Fazer Amizade com as pessoas é uma das melhores coisas do Mundo. E a blogosfera propicia isso. Mas também pode ser muito perigosa; logo, há que ter muito cuidado: somos muitos e convém não esquecer que os homens são todos iguais - mas há uns mais iguais do que os outros...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ÁGUA DE COCO

Nomes com História



 Antunes Ferreira
A
inda não tinha contado que o Amigão Dr. Zito Menezes, já muitas vezes citado nas colunas da nossa Travessa, decidira levar-me à Professora Doutora Flora Miranda para que ela me visse a perna esquerda muito escalavrada, por mor de um trambolhão maior do que se pode pensar, a que juntara no dia seguinte uma bela ferida na canela. Assim aconteceu e ilustre médica receitou-me um antibiótico forte, um sabonete desinfectante e… Betadine. Pela consulta, paguei a exorbitância de 300 rupias, pouco mais de… quatro euros; um exagero… Já comecei o tratamento e a pata esquerda parecia melhorar. Parecia, mas não estava. Infectara. Daqui a uns dias, se tiver paciência e engenho contarei o que seguiu. Uma saga doentia…

P
or isso, voltou-me então alguma disposição, animado pelos Amigos Zito Menezes, Carminho Costa e Álvaro Amorim, este de longa data e que é o “presidente” da nossa tertúlia Sabores & Saberes que todas semanas às quintas-feiras se reúne no restaurante “Sabores de Goa” no Bairro das Colónias aí em Lisboa. Note-se que foi a única denominação escapada ao frenesim salazarento que, como bom provinciano, pensou ter enganado a ONU com a transformação em… províncias ultramarinas. Porém o Bairro manteve orgulhosamente assim e ninguém foi capaz de do derrotar, nem por decreto-lei aprovado na “Assembleia Nacional”.

Meninas bonitas mas mais "compostas"...


D
aí que na antevéspera do Carnaval (que por estas bandas é também e ainda muito comemorado, com desfile de carros alegóricos e toda a parafrenália do entrudo) me decidisse a escrever este textículo; anoto entretanto que por cá, apesar da língua inglesa utilizada Carnaval é mesmo Carnaval com a e não Carnival como dizem os bifes. No entretanto achei por bem não ir ver o desfile, por mor da desgraçada perna. Muito pó, muitíssima gente, a infecção poderia aumentar e a chaga era grande.

P
ortanto assisti ao Entrudo pela televisão, dois canais goeses, pelo menos deram-no em directo. E creio que um nacional. Aproveito o ensejo para Informar que neste subcontinente há mais canais televisivos do que coqueiros, passe o exagero… E aqui para nós que ninguém nos ouve, pasme-se: em São Paulo procedi da mesma maneira. Mas, por favor, não divulguem. A costela brasileira fazia – faz sempre -  parte das brincadeiras com algumas marchas, mas onde jovens farristas iam muito menos despidas… Uma cegada suficientemente vestida… Quem nunca experimentou as cenas que, mesmo assim, se verificavam, com mais samba (e menos bundas do que no Sambódromo carioca) faça como disse o Camões: “mais vale experimenta-lo que julga-lo; mas julgue-o que não pode experimenta-lo”.

M
as, volte-se à intenção inicialmente desenhada de escrever umas linhas sobre esta terra bendita (exceptuada a perna…). O que nem é original; cada vez que estou em Goa – e mesmo noutras “índias” – tenho escrito sempre sobre estas bandas. Aproveito para lembrar que até entrevistei Indira e Rajiv Gandhi, ambos com primeiros-ministros e ambos assassinados. Lagarto, lagarto, lagarto. Donde que estas prosas serão curtas e convalescentes. Férias são férias, serviço é serviço, conhaque é conhaque.

... também se festeja o Carnaval


U
m exemplo: no centro de Pangim, mais coisa menos coisa, a caminho da praça da igreja da capital, há um jardim (que já vi mais do que maltratado) agora reconstruído pela “câmara municipal” da cidade, o City Council. Chama-se ele Garcia de Orta - quando puto o desgraçado que dissesse Garcia da Orta seria imediatamente “premiado” com cinco palmatoadas pela dona Clélia Marques, directora da escola Mouzinho da Silveira e professora da quarta-classe – em homenagem ao médico e botânico que chegou a físico da Imperatriz da Rússia, no século XVI.

P
ois num dos prédios que o rodeiam pode encontrar-se com letreiro para a praça o Clube Vasco da Gama onde nos tempos dos portugueses decorriam bailes famosos até de madrugada, com serviço aprimorado (e apropriado), onde eram famosos os croquetes de carne bem picantes, O clube fica num terceiro andar, debruçado sobre o jardim, mas hoje está reduzido a um restaurante sem grandes motivos para aplauso. Nele continuam a pontificar os croquetes, que posso dizê-lo por experiência própria têm vindo a definhar. A freguesia é, cada vez mais, mais magra. Por lá param muitos cabelos brancos, que mais dia, menos dia seguirão o seu destino final. Não faltará muito para que dos tempos coloniais portugueses só restem as igrejas…

... com os seus croquetes


N
esta terra de contrastes mas também de singularidades, é curioso para um luso-viajante que aqui aporta encontrar esta curiosidade. Para quem já está habituado, com é o caso do escriba, não tem especial significado esta coincidência. No entanto, e mesmo assim, em prédios onde há mais de cento e muitas lojas que na maioria dos casos ostentam nomes como Vishal, Karmonkar e outros, (uma papelaria, porém, ostenta o título de J. M. Fernandes, livros e artigos de escritório, em português e uma “Casa Velho” de artigos decorativos que antes tinha sido uma loja de vende tudo) pode encontrar-se esse Clube Vasco da Gama com pintura e pendão do descobridor que inaugurou o caminho marítimo para a Índia sem transferência em qualquer estação e sem cor identificadora da linha – é obra. Ainda que os croquetes já não sejam o que era, Sic transit

(Um destes dias sou capaz de recair; no textículo, no trambolhão nem pensar. Quando me der na bolha…e a maldita perna me deixe em paz. Desculpem-me a insistência sobre a lesão que talvez seja mais grave do que parecia)



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Uns mesitos 
em Goa


Gentamiga

P
artimos (a Raquel e eu) amanhã, sábado, para Goa, de onde contamos voltar a 21 de Abril. Quero agradecer-vos as atenções que me têm dispensado e bem assim a paciência com que me têm aturado.
De qualquer forma vou levar o meu portátil, pelo sim, pelo não. Se houver motivos para isso enviarei uns textos para a nossa Travessa; mas não é uma promessa: é apenas uma intenção…

Qjs & abçs para todas e todos

Henrique


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

E se houvesse

um atentado
em Portugal?

(Uma semana depois do atentado ao Charlie Hebdo, esta é a pergunta que se impõe)



Carlos Barbosa de Oliveira
A
 resolução seria muito mais fácil  e sem tanto alarido.
Haveria uma forte probabilidade de o pm estar em Bruxelas, Portas de visita a um qualquer país da América Latina e Cavaco andar a cumprir o roteiro turístico que lhe foi traçado pela D. Maria no início do mandato. Nesse caso, o conselho de ministros seria dirigido pela Marilú que se limitaria a dizer aos seus colegas de governo: tenho pena, mas não há dinheiro para accionar os mecanismos de emergência. Está terminada a reunião. Voltem para os vossos gabinetes e tomem decisões, mas não gastem nem um cêntimo fora dos orçamentos dos vossos ministérios. Boa tarde.



N
o entanto, como sou um optimista e gosto de ficção científica, vou imaginar que todos estavam em Portugal. Nesse caso tudo decorreria dentro da habitual normalidade.
Depois de consumado o atentado, Passos Coelho reuniria o gabinete de emergência e pedia ao ministro da Administração Interna para mandar um carro patrulha em perseguição dos fugitivos. A meio da perseguição o carro avariava ou ficaria imobilizado por falta de gasolina.
O ministro da defesa colocaria os quartéis de prevenção.
A polícia informava que os criminosos se dirigiam para o Algarve.  

 
... eu tinha razão em comprar os submarinos
S
eria então a vez de  Paulo Portas sugerir que fossem enviados os submarinos para  patrulhar a costa e num aparte diria, ufano, a Pires de Lima:
- Estás a ver como eu tinha razão em comprar os submarinos?
Passos Coelho pede silêncio e pergunta à ministra das finanças:
Temos dinheiro para mandar os GOE avançar?
Marilú puxa da calculadora e, após alguns minutos, conclui:
- Para isso não podemos aumentar os juízes...
Paula Teixeira da Cruz, visivelmente exaltada, interrompe a ministra das finanças:
- Nem pensar! Nos meus juízes ninguém toca! Desiste mas é do aumento dos teus funcionários das finanças, lambisgóia.


P
assos Coelho tenta serenar os ânimos e comunica que vai telefonar a Merkel a pedir apoio da UE para perseguir os criminosos.
Quando começa a fazer a chamada toca o telefone de emergência. É o PR.
- Ó Pedro, então vocês nunca mais resolvem isso? Tenho aqui dezenas de jornalistas à porta a perguntarem o que é que eu faço e não sei que lhes devo dizer.
- Não diga nada, sr. Presidente. Faça um comunicado. Agora tenho de desligar, porque tenho a Merkel na outra linha. Passe bem. Cumprimentos à D. Maria.
 
Merkel não atende...

O
uvem-se risos abafados na sala do conselho de ministros.
Merkel não atende o telefone. Manda dizer pelo secretário que ligará de volta quando regressar da China, para onde vai partir em visita oficial ao final do dia.
Fontes da polícia informam que os criminosos se dirigem para a fronteira espanhola. Pararam num posto de gasolina para abastecer a viatura e dirigiram-se para um restaurante perto de Cuba onde  recolheram todos os enchidos, duas doses de migas com espargos, e meia dúzia de garrafas de vinho. De seguida barricaram-se numa fábrica abandonada onde estão a  fazer um pic-nic.


P
assos Coelho toma uma decisão corajosa e assume a responsabilidade de acionar o GOE.
Marilú argumenta que essa medida é despesista e o melhor seria deixá-los seguir para Espanha e a polícia espanhola que trate do assunto com o dinheiro do Rajoy.
Pires de Lima interrompe a ministra das finanças exaltado:
Nem pense nisso! Termos estes criminosos em Portugal será bom para a nossa economia. Amanhã começam a chegar charters de jornalistas estrangeiros para fazer a cobertura. O importante é que o cerco dure muito tempo e, se for necessário,, a polícia deverá reforçar os mantimentos dos criminosos, para garantir que não abandonam o local.
Paulo Macedo  concorda porque assim não haverá tiros nem risco de feridos o que é muito bom, pois  os hospitais, assoberbados com doentes com gripe,  não têm disponibilidade para cuidar de uns tipos que nem são portugueses.


P
assos Coelho pede ao ministro da administração interna que providencie a distribuição de alimentos, mas primeiro telefona a Isabel Jonet, sugerindo que faça uma recolha especial de donativos para o Banco Alimentar Contra a Fome.
Depois dá a reunião por terminada, marcando novo encontro para o final da tarde, quando houver mais novidades.
À saída do conselho de ministros, interpelado por jornalistas, Passos Coelho informa que o governo está a encarar o assunto com muita serenidade, mas firme, e garante que deste crime não resultarão encargos adicionais para os portugueses.
O Correio da Manha faz  uma edição especial, com uma notícia bombástica na capa

“ Criminosos eram frequentadores assíduos da casa de Sócrates em Paris. Há fortes suspeitas de que tenham lá preparado os pormenores do assalto”
Depois de muito matutarem, Felícia Cabrita e o arquitecto encontram um título aliciante:
“ O assalto foi financiado com dinheiro da conta do amigo de Sócrates que “emprestava” dinheiro ao ex- PM”.

 
Está na hora do remédio
O
 palácio de Belém emite finalmente um comunicado, distribuído pela LUSA e publicado no site oficial da Presidência:
- O PR está a seguir atentamente o desenrolar da situação e, em colaboração com o governo, estão a ser tomadas as medidas adequadas que permitam a detenção e posterior julgamento dos autores deste atentado”.
Na Rua do Possolo, onde está retido há três dias devido a doença do foro neurológico, Cavaco está sentado diante do televisor a ver episódios da série Macgyver.
Ao seu lado Maria faz tricot.
Então como te sentes Aníbal?
- Hmmm!
Maria vira-se para Fernando Lima e diz:
Fernando está na hora de lhe dar o remédio. Pode ir à cozinha preparar um chazinho?


Com a sua autorização (aliás em termos muito simpáticos) e pelo seu interesse – pelo menos para mim… - aqui transcrevo um texto do Carlosamigo, como se pode ver pela sua assinatura. A publicação do artigo  na nossa Travessa vem um pouco atrasado por culpa exclusiva do titular do blogue que sou eu. Mas ele continua perfeitamente actual… nUm abraço ao autor e o pedido de desculpas pelo referido atraso. A.F.)


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Só um

pastel 
de nata
e crime
1
Uma árvore desfloradora


Antunes Ferreira
T
udo começou com um pastel de nata. Um corriqueiro, sem pedigree como os de Belém, muito menos dos que se tentam exportar, congelados, produto made in Portugal. Nada disso, são feitos pela Dona Deolinda, proprietária do café Saudade, ali mesmo, quase ao fundo da minha rua. Uma rua pequena, que poderia muito bem ser travessa, mas que a Câmara Municipal quis que fosse assim, não lhe mudou a placa.Estamos no princípio de Janeiro, a cidade ainda está engalanada, grinaldas por toda a parte, festões desenhados cuidadosamente, lâmpadas multicolores nas árvores, enfim toda a parafernália com que a época se armou, apesar da crise. No café Saudade a proprietária ainda mantém no balcão uma pequena árvore alusiva em plástico comprada na loja 美麗的女孩 que o dono - o senhor Wang Hua, aliás  王華  - anuncia como a melhor  de Portugal. O que ele queria dizer era a melhor do Mundo, mas retraiu-se, a modéstia é apanágio de chinês que se preze.

BOAS FESTAS


C
laro que a Dona Laurinda colocara por baixo do pinheirinho falso como o Iscariotes uma caixa tipo mealheiro, forrada a papel de lustro vermelho, o Benfica- ocupa-lhe a alma, se é que a alma existe. Um senhor doutor, que ela não sabe quem é, disse que nunca encontrara qualquer alma na ponta do seu bisturi; há coisas que, mesmo sendo verdadeiras não se devem dizer. Mas a caixa tem uma ranhura na parte de cima e em frente um cartão natalício da mesma procedência em que se diz que a gerente deseja aos senhores clientes Muito Boas Festas.

L
eu no jornal que há um grade borburinho sobre uns tais vistos Gold, explicou-lhe o Saavedra que trabalhava no banco que mudou de nome, o que lhe lixou as duas contas a prazo que ela, Laurinda, tinha nele tinha, que queria dizer Ouro, no caso Dourado. Chinesices. O certo é que a massa era dela, das bicas, dos pingados, dos garotos, dos bolos feitos em casa, das sandes mistas ou simples com manteiga ou sem ela, dos bagaços e dos uísques agora muito apreciados.

V
iúvo, reformado, mas ainda dentro do prazo de validade, com dois filhos e uma filha, é ali que eu tomo o pequeno-almoço: um garoto escuro e um pastel de nata da autoria da proprietária. Ela compra o Correio da Manha, que para disfarçar usa um til no último a, mas ainda não cheguei ao estado catastrófico: leio o Público e/ou o i que por estas páginas do calendário e outras opiniões são jornais da oposição, ainda que o senhor engenheiro Belmiro e o Jaime Antunes digam que não. Um destes dias vou discutir o assunto com o Jaime que é um amigo de longínqua data.

Le satané pavé



É
 uma rua catita em que as pedras de granito continuam casadas com o calcário dos passeios. Na Primavera nasce-lhe uma relva esparsa por entre os interstícios do pavimento. Tenho um amigo quebequense que quando veio pela primeira vez à nossa casa, ainda a minha Rosa não se mudara para o cemitério dos Prazeres, comentava que ce satané pavé est impossible, mais vous, les portugais, en savez  faire, des experts. O François de apelido Goncard era francês e tinha sido seminarista. Ainda recebera as ordens menores.

U
m dia, farto de sotainas, de batinas e de colarinhos de padre também conhecidos por cleryman, de cálices e de patenas e sobretudo de água benta, meteu-se num navio de carga e passageiros e rumou ao Canadá, mais precisamente ao Quebeque e foi trabalhar como jornalista no jornal Le Soir, onde viria a conhecê-lo. Eu também o era, escrevia no Diário de Notícias, na avenida da Liberdade ali mesmo junto ao Marquês de Pombal.

J
á em Montreal tinha casado com uma quebequense de seu nome Sylvie, que também escrevia sobre culinária, e cozinhava bem. Casal sem filhos dava-se a viajar e então ela fazia reportagens sobre os locais por onde tinham passado. Era grande de tamanho e grande de sentimentos. Estabelecera uma amizade, fruto da empatia que nós os dois sentíramos e que transmitimos às nossas mulheres. Já tinham vindo duas vezes a Portugal, un très beau pays avec un soleil merveilleux et les gens sont bien sympas.

Um talho de cavaleiro


T
em também um talho cujo dono é um antigo cavaleiro tauromáquico sem grande relevo. O irmão mais velho, esse sim, é de praças granes, de arenas grandes, de farpas pequenas e grandes, a bandarilhar dirigindo os cavalos só com os joelhos. Uma figura imponente, enfim, Não sou muito de touradas, às vezes, quando faço zapping apanho uma transmissão em directo do Campo Pequeno, de Santarém de Vila Franca de Xira, que hoje é cidade mas mantém o nome. Nesses momentos tauromáquicos, zapping, passo pra outro canal, mas todos dão programas semelhantes ou até copiados. 

C
ontinuando, no prédio da esquina o senhor Baptista transformou a sua mercearia num minimercado, a que ela, pomposamente, chama super. A caixa é a senhora Ermelinda esposa do proprietário e sócia dele. Não que seja a meias, meias só para calçar. Sessenta por cento ele, trinta por cento ela e os restantes dez por cento gozam-nos a filha e o filho deles; in medio stat virtus diziam os romanos, mas os Baptistas não foram, nem vão nessas sentenças, pois não sabem patavina de latim. Nanja eu que tive uma disciplina de tal língua quase morta no liceu. Mas aí eram o rosa, rosae e o De Bello Gallico do Júlio César.

O
 Malaquias bate-sola remendão no antanho, é agora o dono da sapataria Bom Tom. Ainda agora não consigo entender o que têm que ver botas e sapatos, ténis e sapatilhas, saltos altos e atacadores com o tom que normalmente se associa a outras músicas; não tem nada a ver, assim a modo que alhos e bugalhos.
Foi sapateiro remandão
Só se for tonalidade. No entanto, Malaquias é feliz, solteiro e bom rapaz, ainda que já vá nos cinquentas e muitos. A Lourdinhas (com ou como a terra das aparições francesas) é a sua empregada e dizem as más-línguas que também se emprega a fundo na cama dele. Aliás é ele vai ao fundo, mesmo sem ser submarino. Donde ao fudo dela. E ninguém tem nada com isso.

P
or seu lado a Alzira, natural de Moura, já apanhou malhas nas meias de senhora, profissão extinta como a dos dinossauros, nem sequer em vias de. Abriu um cabeleireiro para cavalheiros e damas, ou seja um salão de beleza unissexo. Trabalham lá uma massagista, brasileira e boa,  e uma manicura, cabo-verdiana também boa, dão esmola aos pobrezinhos, a da cidade da Praia até é da conferência de São Vicente de Paulo, daí que as duas sejam boas e ambas bivalentes no cortar cabelos de damas e cavalheiros, bem como a patroa e duas cabeleireiras, uma ucraniana  e a outra de Xabregas: uma verdadeira sociedade das nações em termos pilosos.

E
 finalmente uma agência bancária. Do banco que do Espírito Santo passou a Novo. Estranho País, à beira-mar plantado, no dizer do poeta Tomás Ribeiro e usado por toda a gente. Só nele é possível encontrar uma peça da Santíssima Trindade que também era banco. O gerente da dependência, o senhor Gentil, vê-se e desunha-se para explicar (sem explicar nada) o que passou para ter ocorrido tal mudança. Apenas comenta enquanto limpa as lentes dos óculos sem aro: “Um dia saber-se-á tudo o que aconteceu”. Um dia, qualquer dia. No Parlamento a comissão é o que se tem visto: para as calendas.

Nos tempos do antigamente...


N
os tempos do antigamente, passava aqui o eléctrico da carreira 12, mas hoje só restam agarrados ao solo os rails cada vez mais cheios de coisas que nem ao diabo lembra. Areias diversas, restos de folhas apodrecidas, resíduos de óleo de lubrificação, pastilhas elásticas mascadas, um pot-pourri de cor acastanhada como uma poia. Um tanto escorregadios, os rails, nos dias de chuva já motivaram encostos, nenhum deles grave, apenas chapa amolgada e os que a batem aplaudem.

S
ei lá, um dia há-de fazer-se a história da minha rua. Ditado transmontano diz que “Deus manda que sejamos bons, mas não manda que sejamos parvos”, ainda que haja bons parvos. A esperança que tenho no futuro autor, oxalá seja bom e não seja parvo, é que escreva e descreva com isenção e independência o que ela representou. Espero que escreva a verdade, só a verdade, e depois de ser lida pelo depoente, será assinada pelo escrivão e pelo averiguante, como consta do final da audição. inserta dos autos.

R
ecordo o tempo em que era oficial (miliciano) da Polícia Judiciária Militar, a pê jota éme, em que no quartel do Regimento 1, tangente à Amadora, tinha como escriba dos processos o segundo sargento clarinete da banda militar que juntava as claves de sol aos relatórios dos exames de sanidade feitos às supostas virgens,
Por desfloramento
no Hospital Militar, ali à Estrela. Eram feitos às meninas alegadamente desfloradas e que 
tinham feito a acusação contra namorados que lhes tinham feito a malandrice. Eram dois médicos militares, alguns milicianos que faziam a "vistoria" da cachopa. O escrivão-músico, de seu nome Ricardo Francisco Alves Vieira, pedia-me constantemente para assistir à "operação" mas eu refreava-lhe a intenção malévola, só pode assistir o oficial da PJM (que era eu...)e naturalmente os médicos examinadores Por isso, deixasse-se de merdas. E o sargento nem protestava. Ia ao ensaio da banda e ponto final. O capitão Rodrigues admirava-se pois pensava que nessa altura o tipo estava a escrever autos diligentemente. E, claro, não estava... 

D
e lembrança em lembrança chego hoje à conclusão que também aprendi anatomia forense: o desfloramento descreve-se – disse-me o Castro doutor alferes-miliciano - como se o hímen fosse o mostrador de um relógio e por isso o diagnóstico era “desflorada às 18 horas e 20 minutos”. Mas como é que vocês sabem que o “crime” ocorreu precisamente a essa hora? – perguntava eu, envergonhado da minha ingenuidade e ignorância de tais termos, és mesmo um menino de fraldas, trata-se do furo resultante da introdução do pénis na vagina da hipotética ofendida, acrescentava Castro, e o capitão médico Monteiro traduzia, ou seja da entrada do caral... na co...

N
inguém se podia rir, incluindo a rapariga que no entanto rememorava termos que aprendera com o namorado e suposto desflorador. Porém, nem tudo era assim tão simples: há hímenes complacentes eu arregalava os olhos, o quê?  Complacentes são os que se adaptam ao membro viril e furador; são uma grande porra, assim não se chega lá; chegara o acusado, mas não deixara rasto da sua aventura.  Monteiro e Castro eram os professores da disciplina das malandrices, muito obrigado.

U
m dia em Angola (na Companhia de Comando e Serviços do Quartel General/CCS/QJ onde eu que fora mobilizado, por ser um perigoso oposicionista e comunista, (nunca fui mas se o tivesse sido não me cairiam os parentes na lama, também era o oficial da PJM)  uma jovem preta, bonita como os Amores, veio queixar-se de ter sido desvirginada por um soldado mestiço, levantei o auto de averiguações. Que seria transformado  em corpo de delito, a malta dizia copo de litro, caso ficasse provada a acusação. Iniciadas as diligências, chegámos ao fatal exame de sanidade.

D
ele ficou provado que o hímen da queixosa apresentava um rasgão às 13:45. Ouvi o acusado que obviamente negou que fosse o desflorador, ainda que realmente fosse amigo/namorado da pequena. Nada feito, a justificação dele era muito suspeita. Porém acabou por alegar que a sua mãe queria depor em sua defesa no auto que já se transformara em processo crime. No dia seguinte veio a Senhora duma família importante e dona do musseque Casa Branca. Aperaltadíssima, imponente.

Q
ue o filho era um rapaz assisado e bem-educado com um excelente comportamento, todos os habitantes do Casa Branca podiam atesta-lo e porque torna e porque deixa, era lá ele capaz de uma malfeitoria que lhe fora imputada, nem pensar Senhor alferes. No quartel as opiniões divergiam das que a dama expunha: em suma um pulante. Por isso queria que o auto fosse arquivado. Porém quando a informei do exame de sanidade fechou-se em copas, sendo assim, muito bom dia, mas penso que receberá novos dados sobre o que se terá passado, bom dia minha Senhora e felicidades.

Eu ia de bicicreta


E
stavam as coisas neste pé, quando no dia seguinte apareceu-me a ofendida dizendo que queria retirar a queixa. Mas você foi desflorada, o exame de sanidade assim o confirmou, mas Sinhor arfere não foi o meu namorado, então quem foi? Posso explrcar?, claro que pode, foi assim que lhe aconteceu, eu ia de bicicreta a caminho do meu casa  mas tinha um buraca na estrada e não reparei, a roda enfiou-se nele e eu fui prujetada, tinha um árvore com o ramo cortado e foi nela que eu aterrou de pernas abertas, não levava cueca, enfiou o coisa no ramo e o mardito ramo me desfrurou.

Q
uase ia rebentando de riso mas felizmente consegui conter-me e fiquei a pensar quanto a mãe do soldado lhe teria pago, mas não havia nada a fazer e encerrei o auto. À hora do almoço, quando contei o caso a camaradas que se sentavam à minha mesa, foram tamanhas as gargalhadas, que o dono do restaurante onde habitualmente comiam militares veio saber o que se passava, se alguma coisa não estava bem, serviria outro prato. Acalmei o homem contando-lhe o que acontecera, juntou-se ao gargalhar.

N
o final da tarde já meia Luanda conhecia o “caso da árvore desfloradora”. De tal forma assim aconteceu que, no dia seguinte, telefonou-me o Governador-Geral convidando-me para ir ao palácio do Governo e tomar um copo com ele. O coronel Rebocho Vaz era um tipo porreiro, já a Dona Guilhermina, sua esposa, nem por isso. Foi uma tarde bem passada com uns uísques, caju de Calomboloca e outras minudências. Nunca tinha assistido ao espectáculo do Governador e atá a Dona Guilhermina a rirem até às lágrimas.

(Este é o início de uma “coisa” que talvez consiga chegar a novela ou mesmo romance, se eu tiver pachorra e deite a minha preguicite pra a cesta secção. Fico-me por aqui não vá o Diabo tecê-las e depois não ter leitores por já terem lido tudo)