dias)